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Uso do hormônio para emagrecer, ganhar músculos, aumentar libido ou combater efeitos do envelhecimento não tem indicação geral e pode provocar danos à saúde

Prometida nas redes sociais como uma espécie de solução para cansaço, perda de libido, dificuldade para emagrecer, redução de massa muscular e até sinais do envelhecimento, a testosterona não é um hormônio que toda mulher precisa repor. O alerta é da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que chama atenção para os riscos do uso indiscriminado da substância.

Segundo a agência, a reposição hormonal só deve ser realizada quando existe indicação clínica, após avaliação individual e acompanhamento médico. Sintomas, exames, histórico de saúde e evidências científicas precisam ser considerados antes de qualquer prescrição.

A preocupação ganhou espaço diante da disseminação de conteúdos nas redes sociais que apresentam a testosterona como uma estratégia de rejuvenescimento ou melhoria da qualidade de vida para mulheres, principalmente durante ou após a menopausa.

A Anvisa reforça que não existe recomendação para que mulheres façam reposição de testosterona simplesmente por causa da idade, por alterações nos resultados de exames ou com o objetivo de obter benefícios estéticos.

Quando a testosterona pode ser indicada?

De acordo com sociedades médicas, a única indicação terapêutica reconhecida cientificamente para o uso de testosterona em mulheres é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) em mulheres na pós-menopausa.

Mesmo nesse cenário, a utilização do hormônio não deve ser automática. A recomendação é que outras abordagens sejam consideradas antes e que o diagnóstico seja confirmado.

A prescrição depende da avaliação do quadro de cada paciente e deve ocorrer com acompanhamento médico.

Isso significa que sintomas comuns durante a menopausa, como cansaço, alterações no sono, mudanças na composição corporal ou redução da libido, não são, por si só, justificativa para iniciar testosterona.

Redes sociais impulsionam promessas de benefícios

A Anvisa alerta para a circulação de conteúdos que associam a testosterona a benefícios como pele mais firme, aumento de massa muscular, emagrecimento, mais energia e aumento da libido.

A apresentação do hormônio dessa maneira pode criar a falsa impressão de que a testosterona funciona como uma espécie de tratamento geral contra o envelhecimento.

A agência, no entanto, destaca que a reposição hormonal não é uma necessidade universal e deve ser baseada em indicação médica específica.

Promessas genéricas de rejuvenescimento, melhora da disposição ou transformação estética devem ser recebidas com cautela.

Fazer exame de testosterona de rotina é recomendado?

A nota conjunta publicada em maio de 2025 pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e pelo Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) afirma que a dosagem de testosterona em mulheres como exame de rotina não tem respaldo científico.

O mesmo vale para a utilização do conceito de “déficit androgênico” como justificativa genérica para prescrição hormonal.

A preocupação é que a interpretação isolada de um exame possa levar à indicação de testosterona para mulheres que não apresentam uma condição que justifique o tratamento.

Uso inadequado pode causar efeitos adversos

A testosterona é um medicamento com indicações específicas. Quando utilizada sem necessidade comprovada, em doses acima das recomendadas ou combinada com outras substâncias, pode aumentar os riscos à saúde.

Entre os possíveis efeitos adversos associados ao uso inadequado estão:

  • acne;
  • queda significativa de cabelo e pelos;
  • alterações no fígado;
  • alterações nos níveis de colesterol e outras gorduras no sangue;
  • problemas cardiovasculares;
  • alterações nos vasos sanguíneos;
  • dependência psicológica.

Alguns efeitos provocados pelo uso inadequado de hormônios podem ser persistentes ou irreversíveis, especialmente quando há exposição prolongada ou utilização de doses elevadas.

Por isso, a utilização com finalidade estética, sem indicação médica, não deve ser tratada como uma prática de baixo risco.

Testosterona não é sinônimo de tratamento para menopausa

A associação entre menopausa e reposição de testosterona também merece atenção.

A menopausa pode provocar uma série de alterações físicas e emocionais, mas isso não significa que todas elas sejam decorrentes de uma suposta falta de testosterona que precise ser corrigida.

A avaliação deve considerar os sintomas apresentados pela paciente e as diferentes possibilidades de tratamento.

O uso de hormônios deve ser individualizado, e a escolha do medicamento depende do diagnóstico e dos riscos e benefícios para cada mulher.

Medicamento controlado tem indicação específica

A testosterona é um medicamento regularizado no Brasil e possui indicações terapêuticas específicas.

Isso não significa, porém, que possa ser utilizada livremente para qualquer finalidade.

A Anvisa destaca que medicamentos classificados como anabolizantes são acompanhados por sistemas de farmacovigilância, que registram suspeitas de eventos adversos relacionados ao uso dessas substâncias.

Dados reunidos pela agência mostram aumento das notificações nos últimos anos, com pico em 2024. Testosterona e somatropina concentram mais de 90% dos registros desse grupo.

A Anvisa ressalva, entretanto, que o crescimento das notificações não significa necessariamente que os problemas provocados por essas substâncias tenham aumentado na mesma proporção.

Os registros também podem ser influenciados por fatores como maior conhecimento da população sobre os sistemas de notificação, expansão das plataformas eletrônicas e maior participação de pacientes e profissionais de saúde na farmacovigilância.

O que a mulher deve fazer antes de usar testosterona?

A principal recomendação é não iniciar o tratamento por conta própria e não utilizar produtos indicados por influenciadores, conhecidos ou propagandas nas redes sociais.

Antes de utilizar testosterona, a mulher deve passar por avaliação médica para identificar a causa dos sintomas e verificar se existe uma indicação clínica para o hormônio.

Um resultado de exame isolado também não deve ser utilizado como justificativa automática para iniciar a reposição.

A decisão precisa considerar o conjunto do quadro clínico, os possíveis benefícios, os riscos e as alternativas disponíveis.

Cuidado com promessas de ‘rejuvenescimento’

A popularização da testosterona para fins estéticos ocorre em um ambiente de forte divulgação de tratamentos que prometem mudanças rápidas no corpo.

A Anvisa recomenda cautela diante de propagandas que apresentem o hormônio como capaz de promover simultaneamente emagrecimento, ganho muscular, aumento de energia, melhora da libido e rejuvenescimento.

A existência de um medicamento regularizado não significa que ele seja indicado para todos esses objetivos.

No caso da testosterona em mulheres, a evidência científica sustenta indicações específicas, e não uma reposição generalizada como estratégia para combater o envelhecimento.

Foto: Magnific

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