Ex-deputado foi transferido ao estado após ser preso na Bolívia. Defesa afirma que ele negociava apresentação voluntária antes de ser detido pelas autoridades bolivianas
O ex-deputado estadual Roberto Razuk Filho, conhecido como Neno Razuk (PL), chegou a Campo Grande nesta segunda-feira (3), após ser preso no domingo (2), na Bolívia. Condenado em primeira instância a 15 anos de prisão pelos crimes de organização criminosa, roubo e exploração do jogo do bicho, ele foi transferido ao estado após ser entregue pelas autoridades bolivianas à Polícia Federal. Desde 8 de julho, era considerado foragido da Justiça brasileira.
Como o nome de Neno constava na Difusão Vermelha da Interpol, lista internacional de procurados, ele foi entregue à Polícia Federal em Corumbá. Na manhã desta segunda-feira, passou por exame de corpo de delito no Instituto Médico Odontológico Legal (Imol) e, por volta das 10h, iniciou o deslocamento para Campo Grande.
Condenação
Neno Razuk foi condenado pela 4ª Vara Criminal de Campo Grande no âmbito da Operação Successione, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).
A sentença o condenou pelos crimes de organização criminosa, roubo e exploração do jogo do bicho. O mandado de prisão foi expedido em 15 de dezembro de 2025. Na época, porém, a ordem não foi cumprida porque o então deputado estadual possuía imunidade parlamentar.
A situação mudou em 21 de maio deste ano, quando a recontagem dos votos das eleições de 2022 resultou na perda do mandato de Neno Razuk para João César Mattogrosso. Sem foro por prerrogativa de função, ele passou a responder ao processo na primeira instância, o que permitiu o cumprimento do mandado de prisão.
Investigação
Além de Neno Razuk, o pai dele, Roberto Razuk, os irmãos Jorge e Rafael Razuk e outras 16 pessoas respondem à ação penal referente à quarta fase da Operação Successione.
Segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), o grupo teria articulado um esquema para assumir o controle da exploração do jogo do bicho no estado, ocupando o espaço deixado após a Operação Omertà, que desarticulou uma organização rival.
De acordo com o Gaeco, as investigações indicam que integrantes da organização teriam participado de três roubos registrados em outubro de 2023, em Campo Grande, contra funcionários do grupo concorrente.
Durante o cumprimento de mandados em um imóvel no Jardim Monte Castelo, que, segundo o Gaeco, era utilizado como base das operações do grupo, foram apreendidas mais de 700 máquinas do jogo do bicho, além de celulares, computadores e planilhas. Conforme estimativa do MPMS, a organização movimentaria ao menos R$ 600 mil por mês.
Nas buscas, também foram apreendidos R$ 274 mil e mais de mil euros em espécie. A pedido do Ministério Público, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 36 milhões em bens da família Razuk.
O que diz a defesa
Em nota, a defesa informou que Neno Razuk já negociava sua apresentação voluntária às autoridades brasileiras quando foi abordado pelas autoridades bolivianas.
Segundo os advogados, o ex-deputado entrou na Bolívia em 1º de julho, antes da expedição do mandado de prisão, e aguardava o julgamento de recursos relacionados à perda do mandato parlamentar. A defesa afirma que, após as decisões desfavoráveis do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul (TRE-MS) e o indeferimento de um habeas corpus, ele comunicou formalmente ao Judiciário a intenção de cumprir espontaneamente a ordem judicial.
Ainda de acordo com a nota, o pedido para definir as condições da apresentação voluntária havia sido deferido pelo juízo competente. No entanto, antes de retornar ao Brasil, Neno Razuk foi abordado pelas autoridades bolivianas, que o entregaram à Polícia Federal.
A defesa informou ainda que adotará medidas judiciais para tentar revogar a prisão preventiva, sob o argumento de que não estariam presentes os requisitos para a manutenção da medida e que pretende demonstrar a inocência do ex-deputado ao longo do processo.
Veja a íntegra da nota divulgada pela defesa:
“NOTA À IMPRENSA
Diante das informações publicadas, algumas de maneira equivocada, a defesa de Roberto Razuk Filho (Neno Razuk) vem a público prestar os seguintes esclarecimentos acerca das informações recentemente divulgadas sobre o cumprimento do mandado de prisão expedido em seu desfavor:
- Roberto Razuk Filho ingressou na Bolívia em 1º de julho de 2026, em momento anterior à expedição do mandado de prisão, e somente tomou conhecimento da decretação de sua prisão por meio das notícias veiculadas pela imprensa.
- A ausência de apresentação imediata decorreu da existência de recursos ainda pendentes de julgamento perante a Justiça Eleitoral, cujo eventual acolhimento poderia reverter a decisão que culminou na perda de seu mandato parlamentar, circunstância diretamente relacionada aos fundamentos da decretação da prisão.
- Após o julgamento desfavorável dos recursos pelo Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul, bem como o indeferimento da medida liminar no habeas corpus impetrado por sua defesa, Roberto Razuk Filho decidiu cumprir espontaneamente a ordem judicial, manifestando formalmente, nos autos, sua intenção de se apresentar às autoridades competentes.
- A defesa requereu ao Juízo competente a definição das condições para a apresentação voluntária, pedido que foi devidamente deferido. Entretanto, antes mesmo de seu retorno ao Brasil, diversos veículos de comunicação passaram a noticiar sua iminente entrega às autoridades.
Antes de reingressar em território nacional, contudo, Roberto Razuk Filho foi abordado por autoridades estrangeiras, que procederam à sua entrega à Polícia Federal, impossibilitando que a apresentação voluntária ocorresse nos moldes previamente requeridos e autorizados pelo Poder Judiciário.
- Com seu retorno ao Brasil, a defesa adotará todas as medidas judiciais cabíveis para demonstrar a inexistência dos requisitos que justifiquem a manutenção da prisão preventiva, especialmente diante da ausência de contemporaneidade dos fundamentos utilizados para sua decretação, buscando o restabelecimento de sua liberdade, sem prejuízo da demonstração de sua inocência no curso do devido processo legal.
A defesa ressalta, por fim, que a intenção de apresentação voluntária foi previamente comunicada ao Poder Judiciário, formalizada nos autos e devidamente documentada, evidenciando a disposição do acusado em se submeter às determinações judiciais.”





















