Nova unidade entrou em operação mesmo após moradores, comerciantes e comunidade escolar questionarem localização e cobrarem mudanças em audiência na Câmara de Campo Grande
O novo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) de Campo Grande começou a funcionar no bairro Amambaí na última semana, apesar das manifestações de moradores, comerciantes e representantes da comunidade escolar contra a instalação da unidade no endereço escolhido pela Prefeitura.
A localização havia sido alvo de uma audiência pública na Câmara Municipal, realizada em agosto, após moradores questionarem a proximidade do equipamento com escolas e relatarem preocupações relacionadas à segurança e à rotina do bairro. Na ocasião, representantes da comunidade afirmaram que não eram contrários ao atendimento à população em situação de rua, mas defendiam que o Centro POP fosse instalado em outro local.
Mesmo após as reivindicações, a unidade entrou em funcionamento e passou a concentrar serviços destinados à população em situação de rua. A nova estrutura substitui a unidade que funcionava na Rua Joel Dibo, também no Amambaí.
Moradores pediram mudança de endereço
A escolha do novo endereço foi contestada durante a audiência pública realizada em 21 de agosto. A presidente do bairro Amambaí, Rosane Neli, afirmou que a comunidade não era contrária às políticas de assistência social, mas questionava a instalação do equipamento nas proximidades de uma escola.
Segundo ela, moradores já enfrentavam problemas relacionados à presença de pessoas em situação de rua e temiam que a nova unidade aumentasse as dificuldades no entorno.
Rosane também afirmou que os moradores não haviam sido consultados antes da definição do endereço e disse que a comunidade buscava alternativas para tentar reverter a decisão. Entre as iniciativas citadas estavam um abaixo-assinado e a possibilidade de uma ação judicial.
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Comunidade escolar também manifestou preocupação
A proximidade com escolas foi uma das principais preocupações apresentadas durante a audiência. A presidente da Associação de Pais e Mestres da Escola José Benfica, Marinete Fernanda da Silva, afirmou que a instituição atende 403 alunos e que o receio estava relacionado à localização do Centro POP, e não à existência de políticas públicas para pessoas em situação de rua.
Marinete também relatou que parte dos estudantes vai e volta da escola sem acompanhamento dos pais, que precisam trabalhar, e afirmou que a comunidade escolar não havia recebido informações sobre estudos de impacto ou medidas de segurança para o entorno.
Durante a audiência, ela também questionou a frequência do policiamento na região.
Centro POP começa a operar com nova estrutura
Com a abertura da unidade, o atendimento passou a contar com uma estrutura ampliada. O espaço possui 26 gabinetes individuais, banheiros acessíveis, chuveiros, lavanderia, bagageiro e um canil para animais de estimação dos usuários.
Também foram instaladas salas para oficinas e atendimentos, cozinha, refeitório, biblioteca, espaço para exibição de filmes, jogos recreativos e uma área externa de convivência com redário.
O imóvel já abrigava havia mais de um ano o Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas). Com a ativação do Centro POP, os serviços destinados à população em situação de rua passaram a ser concentrados no mesmo espaço.
A unidade oferece acolhida, escuta qualificada, elaboração de Plano Individual de Atendimento, orientações jurídicas e acompanhamento psicossocial. Os usuários também podem ser encaminhados para serviços de saúde, habitação, emprego, renda e assistência social.
Serviços de outras áreas também estarão no local
A nova estrutura prevê a presença de serviços de diferentes áreas. Um entrevistador social do Cadastro Único ficará de forma permanente na unidade para facilitar o cadastramento e a atualização dos dados dos usuários, procedimento que pode permitir o acesso a programas de transferência de renda.
Serviços da Fundação Social do Trabalho (Funsat), da Agência Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários (Emha) e da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), incluindo o Consultório de Rua, também terão presença ampliada no espaço.
O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h30, com café da manhã, almoço e café da tarde. Aos sábados, o funcionamento é das 7h às 13h, com café da manhã e almoço.
A expectativa informada para a unidade é de 180 a 200 atendimentos registrados por dia.
Espaço de troca por pontos é novidade
Entre as iniciativas implantadas no novo Centro POP está o chamado “Espaço das Conquistas”. No local, os usuários podem trocar pontos acumulados durante a participação em atividades por souvenirs.
A pontuação é obtida em atividades como atendimentos técnicos, oficinas e grupos de trabalho temático. Durante a discussão sobre a nova unidade, a proposta foi apresentada como uma estratégia de incentivo à participação.
O mecanismo, segundo a equipe responsável, não é uma condição para que os usuários tenham acesso aos serviços.
População em situação de rua
A primeira contagem da população em situação de rua realizada em Campo Grande identificou 1.476 pessoas. O levantamento, feito em setembro de 2025, apontou que 566, ou 40% dos registros territorializados, estavam na região central.
A pesquisa também identificou pessoas em situação de rua nas sete regiões urbanas da cidade.
Durante a audiência pública, o gerente de Proteção Social para a População em Situação de Rua, Thiago Ribeiro, defendeu a instalação do equipamento no bairro e afirmou que a localização deveria considerar a região onde existe demanda pelos serviços.
Segurança permanece entre as preocupações
Apesar do início das atividades, as questões levantadas pelos moradores durante a audiência permanecem relacionadas principalmente à segurança e à proximidade das escolas.
O novo Centro POP conta com duas salas destinadas à Guarda Civil Metropolitana (GCM), que mantém plantão permanente de 24 horas no local. A segurança no entorno também foi uma das reivindicações apresentadas pela comunidade durante o debate na Câmara.
A abertura da unidade ocorre, portanto, após semanas de mobilização da comunidade do Amambaí e sem que a reivindicação pela mudança do endereço tenha resultado, até o momento, na alteração do local. O Centro POP já está em funcionamento e recebe usuários de segunda a sábado.


















