Governo brasileiro critica medida adotada por Donald Trump e especialistas apontam possíveis reflexos econômicos e diplomáticos
Entrou em vigor nesta sexta-feira (5) a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida foi anunciada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, em 28 de maio, e passou a valer após publicação no Diário Oficial dos EUA.
A decisão provocou reação do governo brasileiro, que considera a medida uma possível interferência em assuntos internos do país. O Palácio do Planalto defende que o combate ao crime organizado deve ocorrer por meio da cooperação internacional e do respeito à soberania dos Estados.
Especialistas avaliam que a classificação pode abrir espaço para pressões externas sobre o Brasil e gerar impactos em áreas como investimentos, comércio exterior, turismo e sistema financeiro.
Segundo o governo americano, o PCC e o Comando Vermelho são organizações criminosas com atuação transnacional e envolvimento em atividades ligadas ao narcotráfico. Washington já havia adotado medidas semelhantes contra cartéis do México e grupos criminosos de outros países da América Latina.
A medida também ocorre em um contexto de aproximação dos Estados Unidos com governos aliados na região por meio da coalizão Escudo das Américas, criada neste ano com o objetivo declarado de combater o narcotráfico e o crime organizado.
Possíveis impactos econômicos
A entrada em vigor da classificação ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
Quatro dias após anunciar a inclusão das facções brasileiras na lista de organizações terroristas, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA recomendou à Casa Branca a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos importados do Brasil, alegando supostas práticas comerciais desleais.
O documento também faz críticas ao sistema de pagamentos instantâneos Pix, apontando que a ferramenta poderia prejudicar empresas americanas do setor de pagamentos, como Visa, Mastercard e WhatsApp Pay.
Na sequência, o governo Trump anunciou a intenção de aplicar tarifas adicionais entre 10% e 12,5% sobre importações de 60 países, incluindo o Brasil, sob a justificativa de falhas no combate à comercialização de produtos produzidos com trabalho forçado.
O governo brasileiro rejeita as acusações e afirma que as medidas têm caráter protecionista. O Itamaraty informou que poderá recorrer aos mecanismos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica, que autoriza o país a adotar contramedidas contra nações ou blocos que imponham barreiras comerciais unilaterais aos produtos brasileiros.
Relação bilateral
Além dos possíveis efeitos econômicos, autoridades brasileiras demonstram preocupação com impactos na cooperação internacional na área de segurança. Integrantes do governo argumentam que o enquadramento das facções como organizações terroristas pode alterar a dinâmica de compartilhamento de informações e de operações conjuntas entre os dois países.
A classificação das facções brasileiras passa a integrar uma política mais ampla adotada pelo governo Trump, que tem ampliado o uso da legislação antiterrorismo para combater organizações criminosas com atuação internacional.




















