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márcio pereira - atualizado certo

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Enquanto a eliminação para a Noruega nas oitavas de final ocupa as manchetes, um mundial mais decisivo para o futuro do país segue sendo disputado, e o placar não é melhor

No último domingo, o Brasil caiu diante da Noruega por 2 a 1 nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, repetindo a pior campanha da seleção desde 1990. O resultado doeu porque rompeu um tabu histórico: a Noruega agora avança às quartas de final pela primeira vez em sua história. Houve pênalti perdido, houve reação tardia de Neymar, houve a sensação incômoda de favoritismo desperdiçado.

Essa derrota, por mais simbólica que seja, dura noventa minutos e uma manchete. Há, porém, outra competição entre as mesmas duas seleções, medida não em gols mas em patentes, publicações científicas, capital de risco e formação de pesquisadores, na qual o distanciamento entre Brasil e Noruega não se mede em uma partida, mas em décadas de política de Estado. É a corrida da inovação, e nela o país também está nas oitavas de final, ano após ano, sem sinais de que vá além disso tão cedo.

O outro Mundial: como se mede a inovação

O Global Innovation Index (GII), publicado anualmente pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) em parceria com o Portulans Institute, é hoje a métrica mais consolidada para comparar capacidade de inovação entre economias. Em sua 18ª edição, divulgada em 2025, o índice avalia 139 países a partir de 78 indicadores distribuídos em sete pilares, que vão de instituições e capital humano até sofisticação de mercado e resultados de conhecimento e tecnologia.

É, em essência, uma tabela de classificação tão minuciosa quanto qualquer ranking da FIFA, só que medindo insumos e resultados de um jogo mais longo: o da capacidade de um país transformar conhecimento em riqueza, competitividade e resiliência.

Os favoritos que confirmaram favoritismo, e o azarão que surpreende

No topo do GII 2025 aparecem Suíça, Suécia, Estados Unidos, Coreia do Sul e Cingapura, um pelotão que já era esperado. A novidade fica por conta da China, que entra pela primeira vez no top 10 (10ª colocação), consolidando-se como a única economia de renda média entre as maiores potências de inovação do planeta.

O verdadeiro azarão da edição, contudo, é a Noruega. Historicamente discreta nos rankings de inovação, o país nórdico estreou entre as 20 economias mais inovadoras do mundo, na 20ª posição, impulsionado por um desempenho de liderança global no pilar de Infraestrutura e por uma nota sólida em Instituições, o 9º melhor resultado entre 139 países avaliados.

A Noruega não chegou ao top 20 gastando mais em pesquisa que seus pares ricos. Chegou lá porque construiu instituições e infraestrutura capazes de transformar recursos modestos em resultado consistente.

Esse detalhe importa mais do que parece. Veremos adiante que a Noruega investe proporcionalmente menos em P&D do que a maioria das economias ricas do G20. Sua ascensão no ranking é, portanto, uma vitória de arquitetura institucional, não de volume de investimento. É exatamente o oposto do discurso mais comum sobre inovação, que trata dinheiro como sinônimo de resultado.

PaísPosição GII 2025Observação
SuíçaLíder global pelo 15º ano consecutivo
Coreia do SulMaior intensidade de P&D do G20
China10ªÚnica economia de renda média no top 10
Noruega20ªEstreia no top 20, líder mundial em Infraestrutura
Chile51ªLíder da América Latina e Caribe
Brasil52ª2º na região, entre os climbers mais rápidos desde 2019
México58ª3º na região

O Brasil nas oitavas, de novo

O Brasil aparece na 52ª posição do GII 2025, líder isolado atrás apenas do Chile (51º) entre os países da América Latina e Caribe, à frente do México (58º). O relatório da OMPI reconhece o país como uma das economias que mais subiram no ranking desde 2019 e destaca que o Brasil segue superando, pelo quinto ano consecutivo, o desempenho esperado para seu nível de desenvolvimento, muito por conta de gastos educacionais e investimento privado em P&D acima da média regional.

É um mérito real, e seria desonesto omiti-lo. Mas é também um mérito relativo: superar expectativas modestas não é o mesmo que competir pelo título. Enquanto Chile e Brasil disputam a liderança regional na casa da 51ª e 52ª posição, países que eram irrelevantes no debate global de inovação há uma década, como Arábia Saudita (46ª) e Catar (48ª), já estão à frente do Brasil na tabela.

No recorte de polos de inovação, que mede concentração de patentes, publicações científicas e capital de risco por região metropolitana, São Paulo aparece na 49ª posição entre os 100 principais polos do mundo, o único representante brasileiro na lista. Oslo, capital norueguesa, entrou pela primeira vez no top 100 nesta edição, na 85ª posição, um sinal de que mesmo a capital de um país de 5,6 milhões de habitantes já organiza um ecossistema de inovação reconhecido internacionalmente.

Dinheiro não é destino, mas também não é irrelevante

O investimento em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB continua sendo o indicador mais direto de prioridade nacional. Em 2024, segundo estimativas da OMPI, Israel liderou o mundo com 6,33% do PIB aplicados em P&D, seguido pela Coreia do Sul, com 5,32%. Um segundo grupo de economias de alta renda, incluindo Japão e Estados Unidos, ambos com 3,45%, Bélgica (3,32%) e Alemanha (3,11%), mantém compromissos elevados com pesquisa.

A Noruega, mesmo com sua ascensão no ranking geral de inovação, investiu 1,85% do PIB em P&D em 2023, patamar considerado baixo para os padrões da OCDE e distante da meta de 3% que o próprio governo norueguês estabeleceu como objetivo de longo prazo. O Brasil, por sua vez, aplicou cerca de 1,15% do PIB em P&D em 2024, entrando no grupo de economias de renda média que ultrapassaram a marca de 1%, ao lado de Turquia e Tailândia.

PaísP&D (% do PIB)Ano-base
Israel6,33%2024
Coreia do Sul5,32%2024
Estados Unidos3,45%2024
Japão3,45%2024
Alemanha3,11%2024
China2,65%2024
Noruega1,85%2023
Brasil1,15%2024 (estimativa OMPI)

A leitura correta desses números não é que o dinheiro não importa. É que ele é condição necessária, mas não suficiente. A Noruega mostra que um investimento modesto, bem direcionado por instituições sólidas e infraestrutura de qualidade, rende mais posições no ranking do que um investimento maior mal governado. O Brasil, que já superou a Noruega em volume absoluto de recursos aplicados em P&D em determinados anos, prova o argumento pelo lado inverso: gastar não basta quando a arquitetura de governança que deveria transformar esse gasto em resultado permanece fragmentada.

Da lamentação à arquitetura institucional

Repetir que o Brasil precisa investir mais em ciência é necessário, mas insuficiente. O país já demonstrou, em rodadas anteriores do próprio GII, que consegue gastar recursos relevantes em P&D sem que isso se traduza em salto de posição, precisamente porque o gargalo não está apenas no orçamento, mas na governança que decide como esse orçamento é aplicado.

Três medidas concretas poderiam mudar essa trajetória nos próximos ciclos do índice. Primeiro, a execução plena e previsível dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), hoje sujeito a contingenciamentos que corroem o planejamento de longo prazo de universidades e institutos de pesquisa. Segundo, a adoção, pelas Fundações de Amparo à Pesquisa estaduais e agências de fomento regionais, de modelos de governança que condicionem o financiamento a metas de transferência tecnológica e não apenas à produção acadêmica, seguindo o exemplo de arranjos de hélice quádrupla já testados em ecossistemas europeus. Terceiro, a padronização de indicadores de desempenho para parques tecnológicos e incubadoras brasileiros, hoje heterogêneos a ponto de dificultar qualquer comparação nacional, muito menos internacional, de resultado real de inovação.

Nenhuma dessas medidas depende de descoberta científica ou de recursos extraordinários. Depende de decisão política sobre arquitetura institucional, exatamente o tipo de escolha que separou a Noruega dos seus pares nesta edição do índice.

O apito final ainda não tocou

A eliminação do Brasil na Copa do Mundo de futebol será, em algumas semanas, apenas mais um capítulo em uma história de conquistas e desilusões que o país já sabe superar. A corrida da inovação, no entanto, não tem intervalo entre edições nem revanche garantida em quatro anos. Cada ciclo do GII em que o Brasil permanece nas oitavas, tecnicamente relevante mas estruturalmente distante do pelotão de frente, é um ciclo de oportunidades econômicas que migram para quem já resolveu sua arquitetura institucional.

A Noruega mostrou, nesta edição, que chegar ao topo não exige ser o maior investidor em pesquisa do mundo. Exige, isso sim, transformar o que se investe em instituições capazes de multiplicar resultado. É esse jogo, mais silencioso e mais decisivo, que o Brasil ainda precisa aprender a vencer.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Márcio Pereira

Márcio Pereira

Administrador de Empresas, Doutor em Desenvolvimento Rural (UFRGS). | @marcio.araujo.pereira

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