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Estive em São Paulo acompanhando o 8º Fórum de Longevidade e uma questão ficou comigo: ainda falamos sobre longevidade muito mais pelo que ela exige da sociedade do que pelo que ela pode movimentar nela.

Saúde, cuidado, previdência e proteção social fazem parte dessa conversa. Mas não são a conversa inteira.

O Brasil está envelhecendo. No Censo de 2022, 32,1 milhões de brasileiros tinham 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em relação a 2010, esse grupo cresceu 56%. Para cada 100 crianças de até 14 anos, já havia 80 pessoas com 60 anos ou mais.

Dados da FGV mostram que a população 60+ já ultrapassa 35 milhões de pessoas.

Mas o número, sozinho, conta pouco sobre quem são essas pessoas.

Uma pessoa de 60 anos que trabalha, viaja e investe não tem necessariamente as mesmas necessidades de alguém de 80 que precisa adaptar sua casa. Renda, saúde, estrutura familiar, lugar onde vive, relação com a tecnologia e grau de autonomia produzem comportamentos diferentes dentro da mesma faixa etária.

Ainda assim, é comum reunir todas elas sob uma única definição: “público sênior”.

Quando fazemos isso, deixamos de enxergar diferenças que também representam mercados.

Um estudo da FGV EAESP mostra que a população 60+ responde por aproximadamente 25% da renda dos lares brasileiros. Outros dados da FGV mostram que 8,6 milhões de pessoas dessa faixa etária continuam trabalhando.

Quando milhões de pessoas passam a viver mais, mudam também as perguntas que empresas e cidades precisam responder.

Algumas já estão mais presentes: como adaptar moradias, mobilidade, serviços financeiros e educação para uma população que permanecerá ativa por mais tempo?

Mas a longevidade abre outras perguntas. Como a tecnologia pode ampliar autonomia e capacidade ao longo da vida? O que acontece quando inteligência artificial, robótica e novas interfaces reduzem limitações que hoje associamos à idade? Que negócios surgem quando prevenção, diagnóstico e avanços da medicina aumentam não apenas a expectativa de vida, mas os anos vividos com autonomia? E como trabalho, consumo e formação profissional se reorganizam quando uma vida mais longa pode comportar diferentes ciclos de aprendizagem, produção e reinvenção?

Estamos diante de algo maior do que adaptar produtos para uma população que envelhece. Estamos começando a pensar o que pessoas e sociedades farão com mais tempo de vida.

Turismo, alimentação, tecnologia, varejo e serviços já começam a responder a parte dessas mudanças. Existem produtos, soluções e negócios voltados à longevidade. Mas, quando olhamos para o tamanho e para a diversidade de uma população que já ultrapassa 35 milhões de brasileiros, o que existe ainda parece pequeno diante do mercado que está se formando.

É nesse contexto que aparece a chamada economia prateada. E um dos primeiros erros pode ser imaginar que ela se resume a criar produtos “para idosos”.

Há demandas relacionadas à saúde e ao cuidado, mas elas convivem com educação, moradia, mobilidade, turismo, entretenimento, serviços financeiros, tecnologia, trabalho, empreendedorismo e autonomia digital.

Longevidade continuará sendo uma pauta social. Olhar apenas por esse ângulo, porém, deixa de fora uma transformação econômica que já está acontecendo.

Há pessoas vivendo mais e, em muitos casos, continuando a trabalhar, aprender, consumir, viajar, empreender e decidir.

Para as empresas, a oportunidade não está em criar uma categoria chamada “60+”. Está em entender o que uma vida mais longa muda no comportamento, nas necessidades e nas escolhas das pessoas.

Para as cidades e lugares, a mudança também produz consequências. Uma população com outra composição demanda serviços, infraestrutura, trabalho, qualificação, tecnologia e negócios diferentes. Por isso, longevidade também pode ser uma pauta de desenvolvimento.

Vejo que uma das oportunidades de inovação do momento, possa estar menos em inventar necessidades para quem está envelhecendo e mais em perceber as que já estão surgindo.

Afinal, o que muda quando milhões de pessoas tem mais anos para viver, produzir, escolher e consumir?

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Leandra Costa

Leandra Costa

Foresight Strategist e criadora da Arquitetura da Viabilidade. Atua como C-Level as a Service na arquitetura de projetos complexos. Soma 30 anos de bagagem corporativa e inovação, com as certificações Future Leadership e Innovation Management (GIMI Boston). "Não construo volume. Construo direção". | @lecosta_ms