Psicólogos e psiquiatras orientam familiares e amigos a reconhecer sinais de sofrimento emocional e buscar ajuda profissional quando necessário
Mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, crises emocionais persistentes e falas relacionadas à morte podem indicar que uma pessoa precisa de ajuda profissional. Reconhecer esses sinais e oferecer acolhimento, sem julgamentos, são atitudes importantes para identificar situações de sofrimento psicológico e evitar que elas se agravem.
O alerta foi feito por especialistas da HU Brasil, rede de hospitais universitários federais, em orientação divulgada em outubro, mês em que se celebra o Dia Mundial da Saúde Mental.
Segundo os profissionais, nem todo sofrimento emocional representa um transtorno mental ou exige intervenção imediata. A atenção deve considerar a intensidade e a duração dos sintomas, as mudanças na rotina e o contexto em que a pessoa está inserida. Quando há risco à própria segurança ou à de outras pessoas, porém, a busca por ajuda não deve ser adiada.
Sofrimento pode ser passageiro ou persistente
O psicólogo Marcos Portela, do Complexo do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR), explica que o sofrimento emocional pode ser agudo ou crônico.
O sofrimento agudo está relacionado a situações difíceis, como a perda de alguém próximo, uma doença inesperada, uma frustração amorosa ou a não realização de um objetivo. Embora possa provocar tristeza, ansiedade e mudanças temporárias de comportamento, ele tende a estar associado a um acontecimento específico.
Já o sofrimento crônico pode se prolongar quando a pessoa não consegue elaborar a situação que desencadeou o problema ou quando existem condições psicológicas que exigem acompanhamento. Entre os exemplos estão alguém que, após uma perda, passa anos sem conseguir retomar a rotina ou uma pessoa que desenvolve crises de pânico diante de atividades cotidianas.
Para Portela, a maneira de abordar quem está sofrendo deve priorizar o acolhimento e a escuta, independentemente do tipo de sofrimento.
“Em ambas as situações, nossa atitude em relação ao sofrimento deve ser muito mais de acolhimento e escuta do que de fala”, afirma.
O psicólogo recomenda que familiares e amigos evitem tentar resolver imediatamente o problema ou minimizar o que a pessoa sente. Uma primeira abordagem pode ser perguntar se ela deseja ajuda e demonstrar disponibilidade para ouvir.
Quando a situação é grave, a recusa inicial não deve encerrar a tentativa de aproximação. É importante procurar compreender os motivos da resistência e avaliar se há risco que exija intervenção.
Falar sobre suicídio exige atenção
Um dos principais alertas destacados pela psicóloga Rafaela Perez, do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU-UFGD), é a necessidade de levar a sério manifestações relacionadas à morte ou à vontade de não continuar vivendo.
A ideia de que pessoas com pensamentos suicidas necessariamente escondem suas intenções é um mito. Por isso, declarações sobre querer morrer, desaparecer ou não suportar mais a vida não devem ser tratadas como exagero ou tentativa de chamar a atenção.
“Quando há falas relacionadas à morte, a não querer mais viver ou quando percebemos que a segurança daquela pessoa pode estar em risco, é necessário buscar ajuda”, ressalta Perez.
A psicóloga também contesta a crença de que perguntar diretamente sobre o sofrimento ou sobre pensamentos suicidas pode estimular esse comportamento. Segundo ela, uma conversa conduzida com responsabilidade e acolhimento pode abrir espaço para que a pessoa fale sobre o que está enfrentando e receba apoio.
Nessas situações, a orientação é ouvir sem repreender, evitar julgamentos e procurar ajuda profissional. Se houver risco imediato, a pessoa não deve ser deixada sozinha enquanto se busca atendimento seguro.
Mudanças de comportamento podem indicar necessidade de ajuda
A psiquiatra Betty Nesanelovicz, do Hospital Universitário dos Servidores do Estado da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Huse-Unirio), destaca que os sinais de sofrimento psicológico são variados e não devem ser interpretados isoladamente.
Mudanças breves de comportamento, silêncio temporário ou episódios de irritação relacionados a uma situação de estresse podem exigir acolhimento e observação, especialmente quando a pessoa consegue manter suas atividades habituais, comunicar o que sente e pedir ajuda.
Por outro lado, alterações abruptas ou persistentes merecem atenção especial, principalmente quando afetam a rotina, os relacionamentos ou a segurança.
Entre os sinais que podem indicar a necessidade de avaliação profissional estão:
- isolamento intenso ou medo de sair de casa;
- oscilações frequentes de humor e comportamento;
- crises persistentes de raiva, agitação ou descontrole emocional;
- mudanças importantes na alimentação e no cuidado com a higiene pessoal;
- automutilação ou comportamentos de risco;
- abuso de álcool e outras substâncias;
- dificuldade de manter as atividades cotidianas;
- relatos de ouvir vozes ou de estar sendo perseguido;
- falas sobre suicídio ou sobre machucar outras pessoas.
A lista não funciona como um diagnóstico. Um comportamento isolado não confirma a existência de um transtorno mental, e a avaliação deve levar em conta a história, as circunstâncias e as necessidades de cada pessoa.
A psiquiatra ressalta que os sinais podem se manifestar de maneiras diferentes entre indivíduos e também mudar ao longo da vida. Por isso, a observação deve ser cuidadosa, sem conclusões precipitadas ou estigmatização.
Como oferecer apoio
A abordagem de familiares e amigos pode fazer diferença para quem enfrenta sofrimento emocional. Em vez de pressionar a pessoa a explicar tudo de uma vez, especialistas recomendam demonstrar interesse, ouvir com atenção e evitar frases que desqualifiquem a experiência, como dizer que ela precisa apenas ser forte ou parar de pensar no problema.
Perguntas simples, como “Você quer conversar?” e “Como posso ajudar?”, podem facilitar o diálogo. Também é possível oferecer ajuda prática para procurar um psicólogo, psiquiatra ou serviço de saúde.
Quando a pessoa apresenta falas suicidas, automutilação ou sinais de que pode colocar a própria vida em risco, a situação exige atenção imediata. No Brasil, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo telefone 192, pode ser acionado em emergências. O Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo número 188, oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e disponível 24 horas.
A principal orientação dos especialistas é não esperar que o sofrimento se torne insustentável para procurar ajuda. Acolhimento, escuta e acompanhamento adequado podem contribuir para que a pessoa enfrente o momento difícil com suporte e segurança.


















