Decisão cita suspeitas investigadas na Operação Antidotum, risco de falta de insumos e possível interrupção da anestesiologia a partir de outubro
A Justiça de Mato Grosso do Sul determinou o afastamento de toda a Diretoria Corporativa e do Conselho de Administração da Santa Casa de Campo Grande, além de uma supervisora do Serviço de Arquivo Médico e Estatística (SAME). A decisão também nomeou o médico Luiz Alberto Hiroki Kanamura como gestor provisório da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande (ABCG) pelo prazo inicial de 180 dias, com possibilidade de prorrogação.
A medida foi determinada pelo juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos de Campo Grande, em ação cautelar apresentada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).
A decisão foi proferida em meio à crise administrativa que se agravou após a Operação Antidotum, deflagrada pelo MPMS em 11 de setembro. A investigação apura suspeitas de fraudes e desvios de recursos em contratos da Santa Casa. Segundo o Ministério Público, os prejuízos identificados até o momento ultrapassam R$ 4,9 milhões.
Entre os contratos investigados está o de digitalização de prontuários médicos, firmado por R$ 1,8 milhão ao ano durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Segundo o MPMS, somente no primeiro ano, cerca de R$ 1,4 milhão teriam sido desviados.
Decisão alcança 20 pessoas
O afastamento atinge cerca de 20 integrantes da estrutura administrativa e deliberativa da instituição. Entre eles estão a ex-presidente Alir Terra Lima, que já estava afastada em razão da prisão preventiva, o presidente em exercício Heitor Miguel Scheibeler, o vice-presidente Ivan Araújo Brandão, diretores, conselheiros e a supervisora Monique Gregório de Oliveira.
A decisão também impede a recondução da atual Diretoria Corporativa aos cargos em novas eleições e determina que os afastados não interfiram na administração da instituição durante o período da medida.
A determinação ocorreu menos de 24 horas depois de Heitor Rodrigues Freire assumir o comando da instituição, em substituição à gestão anterior. Com a decisão judicial, a nova composição também foi afastada.
Risco de interrupção de serviços
Além das suspeitas de irregularidades administrativas e financeiras, o juiz considerou a situação do atendimento aos pacientes para justificar a urgência da medida.
Documentos citados na decisão apontam relatos de falta de materiais cirúrgicos, roupas privativas para o centro cirúrgico, equipamentos e outros insumos, além de atrasos no pagamento de equipes médicas.
Um dos pontos considerados mais urgentes é a situação dos serviços de anestesiologia. Segundo documento apresentado no processo, a empresa Servan Anestesiologia informou que não recebia honorários desde maio de 2026 e comunicou a rescisão do contrato, com previsão de encerramento dos serviços a partir de 1º de outubro.
O juiz registrou na decisão a existência de risco de paralisação da anestesiologia, caso a situação não fosse solucionada.
A preocupação é relevante porque a interrupção do serviço poderia afetar diretamente a realização de cirurgias e outros procedimentos que dependem de anestesia.
Kanamura terá poder para reorganizar hospital
Com o afastamento da direção, Kanamura passa a concentrar a administração provisória da ABCG. A decisão concede ao gestor poderes para representar a instituição judicial e extrajudicialmente, reorganizar equipes, contratar ou dispensar funcionários, negociar com fornecedores e credores, remanejar recursos e revisar atos relacionados às irregularidades sob investigação.
O gestor também poderá atuar na reorganização da Operadora Santa Casa Saúde, inclusive com a indicação de um administrador para a empresa.
Entre as determinações está a elaboração de um plano de gestão com medidas de curto e médio prazo. Kanamura deverá ainda prestar contas mensalmente ao Judiciário, com informações sobre a situação financeira da instituição, contratos, aplicação de recursos públicos e privados e providências adotadas para assegurar a continuidade dos atendimentos.
A decisão, por outro lado, proíbe a contratação de novos empréstimos bancários pela instituição durante a gestão provisória.
Investigação começou com contrato de prontuários
A Operação Antidotum foi deflagrada pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), ambos do MPMS.
Na primeira fase, foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 36 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO). A apuração começou com suspeitas relacionadas a um contrato para digitalização de prontuários médicos da Santa Casa.
O contrato previa pagamentos de R$ 1,8 milhão por ano durante três anos. Conforme o MPMS, foram identificados pagamentos elevados sem a correspondente prestação dos serviços, além de outras irregularidades que estão sendo apuradas.
A investigação também alcançou contratos da Operadora Santa Casa Saúde com empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico. Segundo o Ministério Público, a apuração identificou possível prejuízo de pelo menos R$ 3,5 milhões somente nessa frente, com pagamentos de aproximadamente R$ 9,6 milhões realizados em 2025.
As suspeitas ainda são objeto de investigação e deverão ser analisadas no decorrer do processo judicial.
Hospital terá de passar por reorganização
Na avaliação apresentada na decisão, a intervenção provisória busca impedir que a crise administrativa e financeira comprometa a continuidade do atendimento hospitalar.
A medida é cautelar e o processo continua em tramitação. Os envolvidos ainda poderão apresentar defesa, enquanto as investigações do MPMS prosseguem para esclarecer a extensão das possíveis irregularidades e eventual responsabilidade dos investigados.
















