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márcio pereira - atualizado certo

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A universidade pública brasileira está diante da maior disrupção de sua história recente. E não, não se trata apenas da crônica crise de financiamento, que asfixia a pesquisa e a extensão, nem da urgente e necessária reforma curricular, que se arrasta por décadas em debates intermináveis. A verdadeira força transformadora, o divisor de águas que já redesenha o presente e o futuro do conhecimento, é a inteligência artificial. E a esmagadora maioria de nossas instituições, mergulhada em um silêncio ensurdecedor, ainda não sabe o que fazer com ela.

Nos últimos meses, em conversas com gestores, professores e pesquisadores de diversas universidades brasileiras, o padrão que emerge é alarmante: muito desconforto, pouca política, nenhuma estratégia. A reação predominante oscila entre a negação e a paralisia. Alguns, em um gesto de desespero anacrônico, proíbem o uso de IA nas avaliações, como se um decreto pudesse conter uma força tecnológica dessa magnitude. Outros, em uma postura de avestruz, simplesmente ignoram a questão, esperando que o “problema” desapareça por conta própria.

Pouquíssimos, uma minoria quase estatística, estão de fato construindo uma resposta institucional à altura do desafio. Uma pesquisa recente da Cátedra Oscar Sala da USP, que analisou mais de 150 das principais instituições de ensino superior do país, encontrou apenas sete documentos oficiais com diretrizes sobre o uso de IA. Para efeito de comparação, um estudo semelhante nos Estados Unidos já havia mapeado 116 políticas de IA em universidades em 2023. O abismo é evidente.

O problema é que a IA não espera. Enquanto debatemos se o estudante pode ou não usar o ChatGPT, Gemini, Manus ou Claude (já usado tragicamente até para guerras) para escrever um relatório, o mercado de trabalho já está reescrevendo radicalmente o que significa ser competente em praticamente todas as áreas do conhecimento. Medicina, Direito, Engenharia, Ciências Sociais, Agronomia, Biologia, não há campo imune. A universidade, pública, comunitária ou privada, que não se adaptar corre o risco de irrelevância ou até extinção no médio-longo prazo. Formará profissionais para um mundo que não existe mais, entregando diplomas que se tornarão, em pouco tempo, peças decorativas. Verá seus melhores professores e estudantes, frustrados com a inércia, migrarem para ambientes mais dinâmicos e conectados com a realidade.

Os dados são reveladores. A adoção da IA pelos estudantes já é massiva e crescente. Uma pesquisa da Abmes de 2024 revelou que 71% dos estudantes universitários já utilizam ferramentas de IA em sua rotina de estudos, um salto de 18 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Outro levantamento (Student Voice 2025–26, conduzidaconduzido pelo Inside Higher Ed.), com alunos de 166 universidades, mostrou que 85% já usaram IA generativa, principalmente para brainstorming (55%), tirar dúvidas (50%) e se preparar para provas (46%).

Eles não estão apenas buscando atalhos; estão buscando eficiência, personalização e acesso a um universo de informações que a sala de aula tradicional, muitas vezes, não consegue oferecer. E, em sua esmagadora maioria (97%), eles clamam por orientação, por regras claras, por um uso ético e transparente da tecnologia. Eles não querem a proibição, querem a formação.

Então, o que precisa mudar? A resposta é: tudo. E com urgência.

Primeiro: a universidade precisa parar de tratar a IA como um mero problema pedagógico, uma questão a ser resolvida pelo professor em sua sala de aula, e entendê-la como o que ela é: uma questão estratégica de gestão. Isso exige decisão do topo, uma política institucional clara, corajosa e abrangente, que vá muito além de uma nota de rodapé no regimento. Exige investimento, formação e, acima de tudo, liderança.

Segundo: precisamos revisar fundamentalmente o que avaliamos e por quê. Se uma inteligência artificial consegue ser aprovada em nossa prova, escrever o TCC que exigimos ou gerar o relatório que pedimos, talvez o problema não seja a IA. Talvez o problema seja a nossa prova, o nosso TCC, o nosso relatório. É preciso mover o foco da memorização para a resolução de problemas complexos, do acúmulo de informações para o desenvolvimento do pensamento crítico, da repetição para a criatividade.

Terceiro: a formação dos professores não pode mais ser opcional, um curso de extensão de 20 horas para os mais interessados. Estamos falando de uma mudança profunda na cultura docente, na forma como os professores concebem sua própria prática. Eles precisam ser capacitados não apenas para usar as ferramentas, mas para redesenhar suas disciplinas, suas metodologias e suas avaliações em um mundo onde a IA é onipresente. Ignorar essa necessidade é abandonar os professores à própria sorte e aprofundar o abismo entre o ensino e a realidade.

Quarto: a pesquisa científica precisa incorporar a IA como ferramenta essencial (Perplexity, por exemplo). Não como uma ameaça à autoria, mas como um acelerador de descobertas. As universidades que entenderem isso primeiro, que investirem em infraestrutura e capacitação para pesquisa com IA, terão uma vantagem competitiva real na captação de recursos, na atração de talentos e na produção de conhecimento de fronteira. O Brasil, que já figura entre os 20 países com maior volume de publicações em IA, tem a oportunidade de ser protagonista, não mero espectador.

Tenho pensado muito sobre o papel que as universidades públicas brasileiras podem, e devem, ter nessa transição. Não como seguidoras tardias, que adotam tecnologias depois que elas já se tornaram hegemônicas. Mas como protagonistas. Como o lugar onde o futuro da IA é pensado criticamente, onde suas implicações éticas são debatidas, onde seus usos mais inovadores são desenvolvidos. Como o motor de um desenvolvimento tecnológico soberano e socialmente responsável.

Encerro, portanto, com uma pergunta simples, mas que deveria ecoar em todos os conselhos universitários do país: a sua universidade já tem uma política de IA? Se tem, é efetiva e não apenas negacionista da Inteligência Artificial? Não uma recomendação vaga, não um conjunto de proibições. Uma política de verdade. Uma estratégia. Um plano.

Se a resposta for não, o relógio já está correndo. E o futuro não esperará.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Márcio Pereira

Márcio Pereira

Administrador de Empresas, Doutor em Desenvolvimento Rural (UFRGS). | @marcio.araujo.pereira

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