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Neurologista do Humap-UFMS explica por que pacientes podem esquecer nomes e acontecimentos, mas continuar reconhecendo pessoas por meio das emoções

Uma pessoa com Alzheimer pode esquecer o nome de alguém próximo, não se lembrar de uma conversa que acabou de ter ou ter dificuldade para realizar uma tarefa que antes fazia com facilidade. Isso, porém, não significa que toda a sua história tenha desaparecido.

A doença provoca uma deterioração progressiva de áreas do cérebro responsáveis por diferentes funções cognitivas. As memórias mais recentes costumam estar entre as primeiras afetadas, enquanto lembranças antigas, habilidades adquiridas ao longo da vida e vínculos emocionais podem permanecer preservados por mais tempo.

É o que explica o neurologista Pedro Levi, coordenador do Ambulatório de Cognição do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS). Segundo ele, a memória que guarda acontecimentos da infância, relações familiares e experiências acumuladas durante décadas possui uma proteção maior contra os efeitos iniciais da neurodegeneração.

“Quem somos nós se não sabemos onde nascemos, quem são nossos pais, com quem convivemos, nossas dores e felicidades? Felizmente, essa memória de longo prazo é tão bem protegida no cérebro que mesmo a Doença de Alzheimer pode demorar anos para chegar a comprometê-la”, afirma.

O que o Alzheimer afeta primeiro

O esquecimento é um dos sinais mais conhecidos da doença, mas não se trata apenas de uma dificuldade ocasional para lembrar uma informação. Na maioria dos casos, o Alzheimer compromete inicialmente a capacidade de registrar e consolidar novas memórias.

Essa função está diretamente relacionada aos hipocampos, estruturas localizadas no cérebro que participam da formação das chamadas memórias recentes.

É por isso que uma pessoa pode não se lembrar de onde colocou determinado objeto, repetir uma pergunta feita poucos minutos antes ou esquecer que deixou uma panela no fogo.

“Em pessoas com a doença, essa memória recente falha, e tanto o paciente quanto aqueles ao redor já notam que algo está muito estranho”, explica Pedro.

A perda dessa capacidade também pode interferir diretamente na autonomia. Afinal, lembrar de compromissos, orientações, objetos e acontecimentos recentes é fundamental para organizar a rotina e realizar atividades do dia a dia.

Com a progressão da doença, outras funções cognitivas também podem ser afetadas.

Memórias antigas podem resistir por anos

Embora o Alzheimer comprometa progressivamente estruturas cerebrais importantes para a formação de novas lembranças, diferentes tipos de memória são armazenados e processados por redes distintas.

Memórias biográficas, por exemplo, estão relacionadas à história pessoal de cada indivíduo. Já as chamadas memórias procedurais estão ligadas a habilidades adquiridas ao longo da vida, como determinados movimentos, hábitos e tarefas realizadas de maneira quase automática.

Essas funções dependem de outras regiões cerebrais, incluindo áreas neocorticais, o sistema límbico, os gânglios da base e o cerebelo.

Por isso, uma pessoa pode ter dificuldade para lembrar o que fez pela manhã, mas continuar sabendo realizar uma atividade que aprendeu décadas antes.

“É importante entender que o Alzheimer destrói gradualmente a infraestrutura cerebral necessária para acessar memórias recentes, planejar o futuro e processar novas informações. Isso não significa, necessariamente, apagar de imediato a biografia, a identidade profunda ou tudo aquilo que foi construído ao longo da vida”, afirma o neurologista.

Segundo Pedro, mesmo quando alterações de comportamento e personalidade aparecem, a história daquele indivíduo continua presente nas pessoas que convivem com ele.

“Olhando por um prisma filosófico, alguém só pode ser esquecido se as pessoas ao seu redor esquecerem dele”, acrescenta.

Esquecer o nome não significa deixar de sentir

Uma das características que podem surpreender familiares é a possibilidade de o paciente não reconhecer cognitivamente uma pessoa, mas ainda demonstrar uma reação emocional diante dela.

Isso acontece porque memória e emoção não são exatamente a mesma coisa no cérebro.

O reconhecimento de rostos, a identificação de pessoas e a recuperação de nomes dependem de redes cerebrais que podem ser comprometidas por diferentes tipos de demência. Já as respostas emocionais envolvem estruturas como a amígdala e outras regiões do sistema límbico, que podem permanecer funcionais por mais tempo.

“Por isso, o indivíduo perde o acesso racional à identidade de alguém, mas retém os sentimentos relacionados àquela pessoa”, explica Pedro.

Na prática, isso ajuda a entender por que determinadas pessoas, músicas, cheiros ou lugares podem provocar respostas positivas mesmo quando o paciente já não consegue explicar por que aquele estímulo é familiar.

Uma música ouvida durante a juventude, por exemplo, pode despertar tranquilidade. O cheiro de uma planta presente na antiga casa da família também pode trazer sensação de conforto.

Esses elementos podem ser incorporados à rotina para favorecer o bem-estar e ajudar a reduzir momentos de agitação.

“O cheiro de uma planta conhecida ou o som de uma música da juventude podem ser essenciais para controlar estados de agitação, facilitar o processo de adormecimento e manter positivo o estado de humor do paciente”, afirma o médico.

Família precisa evitar infantilização

À medida que a doença avança, familiares e cuidadores precisam encontrar um equilíbrio entre proteção e autonomia.

Segundo Pedro, um dos erros mais comuns é tratar o adulto como uma criança ou retirar antecipadamente atividades que ele ainda consegue realizar.

A superproteção pode ocorrer, por exemplo, quando familiares passam a fazer todas as tarefas pelo paciente, mesmo aquelas que ele ainda domina. Outra situação é ignorar tentativas de comunicação porque a fala parece confusa.

Para o especialista, a estratégia deve ser preservar o máximo possível das capacidades existentes, sempre levando em consideração a segurança.

Isso significa adaptar o ambiente e simplificar determinadas atividades, em vez de simplesmente impedir que a pessoa participe delas.

Objetos ou situações que representam riscos, como fogão sem proteção ou acesso a substâncias tóxicas, devem ser controlados. Ao mesmo tempo, escolhas simples podem continuar sendo feitas pelo próprio paciente.

Uma pessoa pode, por exemplo, escolher entre duas roupas separadas previamente pelo cuidador ou decidir entre opções para o horário do banho.

A ideia é criar uma rotina segura, antecipar riscos e permitir que o paciente continue exercendo algum grau de controle sobre a própria vida.

“Deve-se adotar o princípio da validação emocional em vez de confrontar delírios, focar no que o indivíduo ainda consegue executar de forma independente e tratá-lo sempre com a dignidade correspondente à sua história de vida adulta”, orienta.

Quando o esquecimento deixa de ser normal?

Esquecer ocasionalmente onde colocou uma chave ou ter dificuldade para lembrar uma palavra pode acontecer com o envelhecimento. O sinal de alerta aparece quando os esquecimentos passam a interferir na vida cotidiana.

Um dos principais critérios utilizados pelos profissionais é observar se houve perda de capacidade funcional.

Quando a pessoa começa a deixar de realizar tarefas que antes executava sozinha, apresenta dificuldade crescente para organizar atividades rotineiras ou passa a cometer erros que comprometem sua segurança, é importante buscar avaliação médica.

O neurologista também recomenda atenção para pessoas acima dos 50 anos que percebem mudanças persistentes na memória, mesmo quando ainda não existe um impacto significativo na rotina.

A avaliação permite diferenciar alterações relacionadas ao envelhecimento de quadros que podem indicar algum tipo de comprometimento cognitivo.

“Hoje temos ferramentas adequadas para chegar a conclusões melhores que antigamente, e isso pode mudar totalmente o quadro”, afirma Pedro.

O diagnóstico precoce também possibilita que paciente e família compreendam melhor a situação e se organizem para as mudanças que podem ocorrer ao longo da evolução da doença.

Mais de 1 milhão de brasileiros vivem com Alzheimer

O Alzheimer é a forma mais comum de demência e está associado principalmente ao envelhecimento, embora não seja uma consequência inevitável de envelhecer.

No Brasil, mais de 1 milhão de pessoas vivem com a doença, segundo dados do Ministério da Saúde.

O avanço do diagnóstico e o envelhecimento da população tornam o acompanhamento das alterações cognitivas cada vez mais importante. Para familiares, observar mudanças persistentes na memória, no comportamento ou na capacidade de realizar atividades cotidianas pode ser o primeiro passo para procurar ajuda especializada.

Mais do que identificar o que foi perdido, a abordagem do paciente com Alzheimer também envolve reconhecer aquilo que permanece. Memórias, habilidades, emoções e vínculos podem continuar fazendo parte da vida da pessoa mesmo quando a capacidade de registrar novas informações começa a desaparecer.

Para o neurologista do Humap-UFMS, preservar esses elementos significa também preservar a dignidade e a identidade de quem está diante da doença.

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