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márcio pereira - atualizado certo

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Physical AI, robôs humanoides e o que o agronegócio brasileiro ainda não calculou

Em abril de 2026, um robô humanoide chamado Lightning completou a Meia-Maratona de Pequim em 50 minutos e 26 segundos. Mais rápido que qualquer ser humano já correu a mesma distância.

Não foi um feito esportivo. Foi um comunicado estratégico. A máquina não ganhou uma corrida: ela demonstrou resistência, orientação espacial em ambiente urbano não controlado e capacidade de manter desempenho físico por quase uma hora fora de um laboratório. Nos mesmos dias, a Boeing confirmava pilotos de teste assistidos por agentes de IA autônoma. A Japan Airlines anunciava dois robôs Unitree operando no Aeroporto de Haneda, carregando bagagens, transportando contêineres e limpando cabines a US$ 15.400 a unidade. A BMW revelava que dois humanoides da Figure AI operaram por onze meses consecutivos em sua planta de Spartanburg, contribuindo para a produção de mais de 30.000 unidades do X3.

Isso não é ficção científica. É o relatório de produção de uma indústria que chegou ao campo operacional.

O Argumento da Economist

Na edição desta semana, a The Economist publicou um editorial contundente intitulado ‘How to prepare for a jobs apocalypse’. O argumento central não é catastrofista. É pragmático: governos precisam construir redes de segurança antes que a evidência empírica do desemprego estrutural causado por IA se torne irrefutável. Porque quando isso acontecer, será tarde demais para agir.

O semanário britânico reconhece que, historicamente, o progresso tecnológico nunca destruiu o nível geral de emprego humano. Reconhece também que os modelos de IA atuais são extraordinariamente capazes, em ritmo muito superior ao que analistas projetavam há apenas um ano. E conclui com precisão cirúrgica: ‘A sociedade pode estar na véspera de uma profunda realocação de recursos e de convulsão política’.

O problema não é se a IA vai eliminar empregos. O problema é a velocidade com que isso pode ocorrer antes que as instituições consigam reagir.

A Economist adverte que os trabalhadores de colarinho branco ameaçados pela IA têm muito mais peso político e social que os operários da indústria afetados pela concorrência chinesa nos anos 2000. O chamado ‘China shock’ foi politicamente devastador. O ‘AI shock’, se mal gerido, pode ser de escala inteiramente diferente.

Physical AI: a Fronteira que Chegou ao Campo

O conceito de Physical AI marca uma ruptura qualitativa em relação à automação anterior. Enquanto a indústria robótica das décadas passadas programava máquinas para tarefas fixas e repetitivas em ambientes rigidamente controlados, a Physical AI combina grandes modelos de linguagem com sistemas de visão computacional, sensores e atuadores físicos capazes de operar em ambientes não estruturados. O robô não segue um roteiro. Ele percebe, planeja e age.

O mercado global de robôs agrícolas deve atingir US$ 20,6 bilhões em 2026, com taxa de crescimento anual composta de 23,2% desde 2021. Empresas como UBTECH, Unitree e startups especializadas já implantam humanoides em fazendas verticais, pomares e estufas. Em fazendas convencionais, o ritmo é mais lento, mas a trajetória é inequívoca. Pesquisas indicam que 83% dos agricultores em mercados desenvolvidos declaram interesse ativo em investir em robôs agrícolas.

A lógica econômica é direta. A força de trabalho agrícola global encolhe. Nos Estados Unidos, o emprego na agropecuária caiu 22.000 postos em cinco anos, enquanto 38% dos produtores têm 65 anos ou mais. A demanda por alimentos cresce na direção oposta: o mercado global de commodities agrícolas atingiu entre US$ 6,07 e 6,17 trilhões em 2025 e pode chegar a US$ 11,2 trilhões em 2033. O desequilíbrio entre oferta de mão de obra e demanda por produção é o motor estrutural da automação agrícola.

O Agronegócio Brasileiro: Escala sem Inteligência Própria

O Brasil é o país que mais rapidamente precisa responder a esse movimento, e o que menos parece percebê-lo como urgência estratégica.

O agronegócio representa aproximadamente 25% do PIB nacional. Mato Grosso do Sul, especificamente, registrou o maior crescimento do setor agropecuário do país, com expansão de 17,9% no PIB agrícola em 2025. O estado colhe safras recordes de soja, com 4,5 milhões de hectares e produção estimada de 14 milhões de toneladas. A segunda safra de milho avança sobre 2,1 milhões de hectares. O Vale da Celulose opera quatro grandes fábricas com duas mais em construção. O estado consolidou o amendoim como novo produto estratégico, com 42 mil hectares cultivados e liderança nacional. A citricultura expande aceleradamente, com projeção de 50 mil hectares na Costa Leste nos próximos cinco anos.

São números de potência agrícola mundial. O problema estrutural, no entanto, permanece o mesmo que atravessa toda a história do desenvolvimento regional brasileiro: o MS produz em escala de classe mundial e importa a inteligência que poderia transformar essa produção em valor agregado.

Mato Grosso do Sul é um estado que exporta commodities e importa o software que as processa, os algoritmos que as monitoram e os robôs que brevemente as colherão.

A Agrishow 2026, maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, realizada em Ribeirão Preto, reuniu mais de 800 expositores com foco central em agricultura de precisão, visão computacional e sistemas inteligentes. O evento confirma o apetite do setor pela tecnologia. Mas a questão decisiva não é se os produtores vão adotar Physical AI. É quem vai desenvolver, adaptar, implementar e manter essa inteligência. E se as universidades, centros de pesquisa e startups brasileiras vão estar na cadeia de valor, ou apenas na ponta consumidora.

O Papel do Sistema Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação

A Economist propõe um conjunto de respostas ao choque tecnológico que converge com o que a literatura de inovação regional há anos defende. Não inibir a tecnologia. Construir redes de segurança para os trabalhadores deslocados. Criar mecanismos tributários que capturem parte da renda gerada pela automação. E, sobretudo, preparar os sistemas educacionais e de formação profissional para a realocação da força de trabalho.

No contexto do agronegócio brasileiro, isso significa algo específico: as universidades públicas que atuam no entorno das grandes cadeias produtivas regionais precisam reposicionar seus programas de pesquisa. A UFMS, a UEMS, a UFGD, a UCDB e a UNIDERP, bem como as Embrapas do Estado (Gado de Corte, Agropecuária Oeste e Pantanal), operam em um estado que é epicentro da revolução agrícola brasileira. Seus laboratórios de engenharia, computação, ciências agrárias e biologia aplicada têm todo o substrato científico para desenvolver soluções de Physical AI adaptadas ao Cerrado, ao Pantanal e às especificidades do agronegócio sul-mato-grossense.

O ecossistema de inovação do MS, incluindo o Parque Tecnológico de Campo Grande (ParkTech CG) e o Parque Tecnológico de Ponta Porã (PTIn), além das iniciativas de agtechs nascentes, precisaria funcionar como uma camada de tradução entre a pesquisa universitária e as demandas do campo. Não como vitrine institucional, mas como infraestrutura competitiva real, gerando empresas capazes de vender soluções de Physical AI para o próprio agronegócio local e, em seguida, para mercados nacionais e internacionais.

O modelo da Embrapa, que transformou o Cerrado improdutivo em fronteira agrícola nas décadas de 1970 e 1980 por meio de pesquisa aplicada sistemática, é o precedente histórico mais relevante. A revolução que vem agora tem escala semelhante, mas velocidade muito superior. A janela para posicionamento estratégico é estreita.

A Lógica do Risco

A Physical AI não é uma ameaça existencial ao agronegócio. É uma condição de competitividade. O produtor que adotar essas tecnologias com inteligência e dados vai produzir mais, gastar menos e atender padrões crescentes de rastreabilidade e conformidade ambiental exigidos pelos mercados europeus e asiáticos.

O risco real não é a máquina. É a dependência. Um país que não desenvolve suas próprias soluções de Physical AI para a agricultura vai importar tecnologia ao preço que o mercado global determinar. Vai ter seus dados agrícolas processados em servidores estrangeiros. Vai treinar os algoritmos que colhem sua soja com conhecimento que não lhe pertence. E, no momento em que a força de trabalho rural começar a ser deslocada pela automação, vai carecer das políticas e instituições capazes de gerir essa transição com dignidade e coesão social.

O Brasil não pode repetir no campo o que fez na indústria de software: chegar tarde, adotar passivamente e perder a posição na cadeia de valor.

A Economist tem razão ao dizer que os governos precisam agir antes que a evidência empírica do desemprego estrutural seja irrefutável. O Brasil, país agrícola por vocação e necessidade, precisa ir além das redes de segurança. Precisa construir capacidade própria de desenvolvimento de Physical AI para o agronegócio. Isso requer política industrial, investimento em pesquisa aplicada, governança universitária orientada para a inovação e um ecossistema de startups agtech com musculatura real.

O campo que não dorme mais chegou. A pergunta que o Brasil ainda não respondeu é quem vai programar o robô.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Márcio Pereira

Márcio Pereira

Administrador de Empresas, Doutor em Desenvolvimento Rural (UFRGS). | @marcio.araujo.pereira

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