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Estudo da PUC-Rio aponta redução de 23,1% na ajuda de países ricos em 2025 e projeta novo recuo no próximo ano, com impactos para as nações mais pobres

A ajuda internacional destinada por países ricos a nações em desenvolvimento registrou, em 2025, a maior queda da série histórica. Em relação ao ano anterior, o volume de recursos diminuiu 23,1%, redução impulsionada principalmente pelos Estados Unidos, que responderam por 75% dos cortes, segundo estudo do Brics Policy Center, centro de estudos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Em valores reais, já descontada a inflação, a ajuda oficial ao desenvolvimento passou de US$ 226,7 bilhões em 2024 para US$ 174,3 bilhões em 2025. A redução foi de US$ 52,4 bilhões e marcou o segundo ano consecutivo de queda. Para 2026, a projeção é de novo recuo, desta vez de 6,9%, o que levaria o volume de recursos ao mesmo patamar de 2014.

O levantamento foi elaborado com base em dados do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD), ligado à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os principais países doadores de ajuda internacional. O Brasil não integra a organização.

A chamada Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) reúne recursos públicos destinados por governos para promover o desenvolvimento econômico e social de países de menor renda. Os repasses podem ser feitos diretamente aos países beneficiados ou por meio de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Banco Mundial.

EUA lideram redução

Embora o comitê reúna 33 países e a União Europeia, o estudo mostra que cinco grandes doadores, Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido e Japão, concentraram 95,7% da redução registrada entre 2024 e 2025.

Os Estados Unidos reduziram em 56,9% o volume de ajuda internacional, respondendo sozinhos por 75,1% da queda global. Também foi a primeira vez em que todos os maiores doadores diminuíram os repasses por dois anos consecutivos: Alemanha (-17,4%), França (-10,9%), Reino Unido (-10,8%) e Japão (-5,6%).

Segundo os pesquisadores, o corte americano coincide com o início do novo mandato do presidente Donald Trump, que tem adotado uma postura contrária ao multilateralismo. Outro fator apontado é a mudança de prioridade dos gastos públicos, com mais investimentos em defesa e segurança energética.

Nos Estados Unidos, as despesas militares aumentaram de US$ 822,8 bilhões em 2024 para US$ 845,3 bilhões em 2025. Na União Europeia, os gastos com defesa cresceram 11%, alcançando 381 bilhões de euros.

O relatório também destaca que os investimentos em energia na União Europeia praticamente dobraram na última década, passando de US$ 215 bilhões em 2015 para cerca de US$ 420 bilhões em 2025. “Esse impulso de investimento vem se consolidando ao longo da década e foi fortemente acelerado pelo choque de segurança energética após o início da Guerra da Ucrânia [fevereiro de 2022]”, explica o relatório.

Os pesquisadores afirmam que o cenário representa uma “retração seletiva” da ajuda internacional. Enquanto os recursos destinados ao sistema ONU caíram 27%, o maior recuo já registrado, o financiamento ao Banco Mundial aumentou 6,4% e aos bancos regionais de desenvolvimento cresceu 11,9%. “Os governos doadores estão redefinindo quais tipos de engajamento multilateral eles consideram dignos de serem preservados, por motivos estratégicos”, afirma o documento.

Ucrânia segue como prioridade

Apesar da queda global dos repasses, a Ucrânia continuou sendo prioridade para os países europeus durante o quinto ano da guerra contra a Rússia.

Mesmo com a redução de 91% da ajuda enviada pelos Estados Unidos, o país recebeu US$ 44,9 bilhões e permanece como o maior beneficiário individual da história da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento. A diminuição dos recursos americanos foi compensada pelo aumento das contribuições de 23 países, enquanto as instituições da União Europeia ampliaram em 65,2% os repasses destinados aos ucranianos.

O montante recebido pela Ucrânia supera os US$ 28,1 bilhões destinados, juntos, aos 44 países classificados pela ONU como Países Menos Desenvolvidos (PMD).

África é a mais afetada

A África Subsaariana foi a região mais atingida pela redução da ajuda internacional. Em 2025, os recursos destinados aos países da região caíram 23%, totalizando US$ 29,2 bilhões.

Para 2026, a projeção é de nova redução, desta vez de 11,6%, o equivalente a US$ 11,8 bilhões a menos. O estudo destaca que 32 dos 49 países da África Subsaariana fazem parte do grupo de Países Menos Desenvolvidos, o que amplia os impactos da diminuição dos repasses.

Para ilustrar as consequências da redução da ajuda internacional, os pesquisadores recorrem a estimativas da Oxfam. “A estimativa é de que os cortes na ajuda externa somente em 2025 seriam responsáveis por 695.238 mortes em excesso e que, caso a tendência de cortes na ajuda continue, poderiam causar 9.416.417 mortes até 2030”, reproduzem.

O relatório também lembra que, durante a 30ª Conferência da ONU sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em novembro passado, em Belém, discutiu-se a necessidade de mobilizar US$ 1,3 trilhão para o financiamento climático, ao mesmo tempo em que havia “um consenso de que esse valor é praticamente inalcançável”.

Recomendações

Ao final do estudo, os pesquisadores defendem que os recursos disponíveis sejam direcionados prioritariamente aos países mais pobres, sobretudo aqueles que dependem de poucos doadores. O documento também recomenda que a redução dos financiamentos ocorra de forma “responsável e coordenada” e que a ajuda internacional seja aplicada de maneira mais eficiente para ampliar seu impacto no desenvolvimento.

*Com informações e imagem da Agência Brasil

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