Estudo acompanhou cerca de 1.900 adultos por 15 anos e identificou risco até 29% menor entre pessoas com padrão alimentar associado ao combate à inflamação
O envelhecimento não precisa significar, necessariamente, perda de memória e de outras funções cognitivas. Estudos recentes indicam que hábitos mantidos ao longo da vida, entre eles a alimentação, podem contribuir para preservar a saúde cerebral e reduzir o risco de doenças como a demência.
Segundo o geriatra Dr. Sergio Alessandro Santos Alves, os cuidados com a saúde cerebral devem começar antes da terceira idade. Para ele, alterações relacionadas a doenças cerebrais podem se acumular durante anos antes do aparecimento dos primeiros sintomas.
“Embora os benefícios de hábitos saudáveis fiquem muito evidentes após os 60 anos, as patologias cerebrais começam a se acumular bem antes do surgimento de qualquer sintoma clínico. Por isso, manter uma dieta saudável precocemente é fundamental para construir o que chamamos de resiliência neurológica e modificar o risco de doenças a longo prazo”, explica o especialista.
Estudo acompanhou participantes por 15 anos
A relação entre alimentação e saúde cerebral ganhou novos dados com uma pesquisa publicada na revista científica JAMA Network Open. Cientistas do Instituto Karolinska e da Universidade de Liubliana acompanharam cerca de 1.900 adultos durante 15 anos para avaliar como os hábitos alimentares poderiam estar relacionados ao desenvolvimento de demências.
Os pesquisadores analisaram amostras de sangue dos participantes em busca de biomarcadores associados a lesões nos neurônios e a sinais precoces relacionados à doença de Alzheimer. Os resultados apontaram que o risco de demência foi até 29% menor entre as pessoas cuja alimentação estava associada ao combate à inflamação no organismo.
Segundo o material, a associação também foi observada entre pessoas com predisposição genética para a doença, o que reforça a importância dos hábitos alimentares como um dos fatores que podem influenciar o risco ao longo da vida.
“O maior erro é achar que exames alterados ou mesmo a predisposição biológica são uma sentença inevitável para a demência. A nutrição prova justamente que é possível mudar esse destino”, analisa o médico.
Como a alimentação afeta o cérebro
Um dos mecanismos relacionados a essa proteção é o combate à chamada inflamação crônica de baixo grau. Trata-se de um processo contínuo no organismo que pode estar associado ao consumo frequente de alimentos ultraprocessados, açúcares e gorduras ruins.
A manutenção desse estado inflamatório pode afetar as células e as conexões entre os neurônios. Por isso, o padrão alimentar recomendado pelo geriatra prioriza alimentos de origem vegetal, nozes e grãos integrais, além de reduzir o consumo de carne processada e açúcar.
“É uma alimentação baseada em vegetais, nozes e grãos integrais, com quase zero carne processada e açúcar. Ela blinda o cérebro porque corta a inflamação sistêmica, que é hoje considerada o principal gatilho para a morte dos neurônios.”
De acordo com o especialista, a alimentação também pode contribuir para a circulação sanguínea e para o fornecimento de nutrientes importantes ao funcionamento do cérebro.
“Essa dieta melhora a circulação sanguínea e fornece nutrientes essenciais que reduzem o encolhimento do cérebro, freando ativamente o acúmulo de proteínas tóxicas causadoras do Alzheimer.”
Não existe alimento milagroso
Apesar dos resultados, a proteção da saúde cerebral não depende de um único alimento. A adoção de uma dieta equilibrada ao longo dos anos é mais importante do que incluir isoladamente determinado ingrediente na rotina.
A busca por soluções rápidas pode levar à ideia de que sementes, frutas ou outros alimentos específicos seriam capazes de evitar, sozinhos, o declínio cognitivo. O especialista ressalta que os benefícios estão relacionados ao conjunto dos hábitos alimentares e à sua manutenção ao longo do tempo.
“O que realmente faz diferença e contribui para a proteção do cérebro é a construção de um padrão alimentar saudável como um todo, com hábitos consistentes ao longo do tempo”, finaliza.



















