Vivemos o período mais conectado da história da humanidade. Nunca tivemos tanto acesso à informação, tantas plataformas, tantas notificações e tantas formas de comunicação. Paradoxalmente, nunca estivemos tão cansados. Quanto mais conectados estamos ao mundo digital, mais percebemos o valor daquilo que ele não consegue entregar, presença, silêncio, profundidade e conexão humana.
Nas minhas viagens, palestras e visitas a eventos como a NRF, HackTown e Web Summit, tenho observado um movimento que cresce silenciosamente e que, na minha opinião, será uma das grandes transformações do comportamento de consumo nos próximos anos. Não se trata de rejeitar a tecnologia. Muito pelo contrário. Trata-se de escolher, conscientemente, quando desligá-la.
Estamos entrando na era em que estar offline passa a ser um privilégio.
A WGSN chama esse movimento de “Comportamento Analógico”. Eu prefiro enxergá-lo como uma reação natural de uma sociedade que descobriu que excesso também gera escassez. Não falta informação. Falta atenção. Não faltam conexões. Faltam relacionamentos. Não falta velocidade. Falta significado.
Segundo estudos recentes, aproximadamente metade dos consumidores globais já tenta reduzir voluntariamente seu tempo de tela. Isso explica um fenômeno curioso, em 2025, cerca de 60% da Geração Z comprou discos de vinil, embora uma parcela significativa sequer possua um toca-discos. O mesmo aconteceu com fitas cassete, câmeras analógicas e objetos considerados “obsoletos”. Não se compra apenas um produto. Compra-se uma sensação. Compra-se identidade. Compra-se memória.
Isso me fez lembrar uma das reflexões mais conhecidas de Seth Godin, em Todos os Profissionais de Marketing São Mentirosos, “As pessoas não compram produtos. Compram histórias.” Talvez nunca essa frase tenha feito tanto sentido quanto agora.
Vivemos cercados por inteligência artificial, algoritmos capazes de prever comportamentos, automações, agentes inteligentes e assistentes digitais cada vez mais sofisticados. Trabalho diariamente com tecnologia e acompanho essa revolução de perto. Mas justamente por isso percebo algo curioso, quanto mais a tecnologia evolui, mais valiosa se torna a experiência genuinamente humana.
É como se estivéssemos vivendo uma espécie de “efeito sanfona”. Passamos anos acelerando tudo. Agora começamos a desacelerar algumas coisas. Não acredito que o futuro será analógico. O futuro continuará profundamente digital. Mas será seletivo. Acredito que veremos uma divisão muito clara entre aquilo que automatizamos e aquilo que escolhemos preservar.
A Inteligência Artificial responderá e-mails, organizará agendas, criará campanhas, fará análises financeiras e executará inúmeras tarefas repetitivas. Mas dificilmente substituirá um jantar entre amigos, uma conversa sem celular sobre a mesa, um livro com páginas marcadas, uma reunião em que as pessoas realmente se olham nos olhos ou um café compartilhado entre empresários que desejam construir confiança.
Talvez seja justamente por isso que acredito tanto no propósito do Café com Negócios. Muitas pessoas perguntam por que investir tempo em eventos presenciais quando existe LinkedIn, Zoom, WhatsApp e dezenas de plataformas digitais. Minha resposta sempre é a mesma. Porque negócios continuam sendo feitos entre pessoas.
“Tecnologia aproxima contatos. Presença constrói confiança.”
Existe uma diferença enorme entre conhecer alguém digitalmente e criar vínculo. A neurociência explica parte desse fenômeno. O contato presencial ativa áreas do cérebro relacionadas à empatia, à confiança e ao reconhecimento emocional de maneira muito mais intensa do que qualquer interação mediada por telas. Não por acaso, pesquisas mostram que encontros presenciais aumentam significativamente a qualidade das relações profissionais e pessoais.
No mercado, essa mudança já é visível. Na moda, cresce o interesse por peças vintage e coleções inspiradas em décadas passadas. Na gastronomia, receitas regionais, sabores afetivos e ingredientes locais ganham protagonismo. No entretenimento, clubes de leitura, discos de vinil, jogos de tabuleiro, papelaria artesanal, câmeras instantâneas e experiências sem telas voltam ao centro das atenções. Não porque sejam mais eficientes. Mas porque nos fazem sentir algo.
Em A Economia da Experiência, B. Joseph Pine II e James H. Gilmore defendem que empresas deixam de competir apenas por produtos e passam a competir pela capacidade de criar experiências memoráveis. Essa ideia nunca foi tão atual. Em um mundo saturado de estímulos digitais, aquilo que emociona passa a valer mais do que aquilo que apenas funciona.
Há outro ponto que considero ainda mais relevante para empresários e líderes. Durante muitos anos acreditamos que inovação significava apenas tecnologia. Hoje entendo que inovação também pode significar recuperar aquilo que nunca deveria ter sido perdido.
Criar espaços de conversa. Valorizar o tempo. Reduzir distrações. Estimular encontros. Fortalecer comunidades. Construir pertencimento.
Talvez o verdadeiro diferencial competitivo da próxima década não esteja em quem possui mais Inteligência Artificial, mas em quem consegue preservar mais inteligência humana.
Simon Sinek escreveu em O Jogo Infinito que organizações duradouras existem para servir a um propósito maior do que resultados imediatos. Concordo plenamente. As marcas que permanecerão relevantes serão aquelas capazes de equilibrar eficiência tecnológica com sensibilidade humana. Não acredito em uma disputa entre o digital e o analógico. Acredito em equilíbrio.
A Inteligência Artificial continuará transformando empresas. Os algoritmos continuarão moldando mercados. Os agentes inteligentes estarão presentes em praticamente todas as profissões. Mas nós continuaremos procurando exatamente as mesmas coisas que nossos avós procuravam, confiança, pertencimento, boas histórias, relações verdadeiras e momentos que mereçam ser lembrados.
Talvez seja essa a maior ironia do nosso tempo. Quanto mais digital se torna o mundo, mais humano passa a ser o verdadeiro luxo. E talvez o futuro não pertença às empresas que simplesmente dominarem a tecnologia.
Pertencerá às que souberem usar a tecnologia para devolver às pessoas aquilo que elas mais sentem falta, tempo, presença e conexão.













