Uma empresa pode estar muito ocupada resolvendo o presente e, ainda assim, estar atrasada em relação ao futuro.
Todos os dias existem clientes para atender, metas para cumprir, problemas para resolver, caixa para acompanhar e uma operação que não pode parar. O urgente exige atenção, enquanto o importante nem sempre está no mesmo grau e aquilo que está emergindo pode passar despercebido.
Uma mudança de comportamento ainda pequena, uma tecnologia que começa a alterar uma atividade, uma nova forma de consumir ou um conhecimento que passa a ser necessário dificilmente competem com os problemas que precisam ser resolvidos até o final do dia.
Mas a inovação também acontece enquanto a empresa continua atuando.
É por isso que a relação entre inovação e temporalidade me interessa.
As organizações convivem com tempos diferentes. Existe o agora, ocupado pela operação e pelas urgências. Existe o importante, formado por questões que precisam ser trabalhadas antes de se tornarem problemas. E existe o emergente, onde aparecem os primeiros sinais de movimentos capazes de alterar mercados, tecnologias, comportamentos e modelos de negócio.
O desafio está em conseguir atuar nos três.
Uma empresa absorvida pelo urgente pode ser eficiente para resolver o presente e, ao mesmo tempo, estar pouco preparada para o que está se formando.
Olhar apenas para o futuro também não sustenta uma organização. O negócio precisa entregar hoje, gerar resultado, atender clientes e manter sua operação funcionando.
Essa convivência torna a inovação mais complexa do que simplesmente criar algo novo. Ela exige perceber o que está mudando, compreender o que merece atenção, mobilizar recursos e transformar o que já existe quando o contexto exige.
É aqui que entram as capacidades dinâmicas: a habilidade da organização de perceber mudanças, mobilizar recursos e se reconfigurar diante do ambiente.
Nessa capacidade existe uma dimensão que considero fundamental: o tempo.
Perceber cedo demais algo que ainda não está pronto pode consumir recursos sem produzir resultado. Perceber tarde demais pode colocar a empresa na posição de acompanhar o que outros já construíram. Da mesma forma, transformar tudo a cada novo sinal gera dispersão, enquanto esperar que uma mudança esteja comprovada pode eliminar a possibilidade de aprender enquanto ela acontece.
Lidar com o emergente, portanto, não significa correr atrás de toda novidade. Significa criar condições para observar antes que tudo se torne urgente.
Muitas empresas começam a discutir uma transformação somente quando ela chega na ativa: o cliente já mudou, o concorrente já apareceu, a tecnologia já se difundiu ou o modelo atual começa a perder resultado.
Nesse momento, aquilo que poderia ter sido explorado como possibilidade passa a ser tratado como urgência.
Existe uma diferença entre explorar uma mudança e correr para alcançá-la.
A inovação precisa de espaço antes da urgência. Precisa de tempo para observar, testar, aprender, abandonar hipóteses, conectar conhecimentos e compreender o que aquela transformação pode significar para o negócio.
Isso não elimina a necessidade de cuidar do presente. Acrescenta à organização a responsabilidade de não permitir que o presente consuma toda a atenção necessária para perceber o que está se formando ao redor.
Uma empresa preparada para o futuro não precisa tentar antecipar tudo. Precisa conseguir conviver com diferentes tempos: resolver o urgente, construir o importante e manter atenção ao que ainda está surgindo.
Muitas das transformações que hoje tratamos como urgentes passaram bastante tempo diante de nós como sinais, movimentos soltos ou mudanças que pareciam distantes.
O futuro nem sempre chega como urgência. Muitas vezes, somos nós que o deixamos chegar até esse ponto.


















