Carregando…

Compartilhe

Advogado, ex-deputado federal e integrante de uma tradicional família política de Mato Grosso do Sul, candidato do PT tenta transformar experiência no Congresso e aproximação com Lula em força eleitoral para chegar ao comando do Estado

Fábio Ricardo Trad chega à disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul em 2026 depois de construir uma carreira política marcada pela atuação jurídica, pela passagem de 12 anos na Câmara dos Deputados e por uma mudança partidária que alterou o rumo de sua trajetória. 

Aos 56 anos, o advogado e professor universitário deixou o campo político de centro, em agosto de 2025, onde esteve desde o início da carreira eleitoral, para ingressar no Partido dos Trabalhadores (PT) e apresentar uma chapa com a sua vice Dona Gilda (PT), como alternativa de oposição ao atual governador e candidato à reeleição Eduardo Riedel (PP).

A candidatura reúne dois elementos distintos. De um lado, Trad carrega o peso de uma das famílias mais conhecidas da política sul-mato-grossense e uma carreira construída no Direito. De outro, enfrenta o desafio de disputar pela primeira vez o comando do Executivo estadual, além de enfrentar resistência por parte dos sul-mato-grossenses ao partido, que não elege um candidato de esquerda ao Governo do Estado desde 2002.

Esta reportagem integra uma série especial sobre os candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul. 

Nesta edição, o leitor conhece quem é Fábio Trad, sua trajetória, patrimônio, promessas de campanha e os desafios de conquistar o Governo de MS.

Quem é o candidato?

Descendente de imigrantes libaneses, Fábio Trad é filho do ex-deputado federal Nelson Trad e irmão do senador Nelsinho Trad e do ex-prefeito de Campo Grande Marquinhos Trad. Apesar de ter crescido em um ambiente familiar marcado pela política, iniciou a carreira profissional distante das urnas, como advogado e professor.

Formado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Trad construiu carreira acadêmica ligada ao Direito Constitucional, Processo Penal e Direito Público. Também lecionou em instituições de ensino de Mato Grosso do Sul, entre elas UFMS, UCDB e Uniderp. A formação jurídica se tornou uma das principais marcas de sua atuação pública.

Antes de entrar na política partidária, passou quase duas décadas na advocacia. Em 2006, foi eleito presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso do Sul (OAB-MS), para mandato entre 2007 e 2009. Na entidade, defendeu as prerrogativas da advocacia, a independência do Judiciário, a modernização da Justiça e o fortalecimento das instituições. A passagem pela Ordem ampliou sua projeção estadual e abriu caminho para a disputa eleitoral.

Da OAB à Câmara dos Deputados

A entrada oficial na política ocorreu em 2010, quando Trad aceitou o convite do então Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados, em Brasília. Estreante em eleições, foi eleito com mais de 82 mil votos.

A campanha ajudou a formar a imagem que o acompanharia durante os anos seguintes: a de um político de perfil técnico, ligado ao Direito e ao funcionamento das instituições. Entre as bandeiras apresentadas estavam o combate à corrupção, o fortalecimento institucional e a defesa da Constituição.

No primeiro mandato, iniciado em 2011, Trad passou a integrar a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), espaço estratégico da Câmara responsável pela análise da constitucionalidade das propostas. A formação jurídica contribuiu para sua participação em discussões sobre reforma do Judiciário, processo civil, segurança pública e direitos fundamentais.

Reeleito em 2014, ampliou a atuação em comissões especiais e em temas relacionados ao Direito Constitucional, ao sistema de Justiça e aos direitos do consumidor. Em 2018, trocou o PMDB pelo Partido Social Democrático (PSD) e conquistou o terceiro mandato consecutivo como deputado federal.

Foi no terceiro mandato, entre 2019 e 2022, que Trad alcançou maior projeção nacional. Participou da CCJ, presidiu a Comissão Especial do Novo Código de Processo Penal, foi relator da proposta relacionada à prisão em segunda instância e integrou debates sobre cannabis medicinal, Marco Legal das Startups, proteção animal e defesa do consumidor.

Entre os assuntos de maior repercussão esteve a discussão sobre a execução da pena após condenação em segunda instância. Trad defendeu uma solução por meio de alteração constitucional, em um debate que dividiu juristas, magistrados e parlamentares. Também participou de discussões que resultaram na legislação de proteção ao consumidor superendividado.

A primeira derrota e a mudança de rota

A sequência de três mandatos terminou nas eleições de 2022. Trad recebeu cerca de 44 mil votos, mas não conseguiu renovar a cadeira na Câmara. Foi a primeira derrota eleitoral de sua carreira.

Fora do Congresso, assumiu a Gerência de Controle e Integridade da Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo), durante a gestão de Marcelo Freixo. A passagem pela estatal aproximou Trad do governo federal e de integrantes do campo político ligado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele permaneceu na função até março de 2026, quando deixou o cargo para cumprir as regras de desincompatibilização eleitoral.

A mudança mais significativa, porém, veio em 2025. Depois de anos no PMDB e no PSD, Trad filiou-se ao Partido dos Trabalhadores.

A decisão marcou uma guinada em sua trajetória partidária. Segundo a posição apresentada por Trad, a mudança representava convergência com pautas de desenvolvimento social, fortalecimento das políticas públicas e redução das desigualdades. Para adversários, a filiação passou a ser utilizada para questionar a coerência ideológica do candidato diante de seu histórico em partidos de centro.

A nova filiação também o aproximou da direção nacional do PT e de Lula. O apoio do presidente, de Vander Loubet e de outras lideranças petistas foi incorporado à construção da candidatura ao Governo de Mato Grosso do Sul.

Um nome do PT para recuperar espaço em MS

A escolha de Trad ocorre em um momento em que o PT tenta recuperar protagonismo em Mato Grosso do Sul.

Fundado em 1980, durante o processo de redemocratização brasileira, o partido construiu sua base no estado a partir de movimentos sindicais, setores da educação, servidores públicos, estudantes e movimentos sociais. Ao longo das décadas, elegeu vereadores, prefeitos, deputados estaduais, deputados federais e senadores.

O principal capítulo da legenda no estado ocorreu entre 1999 e 2007, quando José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, governou Mato Grosso do Sul por dois mandatos. Depois desse período, a legenda perdeu espaço nas disputas majoritárias, embora tenha mantido representação no Legislativo.

É nesse contexto que a candidatura de Fábio Trad ganha importância para o partido. A legenda tenta voltar a disputar o Executivo estadual com um candidato de conhecimento público, experiência parlamentar e capacidade de diálogo com o governo federal.

Patrimônio declarado

As declarações de bens apresentadas por Trad à Justiça Eleitoral apontam crescimento patrimonial ao longo dos anos. Segundo o levantamento reunido no dossiê, o patrimônio declarado era de aproximadamente R$ 1 milhão em 2014, passou para cerca de R$ 1,7 milhão em 2018 e chegou a aproximadamente R$ 2,36 milhões em 2022.

Na declaração registrada nesta sexta-feira (7) pelo candidato, o patrimônio chegou a R$ 3,67 milhões, o que representa um aumento de aproximadamente 55,5% em relação ao valor declarado na eleição anterior.

Entre os bens aparecem imóveis urbanos, sala comercial, residência, terrenos, aplicações financeiras, fundos de investimento, previdência privada, veículos e participação societária. O material também registra que não aparecem grandes propriedades rurais ou extensas áreas destinadas ao agronegócio entre os bens declarados.

O que Trad promete ao eleitor

Na campanha de 2026, Trad tenta transformar sua experiência legislativa em uma proposta de gestão para Mato Grosso do Sul.

Na saúde, a candidatura apresenta como prioridades a redução das filas para consultas e cirurgias, o fortalecimento da regionalização, a ampliação do atendimento especializado e a modernização dos hospitais públicos.

Na educação, as propostas incluem ampliação das escolas de tempo integral, valorização dos professores, investimentos em tecnologia e fortalecimento do ensino técnico e profissional.

Na economia, o discurso prioriza industrialização, geração de empregos, apoio às pequenas empresas, empreendedorismo e atração de investimentos. Para o campo, a campanha destaca a agricultura familiar, as cooperativas e a assistência técnica aos pequenos produtores.

Outro eixo é o meio ambiente, com propostas relacionadas à preservação do Pantanal, desenvolvimento sustentável, economia verde e fiscalização ambiental.

A corrida eleitoral

As pesquisas reunidas no material mostram Eduardo Riedel na liderança da disputa e Trad como principal nome da oposição.

Levantamentos do Ranking Brasil Inteligência indicaram crescimento do candidato petista de 18,5% em fevereiro para 20% em maio, enquanto Riedel oscilou entre 41% e 44,2%. Em maio, pesquisa do Real Time Big Data apontou Riedel com 43% e Trad com 21%. Já o Novo Ibrape registrou 46,6% para o governador e 17,5% para o candidato do PT.

Na pesquisa espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados, Trad também mostrou evolução. O índice passou de 8% em fevereiro para 10,4% em julho, segundo os números reunidos no material. Em uma simulação de segundo turno do Real Time Big Data, Riedel aparecia com 54%, contra 31% de Trad.

Os números colocam Fábio Trad em uma posição clara: é o principal adversário de Riedel, mas parte da campanha ainda é dedicada a diminuir uma diferença considerável registrada pelas pesquisas.

O desafio de transformar experiência em voto

A campanha de Trad aposta em cinco frentes principais: presença digital, interiorização, apoio de lideranças nacionais, valorização do perfil técnico e defesa de um modelo de desenvolvimento associado à inclusão social, inovação e sustentabilidade.

O candidato chega à eleição com ativos políticos importantes. Tem experiência de 12 anos no Congresso, formação jurídica, conhecimento do processo legislativo e interlocução com o governo federal. Também conta com o apoio da Federação Brasil da Esperança e de lideranças nacionais do PT.

Mas os desafios são igualmente claros. Trad precisa ampliar sua presença no interior, enfrentar um governador que busca a reeleição, demonstrar ao eleitor que sua experiência no Legislativo pode ser convertida em capacidade administrativa e lidar com os questionamentos provocados pela mudança recente para o PT.

Com uma trajetória marcada por três mandatos federais, uma mudança partidária de grande impacto e a aproximação com Lula, Fábio Trad chega à eleição de 2026 tentando ocupar um espaço que o PT conhece, mas não domina desde a saída de Zeca do governo.

Foto: Reprodução/Partido Social Democrático

Os comentários a seguir não representam a opinião do Portal Total News

Deixe um comentário

Total News MS

AD BLOCKER DETECTED

Indicamos desabilitar qualquer tipo de AdBlocker

Please disable it to continue reading Total News MS.