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Geriatra explica que abandonar o cigarro mesmo após décadas de tabagismo reduz riscos de doenças e pode melhorar fôlego, capacidade funcional e qualidade de vida

A ideia de que parar de fumar depois dos 60 anos já não traz benefícios é um dos mitos que cercam o tabagismo na velhice. Segundo especialistas, abandonar o cigarro continua sendo uma das medidas mais importantes para proteger a saúde, reduzir complicações e preservar a independência mesmo entre pessoas que fumaram durante décadas.

“Nunca é tarde para parar de fumar. É claro que quanto mais cedo a pessoa abandona o cigarro, maiores são os benefícios. Mas mesmo depois dos 60, 70 ou 80 anos, a interrupção do tabagismo reduz o risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), câncer e doenças respiratórias”, afirma Lucas Gomes de Andrade, médico geriatra e diretor da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

A mudança não significa apenas acrescentar anos à vida. Na geriatria, um dos principais objetivos é preservar a capacidade funcional, isto é, permitir que a pessoa continue realizando atividades cotidianas com autonomia e independência.

“Parar de fumar pode melhorar o fôlego, facilitar a prática de atividade física, reduzir infecções respiratórias, favorecer a recuperação após cirurgias e ajudar a pessoa idosa a manter sua independência por mais tempo. Em outras palavras, não é apenas viver mais. É viver melhor”, diz Andrade.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) também reforça que abandonar o cigarro vale a pena em qualquer idade, inclusive para quem já desenvolveu doenças relacionadas ao tabagismo. A entidade destaca que os benefícios começam a aparecer pouco tempo depois da interrupção do consumo.

O INCA estima 174 mil mortes por ano no Brasil atribuíveis ao tabagismo, enquanto os custos para o país chegam a R$ 153,5 bilhões anuais. Isso equivale a cerca de 477 mortes por dia.

Os efeitos começam antes do que muitos imaginam

O organismo começa a reagir à interrupção do cigarro rapidamente. Segundo o INCA, cerca de 20 minutos após parar, pressão arterial e pulsação tendem a voltar ao normal. Em até oito horas, o nível de oxigênio no sangue se normaliza.

Entre 12 e 24 horas, os pulmões já apresentam melhora no funcionamento. Após duas semanas a três meses, há melhora da circulação e da função pulmonar. A tosse e a falta de ar também tendem a diminuir ao longo dos meses.

Os benefícios continuam no longo prazo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), após um ano sem fumar, o risco de doença coronariana fica em torno da metade do observado em quem continua fumando. Em dez anos, o risco de câncer de pulmão cai para cerca de metade do registrado entre fumantes.

Por isso, a idade em que ocorre a cessação influencia o tamanho do benefício, mas não determina se ele existirá. Quanto mais cedo a pessoa abandona o cigarro, maior tende a ser a redução acumulada dos riscos. Ainda assim, interromper o tabagismo na terceira idade pode trazer ganhos importantes.

Cigarro não afeta apenas os pulmões

O câncer de pulmão é uma das doenças mais associadas ao cigarro, mas está longe de ser a única consequência do tabagismo.

O consumo de produtos derivados do tabaco está relacionado a diferentes tipos de câncer e a doenças cardiovasculares e respiratórias. Também pode contribuir para problemas como osteoporose, catarata e infecções respiratórias.

Na velhice, a preocupação ganha outra dimensão. Além de tratar doenças, o cuidado geriátrico busca evitar que o paciente perca a capacidade de realizar tarefas básicas e instrumentais do cotidiano.

Segundo Andrade, o tabagismo pode contribuir para perda de massa muscular, fragilidade e redução da capacidade funcional. Com isso, atividades que antes eram simples podem se tornar mais difíceis, comprometendo a autonomia.

“Além de aumentar o risco de câncer, doenças cardiovasculares e respiratórias, o cigarro favorece perda de massa muscular, fragilidade e redução da capacidade funcional. Na Geriatria, nosso objetivo não é apenas aumentar a expectativa de vida, mas preservar autonomia e qualidade de vida”, afirma.

Parar de fumar também pode ajudar antes de uma cirurgia

A interrupção do tabagismo pode ser especialmente importante para pessoas que precisam passar por procedimentos cirúrgicos. Deixar o cigarro melhora a oxigenação e pode favorecer a recuperação.

O INCA destaca que até pacientes que já receberam diagnóstico de câncer podem se beneficiar da cessação. Entre os efeitos positivos estão melhora da cicatrização cirúrgica, da capacidade de oxigenação e redução de efeitos relacionados ao tratamento, além de possível melhora da resposta terapêutica e da qualidade de vida.

Para idosos, a decisão de parar deve ser integrada ao acompanhamento das demais condições de saúde. Atividade física, alimentação adequada, vacinação e controle de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), também fazem parte de uma estratégia de envelhecimento saudável.

Em situações específicas, médicos podem ainda avaliar a indicação de rastreamento do câncer de pulmão por tomografia computadorizada de baixa dose, de acordo com os critérios clínicos aplicáveis ao paciente.

Dependência não é falta de força de vontade

Um dos obstáculos para quem tenta abandonar o cigarro é interpretar a dificuldade como falta de determinação. O INCA classifica o tabagismo como uma doença relacionada à dependência da nicotina, o que ajuda a explicar por que muitas pessoas precisam de mais de uma tentativa antes de conseguir parar definitivamente.

Entre os sintomas de abstinência podem aparecer irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações do sono, dor de cabeça, tontura e forte vontade de fumar. Segundo o instituto, os sintomas costumam ser mais intensos nos primeiros dias e tendem a diminuir com o tempo.

Por isso, o acompanhamento profissional pode fazer diferença, especialmente para quem fuma há muitos anos ou apresenta outras doenças.

“O primeiro passo é acolher, sem julgamentos. Muitos idosos fumam há décadas e já tentaram parar diversas vezes e essas tentativas não representam fracasso, fazem parte do processo”, afirma Andrade.

Recaídas não significam que a tentativa deu errado

O retorno ao cigarro depois de um período de abstinência pode acontecer. O importante, segundo especialistas, é identificar os fatores que levaram à recaída e retomar o tratamento.

Ansiedade, depressão, situações sociais e hábitos associados ao cigarro podem funcionar como gatilhos. O geriatra pode avaliar o grau de dependência, identificar essas dificuldades e estabelecer estratégias individualizadas.

“Dependendo da situação, podemos utilizar orientação comportamental, envolver a família e lançar mão de medicamentos que aumentam as chances de sucesso. Também é importante acompanhar o paciente ao longo do tempo”, diz Andrade.

O próprio INCA orienta que uma recaída não seja encarada como fracasso. A recomendação é analisar o que levou ao retorno do consumo e tentar novamente.

SUS oferece tratamento gratuito

Quem deseja parar de fumar não precisa enfrentar o processo sozinho. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito para a cessação do tabagismo por meio da rede de saúde.

O atendimento pode incluir avaliação individual, consultas ou grupos de apoio, orientações para lidar com a vontade de fumar e, quando indicado por profissional de saúde, medicamentos para reduzir os sintomas da abstinência.

O Ministério da Saúde e as secretarias estaduais e municipais mantêm uma rede de unidades que oferecem acompanhamento para quem deseja abandonar o cigarro. A orientação é procurar uma unidade de saúde ou serviço de referência do município.

Foto: Magnific

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