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O céu encoberto por uma névoa cinzenta que arde nos olhos, o zumbido ininterrupto do ar-condicionado tentando vencer um calor sufocante e o susto com a conta de luz no fim do mês. Durante muito tempo, nós tratamos as mudanças climáticas como um problema distante, quase sempre associado a relatórios técnicos da ONU, ursos polares em calotas de gelo distantes ou previsões futuristas que pareciam não alcançar a nossa rotina. Era uma discussão importante, sem dúvida, mas guardada em uma gaveta separada da vida real. O problema é que, de forma silenciosa, mas avassaladora, essa distância desapareceu. O clima mudou, e a nossa rotina foi arrastada junto.

As alterações no planeta não chegam mais apenas pelas grandes tragédias internacionais que ocupam o horário nobre. Elas se instalaram no nosso cotidiano, alterando a dinâmica das cidades e o bolso do cidadão. Aquilo que antes parecia excepcional e assustador agora se repete com uma frequência banal. Passamos a conviver com secas prolongadas, enchentes severas, ondas de calor extremo e queimadas como se fossem parte do calendário urbano. Quando o extraordinário vira rotina, a discussão climática deixa de ser uma exclusividade dos ambientalistas. Ela passa a ditar os rumos da economia, da saúde pública, da infraestrutura e, essencialmente, da nossa qualidade de vida.

Por isso, causa profundo incômodo perceber que a sustentabilidade ainda é tratada por alguns como um tema secundário ou meramente ideológico. Na prática do dia a dia, os impactos não escolhem partido político: eles aparecem no preço do supermercado, na instabilidade do abastecimento de água, na piora crônica da qualidade do ar e nos prejuízos materiais após cada tempestade. Quem vive nos centros urbanos sente na pele como a falta de planejamento potencializa esses efeitos. Cidades que viraram desertos de asfalto e concreto transformam-se em verdadeiras ilhas de calor, enquanto sistemas de drenagem obsoletos entram em colapso diante de chuvas que concentram o volume de um mês em poucas horas.

No fundo, o nó central dessa questão reside em uma matemática simples que a administração pública e a sociedade teimam em ignorar: o custo da prevenção quase sempre parece alto até que se compare com o custo da omissão. Adiar obras estruturais, negligenciar a arborização urbana e ignorar a transição para modelos mais limpos pode parecer uma economia confortável no presente, mas é uma armadilha financeira e humanitária. Reconstruir uma avenida destruída pela enchente ou arcar com o colapso dos hospitais em épocas de seca severa custa infinitamente mais caro do que planejar a cidade para suportar o novo normal.

Estamos entrando em uma fase madura, e talvez um pouco tardia, desse debate. A sustentabilidade finalmente começa a perder o verniz de mero discurso romântico para ser compreendida pelo que realmente é: uma ferramenta de planejamento, adaptação e sobrevivência urbana. O cidadão que paga seus impostos não quer mais ouvir promessas genéricas sobre o futuro do planeta; ele precisa de respostas sobre a viabilidade do seu próprio bairro amanhã. O clima já mudou, e a maior urgência agora é aceitar que a nossa forma de viver, construir, gastar e planejar também precisará mudar.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Veridyana Fantinato

Veridyana Fantinato

Advogada e contadora, mestranda em Direito Público pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e MBA em Agronegócio pela USP/Esalq. Possui especialização em Direito Público, Licitações e Contratos Administrativos e mais de 20 anos de experiência na área pública. Dedica-se ao estudo da sustentabilidade, da governança e das políticas públicas. | @veridyanafantinato

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