Celular já faz parte da rotina de mais da metade das crianças de 10 a 13 anos; especialistas defendem equilíbrio entre uso de dispositivos, brincadeiras, atividade física e convivência
Smartphones, tablets e computadores já fazem parte da rotina de muitas crianças brasileiras. O desafio, segundo especialistas, não está apenas em controlar o tempo diante das telas, mas em observar o que o uso desses dispositivos está substituindo: brincadeiras, atividade física, convivência com outras pessoas e experiências que estimulam diferentes formas de aprendizagem.
Dados do módulo de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) da PNAD Contínua, do IBGE, mostram que 55,2% das crianças de 10 a 13 anos tinham celular próprio em 2025. O índice representou uma pequena queda em relação a 2024, quando 56,7% tinham aparelho. A redução de 1,5 ponto percentual ocorreu apenas nessa faixa etária. Entre as demais idades pesquisadas, a posse de celular aumentou.
O avanço dos dispositivos digitais ocorre ao mesmo tempo em que cresce a preocupação com o sedentarismo infantil e o excesso de peso. Levantamento nacional baseado em dados do Sistema Único de Saúde (SUS) aponta que uma em cada três crianças e adolescentes de 10 a 19 anos no Brasil está com excesso de peso.
O cenário preocupa porque hábitos formados durante a infância podem influenciar a saúde ao longo da vida. O excesso de peso está associado ao aumento do risco de problemas cardiovasculares, diabetes e acidente vascular cerebral (AVC).
Quando a tela começa a substituir o movimento
Para Claudio Henrique Pereira Verão, mestre em Ciências do Movimento e coordenador do curso de Educação Física da Estácio, o problema aparece quando o tempo dedicado aos dispositivos passa a ocupar o espaço de atividades que exigem movimento.
“Com mais tempo em telas e se movendo menos durante o dia com brincadeiras e outras atividades, as crianças tendem a gastar menos quilocalorias”, explica.
Segundo o especialista, a redução do gasto energético pode ser acompanhada por outro fator: o consumo de alimentos mais calóricos durante períodos de permanência diante das telas.
Em crianças e adolescentes, porém, o Índice de Massa Corporal (IMC) não deve ser interpretado da mesma forma que em adultos. A avaliação precisa levar em conta a idade e a fase de desenvolvimento.
Por isso, mais do que observar um número isolado na balança, a recomendação é analisar a rotina da criança e identificar se o comportamento sedentário está ocupando o espaço de atividades importantes para o desenvolvimento físico e motor.
Não é apenas uma questão de saúde física
A redução das atividades físicas pode ter consequências que vão além do controle do peso. Brincadeiras e jogos também participam do desenvolvimento de habilidades utilizadas no processo de aprendizagem.
“O movimento corporal e os jogos exigem que a criança planeje ações, siga regras, tome decisões e ajuste seus movimentos em tempo real”, afirma Claudio.
Essas experiências ajudam a exercitar funções executivas relacionadas à concentração, ao autocontrole e à capacidade de manter a atenção.
O especialista também chama a atenção para o ritmo dos conteúdos digitais. Vídeos curtos, estímulos rápidos e mudanças constantes de imagens podem tornar atividades que exigem concentração prolongada menos atraentes quando o contato com as telas é muito frequente e começa cedo.
Ler um livro, ouvir uma história, escrever ou acompanhar uma explicação exigem um tipo diferente de atenção.
Convivência também pode perder espaço
Outro ponto levantado pelos especialistas é o impacto do excesso de telas sobre a convivência.
O tempo dedicado aos dispositivos pode reduzir oportunidades de interação com familiares, professores e colegas, além de diminuir momentos de brincadeiras coletivas e atividades compartilhadas.
Mas Claudio ressalta que o problema não pode ser colocado exclusivamente sobre a criança ou a família.
“Jornadas de trabalho dos responsáveis, falta de espaços adequados para brincar e questões de segurança podem levar famílias a substituir atividades externas por opções realizadas dentro de casa”, afirma.
A rotina infantil, portanto, precisa ser analisada considerando também as condições sociais e familiares em que a criança está inserida.
Tecnologia também pode estimular a criança
Apesar dos riscos associados ao uso excessivo, especialistas afirmam que a tecnologia não precisa ser tratada como inimiga da infância.
Para Caíque Evangelista Fernandes Lopes, professor do curso de Engenharia de Software da Estácio, a questão principal é como a criança utiliza o dispositivo.
“A principal mudança é deixar de tratar a criança como consumidora de conteúdo e colocá-la como criadora, investigadora e solucionadora de problemas”, afirma.
Um celular ou computador pode ser utilizado para produzir histórias interativas, animações, músicas e jogos, além de permitir atividades de programação, pesquisa e resolução de problemas.
Nesse modelo, a criança deixa de apenas receber informações e passa a participar ativamente da experiência.
Para Caíque, uma ferramenta digital voltada à educação deve ser avaliada menos pelo tempo que consegue manter a criança conectada e mais pelo que ela permite criar, compreender e solucionar.
Celular também pode incentivar atividade física
A tecnologia pode, inclusive, ser utilizada para estimular o movimento.
Jogos que utilizam câmeras, sensores, realidade aumentada ou outros recursos podem criar desafios que exigem que a criança caminhe, dance ou explore diferentes espaços para avançar.
“A tecnologia não precisa competir com a atividade física; ela pode ser utilizada para provocá-la”, afirma Caíque.
A proposta é transformar o dispositivo em uma ferramenta para incentivar experiências que acontecem fora da tela ou que exigem participação física.
Nem todo aplicativo educativo ensina
O fato de uma plataforma ou aplicativo ser apresentado como educativo, porém, não significa necessariamente que ele contribua para a aprendizagem.
Notificações constantes, reprodução automática de vídeos e sistemas de recompensas podem estimular a permanência prolongada no dispositivo.
Para diferenciar uma ferramenta educativa de uma plataforma criada principalmente para prender a atenção, Caíque propõe uma pergunta:
“O que a criança aprende fazendo isso que ela não aprenderia simplesmente assistindo a um vídeo?”
Segundo o professor, experiências digitais de qualidade devem estimular criatividade, raciocínio lógico, comunicação e capacidade de resolver problemas. Também devem permitir que a criança faça escolhas e participe ativamente da atividade.
Como encontrar equilíbrio?
A recomendação dos especialistas não é simplesmente eliminar a tecnologia da rotina infantil. O caminho é equilibrar o uso dos dispositivos com outras experiências.
Brincadeiras que envolvam movimento podem ocupar parte do tempo que seria dedicado a atividades sedentárias. Jogos de tabuleiro, leitura, atividades artísticas e brincadeiras coletivas também podem estimular raciocínio e interação.
Quando a criança utilizar telas, a orientação é priorizar períodos mais curtos e conteúdos com uma finalidade definida, evitando que o dispositivo seja usado de forma automática durante longos períodos.
O objetivo é fazer com que a tecnologia ocupe um lugar específico na rotina, sem substituir atividades essenciais para o desenvolvimento.
Tela como ferramenta, não como substituta da infância
A presença de celulares e outros dispositivos na vida das crianças tende a fazer parte cada vez mais do cotidiano. Por isso, o debate sobre tecnologia e infância vai além da simples contagem de horas diante das telas.
A questão central é o que acontece antes, durante e depois desse uso.
Uma criança que utiliza o celular para criar uma história, programar um jogo, pesquisar um assunto ou participar de uma atividade que estimule o movimento tem uma experiência diferente daquela que passa longos períodos consumindo conteúdo de forma passiva.
O equilíbrio, segundo os especialistas, está em garantir que a tecnologia não ocupe o espaço de experiências fundamentais para o desenvolvimento.
A tela pode ensinar, estimular a criatividade e até incentivar a atividade física. Mas não deve substituir a brincadeira, a convivência, a leitura, a exploração do ambiente e o movimento do corpo.



















