O plano de Eduardo Riedel para 2027 a 2030 eleva a ciência, a tecnologia e a inovação à condição de eixo transversal do desenvolvimento. O segundo mandato tem a oportunidade de transformar essa escolha no principal ativo competitivo de Mato Grosso do Sul depois de 2032
Planos de governo costumam reservar à ciência um capítulo próprio, quase sempre isolado do restante. O plano de Eduardo Riedel (PP) para o período 2027 a 2030 faz algo diferente: afirma que a ciência, tecnologia e inovação deixam de ser política setorial e passam a ser eixo transversal do desenvolvimento. É uma escolha conceitual relevante, alinhada à ENCTI 2024 a 2034 e ao que a OCDE descreve como política orientada por missões.
A escolha também tem senso de oportunidade. Pelo cronograma da Reforma Tributária, os incentivos fiscais estaduais começam a ser reduzidos em 2029 e deixam de existir em 2032, como o próprio documento reconhece na dimensão de competitividade. A pergunta estratégica do quadriênio passa a ser o que atrairá investimentos quando um investidor comparar Três Lagoas com Rio Verde, Itajaí ou Querétaro. No mundo contemporâneo, a resposta mais durável tem nome: conhecimento aplicado, talento disponível e instituições capazes de resolver problemas de empresas. Ao colocar a inovação no centro, o plano aponta na direção certa.
O que o plano propõe
O capítulo dedicado a Ciência, Tecnologia e Ecossistemas de Inovação lista seis ações: implementar a nova Política Estadual de CT&I; investir e profissionalizar os ecossistemas regionais de inovação; usar a Fundect em editais orientados aos desafios do estado; ampliar bolsas e o apoio à pesquisa aplicada e à inovação empresarial; estimular a adoção de inteligência artificial nos setores produtivos; e atrair pelo menos dois novos centros de pesquisa e desenvolvimento até 2030. O balanço da gestão registra que a Fundect atingiu o maior volume de recursos aplicados de sua história e cita a cooperação com o Google em IA.
O mais interessante, porém, é que a inovação não fica restrita ao capítulo. Ela atravessa o documento em pelo menos dez frentes, da segurança pública à saúde, do meio ambiente à energia. É essa transversalidade que distingue uma estratégia de desenvolvimento de uma lista de programas.
Sintonia com a fronteira tecnológica
Lido de ponta a ponta, o documento conversa com quatro vetores que definem a década. O primeiro é a inteligência artificial como tecnologia de propósito geral: aparece no LabSEJUSP, na saúde digital, na IA aplicada a serviços públicos, na gestão preditiva baseada em dados e no voucher que pretende formar 400 desenvolvedores. O segundo é a descarbonização como condição de acesso a mercados, visível na plataforma de transparência ambiental voltada a compradores que exigem produção livre de desmatamento, na rastreabilidade bovina e na meta de Estado carbono neutro.
O terceiro vetor é a conversão de natureza em ativo financeiro: a MS Ativos Ambientais, os pagamentos por serviços ambientais e os créditos de restauração nos parques do Taquari e do Ivinhema. O quarto é a convergência entre energia e dados, com biometano, hidrogênio de baixo carbono, armazenamento em baterias e a intenção explícita de atrair datacenters apoiados na matriz renovável.
Poucas unidades da federação reúnem, no mesmo território, agro de alta produtividade, um cluster de celulose de escala global, um bioma de reconhecimento planetário e excedente de energia renovável.
Essa combinação é rara. Ela permite a MS disputar não o que São Paulo já faz melhor, mas nichos onde a vantagem comparativa é física e difícil de copiar: bioeconomia florestal, pecuária de baixo carbono verificável, monitoramento ambiental e infraestrutura digital alimentada por energia limpa.
O que a experiência internacional ensina
O Food Valley holandês, articulado em torno de Wageningen, costuma ser citado como modelo de ecossistema agroalimentar. Sua lição principal não é o volume de recursos, e sim a estabilidade da governança: universidade, governo regional e empresas compartilham agenda e infraestrutura há décadas. O ponto menos lembrado é que esse arranjo se apoia numa densidade de empresas com departamentos de P&D que MS ainda está construindo.
Os institutos Fraunhofer, na Alemanha, mostram como financiar pesquisa aplicada com uma composição de recursos públicos de base, projetos públicos competitivos e contratos com a indústria, em proporções aproximadamente equivalentes. O modelo funciona porque há demanda industrial pagante. Já o Chile, ao tentar transformar fornecedores da mineração em empresas tecnológicas com o programa de fornecedores de classe mundial, colheu resultados desiguais. A lição é útil para a meta de atrair novos centros de PD&I: eles rendem mais quando nascem ancorados em universidades e fornecedores locais.
Da visão à execução: oportunidades para a próxima etapa
Todo plano de governo é, por natureza, um documento de direção. O detalhamento vem depois, no PPA, nas leis orçamentárias e na política estadual de CT&I que o próprio plano se compromete a implementar. Nessa passagem, alguns elementos podem ampliar o alcance da estratégia.
Metas e indicadores. A meta de dois novos centros de PD&I até 2030 é um bom exemplo de compromisso mensurável. Estender esse padrão às demais ações, com indicadores de resultado, daria à CT&I a mesma visibilidade que habitação e qualificação profissional já têm no documento.
Universidades como âncoras. O plano prevê a aproximação entre universidades, centros de pesquisa, empresas e governo. Explicitar o papel da UEMS, mantida pelo próprio estado, ao lado de UFMS, UFGD, IFMS, das unidades da Embrapa e dos parques tecnológicos, daria a cada ecossistema regional uma âncora institucional clara.
Estado como comprador. A seção de compras públicas já fala em inovação. O Marco Legal das Startups oferece instrumentos, como o contrato público para solução inovadora e a encomenda tecnológica, que podem transformar essa intenção em demanda concreta para empresas locais.
Capital de risco. A lógica do FIAGRO, proposta para o agro, pode ser estendida a startups de base científica, agtechs e bioeconomia, combinada à subvenção econômica.
Investimentos atraídos. Os mais de R$ 81 bilhões em investimentos privados formam uma base empresarial que pode ser convidada a internalizar P&D no estado, elevando a intensidade tecnológica de cadeias como celulose, grãos e proteína animal.
Talentos. A desocupação de 3% é uma conquista e, ao mesmo tempo, um sinal de que o próximo gargalo é gente qualificada. Programas de fixação de mestres e doutores em empresas e de atração de pesquisadores complementariam a ampliação de bolsas.
Computação e governança de IA. A atração de datacenters pode vir acompanhada de capacidade computacional compartilhada para pesquisa, política de dados e diretrizes para o uso de IA no serviço público.
Alavancagem federal. Recursos estaduais bem desenhados funcionam como contrapartida multiplicadora de FNDCT, Finep e Nova Indústria Brasil, ampliando o retorno de cada real investido pela Fundect.
Vantagens competitivas e desafios
| Vantagens competitivas | Desafios a enfrentar |
| Solidez fiscal: Nota A do Tesouro por quatro anos consecutivos | Fim dos incentivos fiscais entre 2029 e 2032 |
| Capital humano: 2º lugar nacional no pilar do CLP | Demanda crescente por mão de obra qualificada, com desocupação de 3% |
| Fundect com recorde de recursos; 8º lugar em investimento público em C&T (FIEC) | Indicadores de resultado (patentes, intensidade tecnológica) amadurecem mais lentamente |
| Cluster de celulose, bioenergia e proteína animal em escala global | Agregar intensidade tecnológica à pauta exportadora |
| Pantanal, ativos ambientais e matriz energética renovável | Ampliar a base de empresas com P&D próprio |
| Fibra ótica nos prédios públicos dos 79 municípios; mais de 700 serviços digitais | Interiorizar o ecossistema para além de Campo Grande e Dourados |
| Cultura de gestão por resultados e contratos de gestão | Concorrência acelerada de Ceará, Goiás e Pernambuco |
Sete movimentos para ampliar o alcance
1. Metas no PPA e transparência. A Constituição Estadual já prevê 0,5% da receita tributária para a Fundect, e o estado executa acima desse piso. O passo seguinte seria um observatório de metas de CT&I e um painel público acompanhado pelo Centro de Governo proposto no próprio plano.
2. Inovação como moeda de atração pós-2032. Aproveitar a reestruturação dos programas de incentivo já prevista para vincular benefícios remanescentes e novos instrumentos a compromissos de P&D local, contratação de pesquisadores e desenvolvimento de fornecedores.
3. Estado como primeiro cliente. Um programa de compras de inovação que use LabSEJUSP, saúde digital, saneamento e gestão ambiental como demandantes de soluções de startups e universidades locais.
4. Fundo de coinvestimento. Veículo para agtech, bioeconomia e deep tech com capital privado e alavancagem da Finep, espelhando o que o FIAGRO propõe para o agro.
5. Três missões com nome e prazo. Celulose como biorrefinaria (bioprodutos, lignina, biocombustíveis); Pantanal como laboratório de bioeconomia e monitoramento; pecuária rastreável de baixo carbono. Cada missão com orçamento, indicadores e universidade âncora.
6. Universidades no centro. O plano cita a aproximação com universidades, centros de pesquisa, empresas e governo. Assim, os dois centros de PD&I a atrair podem nascer ancorados em UEMS, UFMS, UFGD ou Embrapa, e a UEMS pode ser reposicionada como universidade de inovação regional no interior.
7. Talentos e computação. Bolsas de fixação de doutores em empresas, programa de atração de pesquisadores e infraestrutura compartilhada de IA para pesquisa, acoplada aos datacenters que o estado pretende atrair.
O que está em jogo
O plano de governo acerta no diagnóstico e na direção: trata a inovação como eixo, não como apêndice. O passo seguinte, natural em qualquer estratégia madura, é detalhar instrumentos, recursos e prazos. É no período 2027 a 2030 que se decide a transição de um estado que cresceu com incentivo fiscal para um estado que cresce com conhecimento.
Mato Grosso do Sul chega a esse momento em posição privilegiada. Foi a unidade federativa que mais avançou no Índice de Inovação dos Estados desde 2021, saindo da 16ª para a 11ª posição, e construiu algo que poucos estados têm: credibilidade fiscal, capacidade de execução e uma agenda de inovação em ascensão. Converter essa base em arquitetura permanente, com metas, instrumentos de demanda, capital e universidades no centro, é a tarefa que transformará a boa colocação de hoje em vantagem competitiva duradoura depois de 2032.
O estado que cresceu com incentivo fiscal tem, agora, a chance de crescer com conhecimento.
Fontes: Plano de Governo 2027 a 2030, Eduardo Riedel (registrado no TSE); Índice de Inovação dos Estados 2025 (FIEC/CNI); Ranking de Competitividade dos Estados 2025 e 2026 (CLP/Tendências), incluindo edição especial Eleições 2026.

















