Do salto de oito posições no pilar Inovação ao parque tecnológico da fronteira, os ecossistemas locais de Mato Grosso do Sul oferecem uma lição concreta sobre a hélice quádrupla. E também sobre o que ainda falta.
Dois números do Ranking de Competitividade dos Estados 2025, do Centro de Liderança Pública, contam a história de Mato Grosso do Sul nesta década. O primeiro é para comemorar: no pilar Inovação, o Estado saltou da 17ª para a 9ª posição em um único ciclo, o maior avanço entre todos os pilares avaliados. O segundo é desconfortável: dentro do mesmo pilar, o indicador de estrutura de apoio à inovação, que mede parques tecnológicos, núcleos de inovação tecnológica e capital semente, permaneceu na 17ª posição.
Nenhum dos dois está errado. Juntos, descrevem um ecossistema que aprendeu a produzir conhecimento mais rápido do que aprendeu a convertê-lo em negócio. E apontam onde deve estar a agenda da próxima década.
A desconcentração é real, e é mensurável
Por três décadas, a inovação brasileira foi tratada como fenômeno geograficamente inevitável: nascia no eixo São Paulo, Rio e Sul, e o resto do país consumia o que sobrava. Os dados de 2025 desmontam a premissa. O Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento, calculado pelo INPI com metodologia inspirada no Global Innovation Index da OMPI, posiciona Mato Grosso do Sul em 10º lugar nacional. No Índice de Inovação dos Estados, do Observatório Nacional da Indústria, o Estado aparece em 11º, tendo subido cinco posições entre 2021 e 2025, o maior avanço do país no período.
O economista-chefe do INPI descreveu o fenômeno como o surgimento de uma nova geografia da inovação brasileira, em que polos de startups deixam de ser exclusividade dos grandes centros. A leitura é correta, mas incompleta. A desconcentração não acontece por difusão espontânea. Acontece onde alguém construiu, deliberadamente, a arquitetura institucional que a torna possível.
A desconcentração da inovação não é um fenômeno natural. É um resultado de política pública, ou não acontece.
O que faz uma hélice efetivamente girar
O modelo da hélice tríplice, formulado por Etzkowitz e Leydesdorff nos anos 1990 e ampliado por Carayannis e Campbell para incorporar a sociedade civil, virou lugar comum nos documentos de planejamento. Governo, academia, empresa e sociedade aparecem em praticamente todo plano estadual de ciência e tecnologia do país. O problema é que a hélice não é um diagrama de PowerPoint. É um arranjo que só funciona quando reduz custos de transação reais entre atores que, por conta própria, não conversariam.
A literatura internacional sobre parques tecnológicos é implacável quanto a isso. Otaniemi, na Finlândia, não decolou por causa dos prédios, mas pela fusão institucional que criou a Aalto University em 2010, colocando engenharia, negócios e design sob a mesma governança. O Brainport de Eindhoven só existe porque a Philips abriu seu campus de pesquisa a terceiros em 2003, criando demanda âncora para centenas de fornecedores tecnológicos.
O denominador comum não é dinheiro, é desenho institucional: regras claras de propriedade intelectual, uma entidade gestora profissionalizada e uma demanda âncora que dê previsibilidade ao investimento privado. Onde esses elementos faltam, o parque tecnológico vira empreendimento imobiliário com fachada de inovação. O Brasil tem exemplos suficientes desse desfecho para que sirva de advertência permanente.
A aposta metodológica de Mato Grosso do Sul
Foi contra esse pano de fundo que a Chamada SEMADESC/Fundect 06/2024, de apoio aos ambientes de inovação, fez uma escolha que merece registro. Com R$ 5 milhões e aportes entre R$ 50 mil e R$ 200 mil, o edital poderia ter concentrado recursos na capital, caminho de menor resistência e de maior retorno estatístico no curto prazo. Optou pelo contrário. Os 35 projetos aprovados se distribuíram por onze municípios: Campo Grande com doze, Ponta Porã com cinco, Dourados com quatro, Três Lagoas com três, Aquidauana, Coxim, Naviraí e Nova Andradina com dois cada, e Chapadão do Sul, Corumbá e Jardim com um cada.
A execução envolveu UFMS, UEMS, UFGD, UCDB, IFMS e Senai, em parceria com o Sebrae-MS e a Rede Sul-Mato-Grossense de Inovação. Espaços maker, coworkings, incubadoras, aceleradoras, hubs e polos tecnológicos foram tratados como categorias distintas, com exigências proporcionais ao estágio de maturidade de cada ambiente. Não é detalhe burocrático: é o reconhecimento de que uma pré-incubadora em Jardim e um parque em Campo Grande não podem ser avaliados pela mesma régua, sob pena de o interior nunca conseguir competir.
Distribuir recursos por onze municípios é mais difícil de gerir e mais lento de mostrar resultado. É também a única forma de o interior parar de exportar talento.
Da chamada aos equipamentos
O ciclo se materializou em infraestrutura. O ParkTec CG, primeiro parque tecnológico e de inovação de Campo Grande, consolidou-se como ponto de articulação entre universidades, startups e setor produtivo, com presença ativa nos espaços de conexão com o agronegócio, onde a demanda por tecnologia é concreta e pagante. A capital lidera o Centro-Oeste no Ranking Connected Smart Cities e figurou em 15º lugar geral na edição de 2024, única cidade da região entre as cem melhores em todos os eixos avaliados.
Em março de 2026, a inauguração do Parque Tecnológico Internacional de Ponta Porã, o PTIn, ao lado do Centro de Cultura, Empreendedorismo, Inovação e Memória do Tereré, acrescentou uma peça de natureza diferente. São mais de 1.600 metros quadrados viabilizados por US$ 25 milhões do Fonplata, somados a R$ 1,7 milhão de convênio entre Fundect e Prefeitura de Ponta Porã e a emendas da bancada federal. Primeiro equipamento do gênero no Centro-Oeste, o PTIn é um ativo de fronteira, com alcance sobre Pedro Juan Caballero e o mercado paraguaio, no eixo da Rota Bioceânica.
Mato Grosso do Sul nos indicadores nacionais
| Indicador | Fonte | Posição | Movimento |
| Pilar Inovação | CLP 2025 | 9º | Subiu 8 |
| Estrutura de apoio à inovação | CLP 2025 | 17º | Estável |
| Pilar Capital Humano | CLP 2025 | 2º | Subiu 1 |
| Índice Brasil de Inovação | INPI 2025 | 10º | Estável |
| Índice de Inovação dos Estados | CNI 2025 | 11º | Subiu 5 |
Movimento do Índice de Inovação dos Estados refere-se ao intervalo 2021 a 2025. Demais movimentos referem-se ao ciclo anterior.
O que os avanços ainda não resolveram
Reconhecer o que foi construído não dispensa a leitura dos indicadores que não se moveram. Além da 17ª posição em estrutura de apoio à inovação, o Estado aparece em 12º em patentes e em 20º na proporção de trabalhadores com ensino superior, apesar da segunda colocação nacional em Capital Humano. O contraste é revelador: há produtividade do trabalho e formalidade elevadas, mas ainda se empregam poucos profissionais de nível superior nas atividades que geram valor tecnológico.
Há um dado adicional que merece franqueza. Ao cruzar desempenho em inovação com PIB per capita, o próprio Índice Brasil de Inovação classifica Mato Grosso do Sul entre as economias cujo resultado fica aquém do esperado para seu patamar de renda. A posição no top 10 é real, mas sustentada em parte pela robustez econômica do Estado, não apenas pela densidade do seu sistema de inovação. É essa a lacuna que os próximos ciclos precisam fechar.
Cinco movimentos para a próxima década
A agenda que se desenha não é de ruptura, é de aprofundamento. Cinco medidas parecem incontornáveis.
1. Financiamento plurianual. Ambientes de inovação amadurecem em cinco a sete anos, não em doze meses. Substituir editais anuais por contratos de desempenho plurianuais, com metas de empresas graduadas e faturamento gerado, é a mudança de maior impacto e menor custo fiscal.
2. Capital semente estadual. É a perna que falta. Um fundo de coinvestimento articulado com BRDE, Finep e crédito descentralizado converteria o pipeline de projetos apoiados em empresas capazes de escalar sem migrar para outro estado.
3. Governança compartilhada da rede. Os onze ecossistemas locais não precisam de onze estruturas administrativas completas. Um back office comum de jurídico, propriedade intelectual e prestação de contas liberaria os gestores para fazer o que só eles podem fazer: articular atores no território.
4. Demanda âncora pública. O Marco Legal de CT&I e a Lei 14.133 já permitem encomenda tecnológica e compras públicas de inovação. Aplicá-las às agendas estratégicas do Estado, bioeconomia, cadeia florestal, gestão hídrica e logística de fronteira, transformaria o poder de compra estadual em política industrial.
5. Métricas de resultado. É hora de parar de contar inaugurações e passar a contar empresas graduadas, faturamento gerado, empregos qualificados e, sobretudo, mestres e doutores que permaneceram no Estado.
O teste que realmente importa
O êxodo de cérebros não é um problema de sentimento regional, é um problema de balanço. Cada doutor formado em Dourados que constrói carreira em Campinas representa investimento público sul-mato-grossense capitalizado por outra economia. A interiorização existe para inverter esse fluxo, e é por isso que distribuir recursos entre Naviraí, Coxim, Corumbá e Chapadão do Sul faz sentido mesmo quando o retorno estatístico de curto prazo seria maior concentrando tudo na capital.
Mato Grosso do Sul montou, em uma década, a arquitetura institucional que muitos estados ainda debatem: uma fundação de amparo operante, uma secretaria com agenda de inovação integrada ao planejamento estadual, uma rede de ambientes distribuída pelo território e dois parques tecnológicos em funcionamento, um deles internacional. É um patrimônio que não se reconstrói rapidamente se for interrompido.
O teste da próxima década será simples de enunciar e difícil de passar. Não será a posição em nenhum ranking. Será se um jovem que defende sua tese em Três Lagoas ou dissertação em Ponta Porã encontrará, na porta ao lado, uma empresa capaz de contratá-lo pelo que ele sabe. Enquanto a resposta não for majoritariamente sim, o trabalho segue inacabado. Os indicadores de hoje mostram que ele está, finalmente, bem encaminhado.














