Nunca foi tão fácil parecer especialista. Basta abrir qualquer rede social para encontrar pessoas ensinando negócios, liderança, investimentos, saúde, Direito, marketing, comportamento e praticamente qualquer outro assunto.
Temos acesso a livros, aulas, pesquisas, podcasts, cursos e especialistas do mundo inteiro a poucos cliques de distância e, com a inteligência artificial, ficou ainda mais simples organizar uma ideia e transformá-la em conteúdo.
Essa democratização da informação trouxe muita coisa boa, o conhecimento circula mais rápido, chega a mais pessoas e deixou de pertencer a poucos ambientes. Ao mesmo tempo, isso também criou um problema: se todo mundo tem acesso às mesmas informações, o que diferencia quem realmente constrói autoridade?
Tenho pensado bastante sobre isso e, para mim, parte da resposta está no repertório. E não estou falando de acumular referências para parecer mais inteligente. Repertório está na capacidade de relacionar conhecimentos, experiências e contextos diferentes para enxergar um assunto por outro ângulo. É o que permite que duas pessoas tenham acesso à mesma informação e cheguem a conclusões completamente diferentes.
Conhecimento acumulado ocupa espaço, mas o conhecimento relacionado a outros contextos, muda completamente a forma como pensamos e, consequentemente, como nos posicionamentos e fazemos negócios.
Minha profissão nunca foi minha única fonte de conhecimento. Boa parte da maneira como penso posicionamento foi construída antes mesmo de eu estudar branding e marketing.
Minha formação em História me ensinou a observar comportamento humano, poder, símbolos, cultura, movimentos sociais e construção de legitimidade. Depois veio o Direito, que acrescentou outra camada ao meu raciocínio, em especial, de argumentação, tese, prova, risco, lógica e mais tarde vieram os negócios, a liderança de uma empresa, os clientes, as decisões difíceis, os erros, os acertos e a experiência prática de construir marcas.
Hoje todas essas coisas se misturam o tempo inteiro na minha cabeça. Quando observo uma marca de luxo, por exemplo, não consigo enxergar apenas uma estratégia comercial, existe ali uma discussão histórica sobre distinção, pertencimento e símbolos de status.
Quando penso em liderança, também não consigo reduzir o assunto a uma lista de técnicas de gestão, existem relações de poder, cultura, confiança, comportamento e legitimidade envolvidas.
É essa mistura que me interessa e torna o meu olhar diferente dos demais profissionais do meu mercado, por isso acredito que os profissionais deveriam estudar temas que aparentemente não têm relação direta com aquilo que fazem.
Um empresário pode aprender muito sobre liderança estudando História, um advogado pode melhorar sua capacidade de comunicação estudando narrativa, um médico pode compreender melhor a experiência de seus pacientes estudando comportamento, quem trabalha com marketing deveria conhecer arte, cultura, economia, moda, política e movimentos sociais.
Se todos consomem as mesmas referências, começam a pensar parecido e não ativam diferencial de marca, não se tornam relevantes e acabam vivendo a comparação de mercado com os demais profissionais.
Existe um movimento que observo com frequência no mercado, as pessoas entram em uma área, começam a acompanhar os mesmos profissionais, leem os mesmos livros, frequentam os mesmos eventos e passam a consumir praticamente as mesmas referências.
Pouco tempo depois, estão utilizando as mesmas palavras, defendendo ideias muito parecidas e produzindo conteúdos que poderiam ter sido publicados por qualquer outra pessoa daquele mercado.
A dificuldade de diferenciação começa muito antes da comunicação, começa no repertório, afinal, é difícil desenvolver uma visão própria quando todas as suas referências vêm do mesmo lugar.
Por isso, gosto cada vez mais de buscar conhecimento fora da minha área. Muitas das melhores ideias que já apliquei em negócios não vieram de livros de negócios; vieram da História, da Filosofia, do Direito, de conversas, da Bíblia, de biografias, de experiências pessoais, de observar outras empresas e, principalmente, de prestar atenção nas pessoas.
Repertório é aquilo que você vive e uma boa estratégia de autoridade é continuar vivendo experiências relacionadas a tudo que estiver fora do seu próprio nicho, seja através de leituras, conversas, contemplação ou apenas curiosidade.
Em um mundo de iguais, é o repertório que te fará diferente. Pense nisso e ative o seu capital de liderança.














