Receitas cresceram, enquanto investimentos caíram 39,6% até agosto; gasto com pessoal segue acima do limite prudencial e reajustes de IPTU e taxa do lixo entram no radar para 2027
A Prefeitura de Campo Grande arrecadou mais, mas investiu menos na cidade. Essa foi uma das principais contradições apontadas pelos vereadores durante audiência pública realizada nesta quarta-feira (30), na Câmara Municipal, para analisar as contas do segundo quadrimestre de 2026 e discutir a proposta de orçamento para 2027.
De janeiro a agosto, os investimentos do município somaram R$ 87,6 milhões, contra R$ 145,2 milhões no mesmo período de 2025. A queda chega a 39,64%, justamente em um cenário em que a arrecadação municipal avançou.
O contraste foi explorado pelo vereador Maicon Nogueira (PP). Segundo os dados apresentados na audiência, para cada R$ 100 arrecadados no ano passado, a Prefeitura passou a arrecadar cerca de R$ 107,50 neste ano. Na outra ponta, para cada R$ 100 investidos em 2025, foram aplicados aproximadamente R$ 60 em 2026.
A pergunta levada à mesa foi direta: se entrou mais dinheiro nos cofres municipais, por que os investimentos diminuíram?
O secretário municipal de Fazenda, Isaac José de Araújo, atribuiu parte da redução a problemas em processos de licitação e afirmou que algumas despesas deverão aparecer posteriormente na execução orçamentária. Ele também citou recursos represados para serviços de tapa-buraco e pagamentos de dívidas deixadas por administrações anteriores, incluindo despesas relacionadas à revitalização da Rua 14 de Julho.
A explicação, no entanto, não encerrou a cobrança dos vereadores.
Ronilço Guerreiro (Podemos) questionou a capacidade de resposta do município diante de problemas cotidianos da população. Citou buracos nas ruas e unidades de saúde com problemas de climatização, além da necessidade de ampliar a presença de psicólogos e assistentes sociais nas escolas.
Gasto com pessoal continua acima do limite
Outro ponto de pressão sobre a administração municipal foi a despesa com servidores.
O comprometimento da receita corrente líquida com pessoal chegou a 53,89%, acima do chamado limite prudencial de 51,3% previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal.
O número representa melhora em relação ao levantamento anterior, quando o percentual estava em 55,85%, mas ainda mantém a Prefeitura acima do limite prudencial.
O vereador Otávio Trad (PSD) questionou se a reforma administrativa aprovada pelo município conseguiu produzir, na prática, o resultado esperado sobre a folha.
O secretário de Fazenda atribuiu o peso da despesa principalmente às áreas de saúde e educação. Segundo ele, houve reajustes e reposições salariais, além de impactos provocados por aumentos estabelecidos pelo governo federal.
A Prefeitura trabalha, segundo Isaac Araújo, para reduzir o percentual.
Prefeitura arrecada mais com IPTU e ISS
Enquanto os investimentos recuaram, a arrecadação de alguns dos principais tributos municipais cresceu.
Considerando as receitas do Tesouro, o IPTU passou de R$ 487,7 milhões para R$ 516 milhões, alta de 5,8% na comparação entre os dois períodos. Quando consideradas todas as fontes, o crescimento chega a 10,43%.
O ISS, imposto cobrado sobre serviços, também avançou. A arrecadação chegou a R$ 504,8 milhões, alta de 8%. Já a cota-parte do ICMS teve crescimento de 1,22%.
Os números reforçaram a cobrança sobre a execução dos recursos, principalmente diante das demandas por obras, manutenção urbana e serviços públicos.
IPTU de 2027 terá correção pela inflação, diz Fazenda
Questionado sobre o IPTU de 2027, Isaac Araújo afirmou que a Prefeitura pretende aplicar apenas a correção pela inflação, com exceção dos imóveis que passaram por melhorias.
O tema ganhou peso porque a última cobrança do imposto provocou reclamações e questionamentos sobre os critérios utilizados pelo município.
Otávio Trad cobrou que a discussão ocorra antecipadamente, antes da emissão dos carnês. “Agora é a hora, temos tempo para discutir sobre o reajuste do ano de 2027 para não sermos pegos de surpresa novamente”, afirmou o vereador.
Segundo o secretário, a Prefeitura também enfrenta inadimplência estimada entre 30% e 40% e utiliza programas de regularização, como o Refis, para recuperar parte desses valores.
Taxa do lixo pode subir 26,93% na projeção da LOA
Outro ponto sensível para os contribuintes foi a taxa do lixo. Na proposta orçamentária para 2027, a projeção aponta crescimento de 26,93% na arrecadação relacionada à cobrança. Trad questionou qual parâmetro foi utilizado para chegar ao percentual.
A resposta da Fazenda foi de que o critério adotado será o mesmo utilizado neste ano, com correção pela inflação.
A diferença entre a previsão orçamentária e a explicação sobre a metodologia, porém, colocou novamente a transparência da cobrança no centro do debate.
Orçamento de R$ 7,7 bilhões para 2027
Depois da prestação de contas, os vereadores passaram a discutir a Lei Orçamentária Anual (LOA), que prevê orçamento de aproximadamente R$ 7,7 bilhões para Campo Grande em 2027.
O projeto agora entra na etapa de discussão e apresentação de emendas pelos vereadores.
Um dos pontos que deverá ser acompanhado é a previsão de aumento de 47% nos investimentos no próximo ano. O percentual chama atenção justamente porque ocorre após uma queda de quase 40% nos investimentos registrada até agosto deste ano.
Além dos investimentos, os vereadores questionaram a destinação de recursos para cultura, meio ambiente, zeladoria, aplicação das emendas parlamentares e manutenção dos serviços públicos.
Com informações e imagem da Câmara Municipal de Campo Grande

















