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Márcio de Araujo Pereira - atualizado

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Como o Brasil chegou ao topo do agro global e por que Mato Grosso do Sul é peça central do próximo ciclo

Em 2021, os Estados Unidos exportavam US$ 56 bilhões a mais em produtos agropecuários do que o Brasil. Em 2025, essa distância havia se reduzido a US$ 2 bilhões: US$ 171 bilhões contra US$ 169,2 bilhões. No primeiro semestre de 2026, os embarques brasileiros do setor cresceram 6% e alcançaram US$ 87 bilhões, recorde para o período. A ultrapassagem, apontada pelo Financial Times a partir de dados do USDA e do Ministério da Agricultura e Pecuária, deixou de ser hipótese de longo prazo para se tornar questão de calendário.

O dado decisivo, porém, não está na tabela de exportações. Está na relação entre produção e área. Entre as safras 2015/16 e 2024/25, a produção brasileira de grãos saltou de 95 para 170 milhões de toneladas, avanço de 79%. A área plantada passou de 33 para 47 milhões de hectares, crescimento de 42%. A produtividade média subiu de 2,9 para 3,6 toneladas por hectare. Na última década, o Brasil ganhou 16% de produtividade, quase o dobro dos 9% obtidos pelos norte-americanos.

IndicadorSafra 2015/16Safra 2024/25Variação
Produção de grãos95 mi t170 mi t+79%
Área plantada33 mi ha47 mi ha+42%
Produtividade média2,9 t/ha3,6 t/ha+24%
Ganho de produtividade (2015 a 2025)EUA: +9%Brasil: +16%1,8x

Fontes: Conab e USDA, com base em compilação da revista Veja (julho de 2026).

O mecanismo: produtividade total dos fatores

A métrica que traduz esse fenômeno chama-se produtividade total dos fatores, ou PTF, indicador que relaciona tudo o que se produz a tudo o que se emprega para produzir, incluindo terra, trabalho, capital e insumos. Os números são inequívocos. Entre 1975 e 2020, o produto da agropecuária brasileira cresceu 405%, enquanto o uso de insumos aumentou apenas 33%. Estudos do Ipea indicam que, entre 2000 e 2019, a PTF brasileira avançou cerca de 3,2% ao ano, contra aproximadamente 1,7% da média mundial. Análises do período 1985 a 2017 atribuem à PTF cerca de 60% de todo o crescimento da produção agrícola nacional.

E qual foi o principal motor desse ganho de eficiência? O investimento público em pesquisa e desenvolvimento agropecuário, com papel central da Embrapa e das universidades federais e estaduais. A produção no Cerrado, considerada inviável por boa parte dos especialistas internacionais até os anos 1970, foi produto de decisão de Estado sustentada por pesquisa de longo prazo. Correção de solos ácidos, fixação biológica de nitrogênio, tropicalização de cultivares, plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta e melhoramento genético animal não são commodities. São ativos científicos.

A leitura geopolítica correta

Esse é o ponto que a análise conjuntural costuma inverter. A guerra tarifária entre Washington e Pequim, iniciada em 2018, acelerou o processo, mas não o criou. Quando a China reduziu drasticamente as compras de soja norte-americana, o Brasil ocupou o espaço porque tinha lastro produtivo pronto para absorvê-lo. Em 2025, o país embarcou mais de 80 milhões de toneladas de soja para o mercado chinês. Capacidade instalada dessa magnitude não se improvisa em resposta a tarifas: ela resulta de meio século de acumulação científica e institucional.

É por isso que o protagonismo brasileiro incomoda. Não se trata de uma vantagem circunstancial de câmbio ou de preço, e sim de uma reconfiguração estrutural da geografia alimentar mundial. Um país que lidera simultaneamente em soja, carne bovina, carne de frango, café, açúcar, suco de laranja e agora algodão detém poder de barganha que transcende o comércio agrícola. Essa é a origem material das tensões diplomáticas recentes, e ignorá-la é ler o tabuleiro pela metade.

Mato Grosso do Sul: o laboratório do modelo

Se o Brasil é o caso, Mato Grosso do Sul é a demonstração mais nítida de como o ciclo se reproduz em escala estadual. Em 2023, o PIB do agronegócio sul-mato-grossense cresceu 32%, o maior avanço entre todas as unidades da federação, segundo a Resenha Regional do Banco do Brasil. Para 2025, a projeção de expansão da agropecuária estadual chegou a 17,9%, novamente o maior índice do país. As exportações do agro estadual superaram US$ 10,1 bilhões em 2025, com a China concentrando 47,2% dos destinos.

Um dado desse conjunto merece atenção especial porque sinaliza mudança estrutural e não apenas volume: pela primeira vez na história, os produtos florestais lideraram a pauta exportadora do agro estadual, com US$ 3,12 bilhões, superando o complexo soja, com US$ 2,94 bilhões. Mato Grosso do Sul deixou de ser um estado de duas commodities. Tornou-se uma economia agroflorestal diversificada, com celulose, grãos, proteína animal, citricultura e amendoim compondo bases distintas de risco e de agregação de valor.

A decisão de investir em ciência

Nada disso ocorreu por acaso, e a trajetória do fomento estadual documenta a escolha. Os investimentos executados pela Fundect saltaram de R$ 9 milhões em 2017 para cerca de R$ 23 milhões em 2021 e ultrapassaram R$ 71 milhões em 2025 diretamente para pesquisa. Em nove anos, foram mais de R$ 300 milhões aplicados, em projetos de pesquisa e inovação e bolsas para formação de recursos humanos altamente qualificados. Trata-se de crescimento superior a 8 vezes em volume anual, sustentado inclusive em períodos de retração do fomento nacional.

Mais relevante que o montante é a arquitetura das chamadas, desenhadas para responder a agendas concretas do território. A Chamada MS Carbono Neutro, lançada em 2021 e inédita no país, destinou cerca de R$ 7,4 milhões a 19 projetos voltados à economia de baixo carbono. O edital de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável apoiou 68 projetos com R$ 10 milhões. A Chamada 08/2024, de Mudanças Climáticas, com R$ 6 milhões, selecionou 29 projetos, vários deles combinando agronomia, zootecnia e ciência de dados para modelar produção de forragem, qualidade de solo e emissões. A chamada de Extensão Tecnológica para Agricultores Familiares, Povos Originários e Comunidades Tradicionais e Resex – Residência em Extensão Rural, com investimento total de R$ 12, 4 milhões somados, organizaram o atendimento em polos regionais, levando pesquisa aplicada a agricultura familiar.

O diferencial de Mato Grosso do Sul não foi apenas investir mais. Foi construir uma arquitetura híbrida em que fomento público e pesquisa privada de produtores operam no mesmo circuito.

Esse é o ponto que raramente aparece nas análises nacionais. Por meio do FUNDEMS, Fundo para o Desenvolvimento das Culturas de Milho e Soja, fundo estadual de Mato Grosso do Sul, criado em dezembro de 2010, há o objetivo de fomentar a competitividade e a sustentabilidade da agricultura sul-matogrossense. Este fundo, gerido pela Semadesc, propiciou fomento a fundações de pesquisa criadas e mantidas pelos próprios produtores, como a Fundação MS, sediada em Maracajú, A Fundação Chapadão, sedia em Chapadão do Sul, que geram e valida tecnologias em rede em solos de municípios do estado. 

Sistemas de pesquisa que apenas publicam produzem prestígio. Sistemas que publicam e validam localmente produzem produtividade. Mato Grosso do Sul construiu o segundo tipo.

Os próximos desafios

A pergunta que interessa agora não é como chegamos aqui, mas o que sustenta a próxima década. Em um mundo em que a inteligência artificial redefine a fronteira competitiva, o Brasil dispõe de vantagens raras, desde que saiba convertê-las em ativos.

A primeira e mais importante é a camada de dados agronômicos tropicais. O país detém a maior série histórica do mundo sobre produção agrícola em ambiente tropical, distribuída hoje entre Embrapa, universidades, fundações de produtores, cooperativas e empresas privadas. Quem organizar, padronizar e governar essa base terá o insumo de treinamento dos modelos que prescreverão manejo em toda a faixa tropical do planeta, da África subsaariana ao sudeste asiático. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com R$ 23,03 bilhões previstos entre 2024 e 2028 e a agricultura entre os setores prioritários, oferece a janela orçamentária. Falta a arquitetura de governança de dados nacionais, e essa é uma tarefa que estados como Mato Grosso do Sul podem liderar antes da União.

A segunda é a conectividade rural tratada como infraestrutura de pesquisa, e não como serviço de telecomunicações. Sem cobertura consistente no campo, agricultura de precisão e agentes autônomos permanecem confinados às grandes propriedades, ampliando a assimetria tecnológica que a extensão rural deveria reduzir.

A terceira é a transição da commodity para a bioeconomia. Bioinsumos, crédito de carbono com lastro científico, novos usos da celulose, proteínas alternativas e produtos florestais de maior valor agregado representam a próxima curva de margem. Mato Grosso do Sul já demonstrou capacidade de antecipar esse movimento quando lançou, antes de qualquer outro estado, uma chamada dedicada à neutralidade de carbono.

A quarta é capital humano em interface. O gargalo dos próximos anos não será de agrônomos nem de cientistas de dados isoladamente, mas de profissionais capazes de transitar entre os dois domínios. Programas de pós-graduação em interface, bolsas dirigidas e residências tecnológicas em fundações de pesquisa são instrumentos disponíveis e subutilizados.

O que está em jogo

O Brasil está prestes a assumir a liderança mundial das exportações agrícolas com uma característica que nenhum concorrente possui: chegou lá aumentando produtividade mais rápido do que área. Essa é a definição prática de intensificação sustentável, e é também o argumento mais sólido que o país tem a apresentar em qualquer mesa de negociação climática ou comercial.

Mato Grosso do Sul ocupa posição privilegiada nesse tabuleiro, não por acidente geográfico, mas por uma sequência de decisões de investimento em ciência tomadas quando os resultados ainda eram invisíveis. A tarefa agora é converter liderança produtiva em liderança tecnológica, e liderança tecnológica em soberania sobre os dados e os modelos que vão orientar a agricultura tropical global. O primeiro ciclo foi vencido no campo e decisões governamentais estratégicas. O segundo será vencido nos laboratórios, nos bancos de dados e no contínuo avanço do fomento científico e tecnológico, com indicadores e resultados, o que o estado já vem fazendo e aprimorará ainda mais.

Fontes consultadas: Ministério da Agricultura e Pecuária, USDA, Conab, Ipea, Embrapa, MCTI, CNPq, Fundect, Semadesc, Sistema Famasul e Financial Times. Valores de exportação referentes a 2025 seguem metodologias nacionais distintas nos dois países e admitem margem de comparação.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Márcio de Araújo Pereira

Márcio de Araújo Pereira

Administrador de Empresas, Doutor em Desenvolvimento Rural (UFRGS). | @marcio.araujo.pereira

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