Existe uma característica histórica no desenvolvimento das cidades brasileiras que prioriza as entregas públicas mais visíveis e imediatas. Intervenções em superfícies, como a revitalização de praças e o recapeamento de vias, naturalmente geram uma percepção rápida de melhoria por parte da comunidade. No entanto, o atual cenário de eventos climáticos extremos tem demonstrado que a sustentabilidade de longo prazo das cidades depende, fundamentalmente, daquela infraestrutura que os olhos não veem: as galerias pluviais, os sistemas de drenagem, a contenção de encostas e as redes de escoamento. Diante de chuvas cada vez mais concentradas, o grande desafio da gestão pública moderna é equilibrar as demandas imediatas da população com esses investimentos estruturais invisíveis, mas vitais.
A engenharia urbana e o planejamento financeiro do Estado foram desenhados com base em médias históricas que a realidade climática recente acabou superando. Quando uma via pública sofre danos recorrentes após temporais, raramente o problema está na qualidade do asfalto em si, mas sim na ausência ou na insuficiência do sistema de drenagem subterrâneo que deveria sustentá-lo. Para a administração pública, essa recorrência gera um ciclo de gastos emergenciais que sobrecarrega o orçamento. Para o cidadão, o impacto se reflete na interrupção de serviços essenciais, em prejuízos materiais e na perda de mobilidade. A eficiência fiscal, portanto, está diretamente ligada à capacidade da infraestrutura de resistir a esses novos estresses climáticos.
Sob a ótica do controle e da governança, esse cenário exige que o planejamento e as contratações públicas incorporem novas variáveis de risco. A modelagem de projetos não pode mais se balizar apenas pelo menor custo de curto prazo. Ferramentas consolidadas pela Nova Lei de Licitações (Lei nº 14.133/2021), como a matriz de riscos e a avaliação do custo do ciclo de vida do objeto, deixaram de ser recomendações burocráticas para se tornarem instrumentos essenciais de segurança jurídica e de proteção ao erário. Olhar para o futuro de uma obra pública significa calcular quanto ela custará para ser mantida e o quanto ela é capaz de mitigar desastres previsíveis.
A construção de cidades resilientes é um processo gradual que exige o amadurecimento coletivo da sociedade, dos gestores e dos órgãos de controle. O cidadão, ao acompanhar a aplicação dos recursos públicos, também passa a compreender que obras de drenagem e macrodrenagem, embora fiquem enterradas e longe dos holofotes, são aquelas que garantem a segurança real da sua família durante uma madrugada de tempestade.
A sustentabilidade, quando aplicada à infraestrutura, desmistifica a ideia de que o meio ambiente é uma pauta isolada. Ela se revela na preservação do patrimônio público e na continuidade dos serviços prestados à população. O papel da governança responsável, sintonizada com os desafios da próxima década, é garantir que cada centavo investido hoje se converta em estruturas duradouras, capazes de manter nossas cidades seguras, funcionais e sustentáveis, independentemente do tempo que faça lá fora.


















