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Dados do SINISA mostram que apenas 5,3% das cidades avaliadas têm plano diretor para prevenir alagamentos e reduzir impactos de eventos extremos

Em praticamente um terço dos municípios brasileiros, a água da chuva não conta com um sistema específico de drenagem. O cenário ajuda a explicar por que temporais podem rapidamente transformar ruas em áreas alagadas e deixar moradores, veículos e imóveis expostos aos efeitos das chuvas intensas.

Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), analisados pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, mostram que 32,49% dos municípios avaliados declararam não possuir qualquer sistema de drenagem de águas pluviais.

O levantamento considera informações de 4.958 municípios, equivalentes a 89% das cidades brasileiras e a 95,1% da população do país. Os dados têm como ano-base 2023 e foram divulgados pelo SINISA em março de 2025.

Além da falta de estruturas para escoar a água, o estudo revela outro problema: a maioria das cidades não possui planejamento específico para enfrentar alagamentos e outros eventos hidrológicos extremos.

Apenas 263 municípios, ou 5,3% dos avaliados, informaram ter um Plano Diretor de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais. Na prática, 4.695 cidades analisadas não contavam com esse instrumento de planejamento.

O que acontece com a água quando chove?

Em uma cidade com infraestrutura adequada, a água da chuva deve ser captada e conduzida por uma rede de drenagem até pontos apropriados de lançamento. O objetivo é evitar que grandes volumes se acumulem nas ruas, invadam imóveis ou provoquem erosão e outros danos.

Quando essa estrutura é inexistente ou insuficiente, a água pode se acumular sobre o pavimento e buscar caminhos pelas áreas mais baixas. O resultado pode ser a formação de alagamentos, enxurradas e inundações.

A situação tende a se agravar em áreas urbanizadas, onde o asfalto e o concreto reduzem a infiltração da água no solo.

Maioria das cidades tem algum tipo de sistema

Apesar da ausência de drenagem em 32,49% dos municípios pesquisados, outras cidades possuem diferentes modelos de infraestrutura.

Segundo o levantamento, 40,44% dos municípios informaram possuir sistemas exclusivos de drenagem, destinados especificamente ao manejo da água da chuva.

Outros 12,59% utilizam sistemas unitários, que combinam a drenagem das águas pluviais com a rede de esgoto.

A existência de uma rede, porém, não significa necessariamente que a cidade esteja protegida contra alagamentos. A capacidade da infraestrutura, sua conservação, a ocupação urbana e o volume de chuva também interferem na eficiência do sistema.

Só 3,2% têm tratamento da água da chuva

Outro dado chama atenção para o impacto ambiental da drenagem urbana.

Apenas 157 municípios, equivalentes a 3,2% dos avaliados, informaram possuir sistemas de tratamento das águas pluviais.

A ausência desse tipo de estrutura significa que a água que escoa pelas ruas pode carregar resíduos, sedimentos, óleo e outros poluentes para rios, córregos e demais corpos d’água.

O problema ultrapassa, portanto, a questão dos alagamentos. O manejo inadequado da chuva também pode afetar a qualidade da água e o ambiente urbano.

Rede subterrânea está presente em apenas um terço das vias

A infraestrutura disponível nas ruas também revela limitações.

Do total de vias públicas urbanas consideradas pelo diagnóstico, 78,2% possuem pavimentação e meio-fio. Porém, somente 33,5% contam com redes ou canais pluviais subterrâneos.

A diferença mostra que a existência de pavimentação não é acompanhada, na mesma proporção, por estruturas subterrâneas destinadas a receber e conduzir a água da chuva.

Em temporais de maior intensidade, essa deficiência pode contribuir para o acúmulo de água nas vias.

Planejamento ainda é exceção

A ausência de um Plano Diretor de Drenagem é outro ponto destacado pelo estudo.

Esse tipo de planejamento permite identificar áreas mais vulneráveis, definir obras prioritárias, estabelecer estratégias de manutenção e orientar a expansão urbana considerando o comportamento da água.

No entanto, apenas 5,3% dos municípios analisados declararam possuir o documento.

Isso significa que, na maioria das cidades, as medidas relacionadas à drenagem não estão inseridas em um planejamento específico de longo prazo.

Parques lineares ajudam no controle das águas

O levantamento também identificou 412 municípios com parques lineares.

Essas estruturas podem cumprir diferentes funções ao mesmo tempo, como oferecer áreas de lazer, ampliar espaços verdes e contribuir para o controle da água em áreas próximas a cursos d’água.

Quando planejados de forma adequada, parques lineares podem ajudar a preservar áreas de várzea e criar espaços capazes de absorver parte do impacto das chuvas.

Drenagem faz parte do saneamento básico

A drenagem e o manejo de águas pluviais urbanas são um dos quatro componentes do saneamento básico previstos pelo Marco Legal do Saneamento.

Os outros três são abastecimento de água, esgotamento sanitário e manejo de resíduos sólidos.

Apesar de fazer parte da estrutura de saneamento, a drenagem ainda recebe menos atenção em muitas cidades, segundo o diagnóstico analisado.

A falta de planejamento, investimentos, regulamentação e profissionais especializados pode fazer com que as administrações municipais atuem principalmente depois que os problemas aparecem, em vez de antecipar os riscos.

Chuvas extremas aumentam pressão sobre as cidades

A deficiência de infraestrutura ganha importância diante de um cenário de eventos climáticos extremos.

Temporais concentrados em curtos períodos podem despejar sobre uma cidade um volume de água superior à capacidade de suas redes de drenagem. Quando isso ocorre em áreas com pouca infiltração e infraestrutura insuficiente, aumentam as chances de alagamentos e enxurradas.

Por isso, a prevenção não depende apenas da construção de grandes galerias ou canais. O planejamento urbano, a preservação de áreas verdes, a manutenção das redes existentes e a identificação das regiões mais vulneráveis também fazem parte da estratégia de manejo das águas pluviais.

Os dados do SINISA mostram que o desafio ainda é amplo: milhares de municípios brasileiros precisam avançar tanto na infraestrutura quanto no planejamento para lidar com a água da chuva.

Foto: Agência Brasil

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