Especialistas alertam que alterações na retina ajudam a identificar doenças silenciosas e reforçam a importância da consulta anual ao oftalmologista
A consulta anual ao oftalmologista vai muito além da avaliação da visão. Exames de rotina, especialmente o fundo de olho, podem identificar precocemente doenças silenciosas como hipertensão arterial e diabetes, muitas vezes antes mesmo de o paciente apresentar qualquer sintoma.
A retina, localizada na parte interna do olho, é uma das poucas regiões do corpo onde é possível observar diretamente os vasos sanguíneos sem a necessidade de procedimentos invasivos. Essa característica transforma o exame oftalmológico em uma importante ferramenta para o rastreamento de doenças que afetam todo o organismo.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 2,2 bilhões de pessoas convivem com algum grau de deficiência visual no mundo. Desse total, pelo menos 1 bilhão de casos poderia ter sido evitado ou ainda não recebeu tratamento adequado. Além dos impactos na saúde, a deficiência visual evitável gera perdas estimadas em US$ 411 bilhões por ano em produtividade global.
O olho pode ser o primeiro a dar sinais
Para a cardiologista Carla Patrícia Silva e Prado, professora de Medicina da Faculdade São Leopoldo Mandic, o exame oftalmológico oferece informações valiosas que vão além da saúde ocular.
“Quando pedimos um exame de fundo de olho, não estamos avaliando apenas a capacidade de enxergar. Estamos observando os vasos sanguíneos do paciente com um nível de detalhe que poucos exames não invasivos conseguem oferecer”, explica.
Segundo a especialista, não é raro que o diagnóstico de hipertensão ou diabetes aconteça durante uma consulta com o oftalmologista.
“Muitas vezes, o paciente descobre que tem pressão alta ou diabetes durante um exame de rotina dos olhos. O olho costuma dar os primeiros sinais dessas doenças antes que elas provoquem sintomas perceptíveis”, afirma.
Alterações na retina ajudam no diagnóstico
Entre as principais doenças identificadas durante o exame está a retinopatia hipertensiva, lesão provocada pelo aumento persistente da pressão arterial que compromete os vasos sanguíneos da retina.
Diretrizes médicas recomendam que pacientes hipertensos realizem o exame de fundo de olho anualmente para monitorar possíveis complicações.
Um estudo publicado nos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia encontrou sinais da doença em 23% dos pacientes hipertensos, enquanto a incidência entre pessoas com pressão arterial normal foi de apenas 2,64%.
O mesmo acontece com a retinopatia diabética, considerada uma das principais complicações do diabetes e uma das maiores causas de perda de visão no mundo. Por isso, o exame oftalmológico faz parte do acompanhamento regular de pacientes diagnosticados com a doença.
Inteligência artificial amplia possibilidades
Além das doenças já reconhecidas, pesquisadores estudam o uso da retina para prever riscos cardiovasculares ainda mais amplos.
A área, conhecida como oculômica, utiliza inteligência artificial para analisar imagens do fundo do olho em busca de padrões associados ao risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca.
Uma revisão científica publicada em 2025 na revista Nature Reviews Cardiology mostra que o tema desperta crescente interesse da comunidade científica.
Apesar do potencial, Carla ressalta que a tecnologia ainda está em fase de validação.
“O rastreamento de hipertensão e diabetes pelo exame oftalmológico já faz parte da prática clínica. Já a utilização da inteligência artificial para prever outros riscos cardiovasculares ainda está sendo estudada e não integra a rotina dos consultórios”, explica.
Diagnóstico precoce pode evitar complicações
Os especialistas alertam que um dos principais obstáculos para o diagnóstico precoce é a ideia de que o oftalmologista deve ser procurado apenas quando há dificuldade para enxergar.
Na avaliação da médica, essa percepção precisa mudar.
“O exame oftalmológico pode ser a porta de entrada para investigar a saúde do paciente de forma integrada. Não devemos olhar apenas para os olhos, mas para todo o organismo”, afirma.
Ela acrescenta que esse conceito também faz parte da formação dos estudantes de Medicina.
“Ensinar futuros médicos a reconhecer sinais sistêmicos durante um exame ocular significa desenvolver um raciocínio clínico mais completo e aumentar as chances de diagnóstico precoce”.
Quando procurar o oftalmologista?
A recomendação é que todas as pessoas façam um exame oftalmológico completo pelo menos uma vez por ano, especialmente aquelas que apresentam fatores de risco.
O acompanhamento é ainda mais importante para quem:
- tem histórico familiar de hipertensão arterial;
- possui casos de diabetes na família;
- apresenta colesterol elevado ou doenças cardiovasculares;
- tem mais de 40 anos;
- já foi diagnosticado com hipertensão ou diabetes;
- percebe alterações na visão, mesmo que discretas.
Segundo a especialista, esperar o surgimento de sintomas pode atrasar o diagnóstico.
“Muitas vezes, o primeiro sinal de hipertensão ou diabetes aparece nos olhos antes de qualquer outra manifestação clínica. Por isso, o exame oftalmológico deve ser encarado como parte dos cuidados preventivos com a saúde e não apenas como uma avaliação da visão”, conclui.
Foto: Magnific




















