Depois de aceitarmos que o clima mudou e que a conta da omissão já chegou ao nosso bolso, a pergunta inevitável que fica nos corredores da administração pública e nas mesas de jantar dos cidadãos é: por onde começamos a mudar? A resposta não está em grandes promessas para as próximas décadas, mas sim na forma como contratamos e executamos as obras públicas hoje. Para o cidadão que está cansado de ver a mesma avenida inundar todo ano, a verdadeira sustentabilidade não se resume a plantar árvores no Dia do Meio Ambiente. Ela se traduz no fim das soluções temporárias e superficiais na gestão das cidades, aquela velha prática de remediar problemas crônicos com intervenções que duram apenas até a próxima chuva forte.
A engenharia e a gestão pública tradicionais foram desenhadas para um planeta que não existe mais. Nossos sistemas de drenagem, nossos asfaltos e até a estrutura dos nossos prédios públicos foram projetados com base em médias históricas de temperatura e chuva que os eventos extremos transformaram em fumaça. Continuar licitando e construindo da mesma forma, ignorando os riscos climáticos, é uma irresponsabilidade fiscal. Quando uma prefeitura refaz um asfalto sem prever a drenagem adequada ou reforma um posto de saúde sem isolamento térmico, ela está rasgando o dinheiro do contribuinte. O cidadão precisa entender que a infraestrutura resiliente, aquela projetada para resistir e se adaptar aos extremos, pode parecer mais complexa no projeto, mas é a única que protege a vida e o patrimônio público no longo prazo.
Felizmente, as ferramentas para essa virada de chave já existem e estão disponíveis na nova legislação de contratações públicas. O conceito de “ciclo de vida” do objeto, por exemplo, permite que o Estado compre não o produto mais barato na prateleira, mas aquele que trará maior economia ao longo dos anos por exigir menos manutenção e gastar menos energia. Cidades inteligentes ao redor do mundo já entenderam que investir em calçadas permeáveis, tetos verdes, frotas de transporte público limpas e parques lineares que funcionam como esponjas para as enchentes não é luxo; é contabilidade básica. É gastar de forma inteligente na licitação para não decretar estado de emergência e gastar três vezes mais na reconstrução.
Portanto, o que o cidadão deve esperar e exigir de seus governantes a partir de agora é uma mudança radical de postura na gestão de ativos públicos. Precisamos migrar da cultura do improviso para a cultura da resiliência. Isso exige que os tribunais de contas, os gestores e os fiscais de contratos passem a enxergar o risco climático como uma variável financeira obrigatória. O futuro das nossas cidades está sendo decidido agora, em cada edital de licitação que é publicado e em cada linha do orçamento que é votada. Sustentabilidade, no fim das contas, é garantir que a estrutura que pagamos hoje ainda esteja de pé e funcional amanhã.
















