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Relatório parcial entregue à Prefeitura e à Câmara aponta falta de recursos para salários, dívidas milionárias, falhas de manutenção e problemas nos controles internos

A intervenção no Consórcio Guaicurus encontrou as empresas com apenas R$ 415,2 mil em caixa, enquanto o adiantamento salarial de motoristas e demais funcionários ultrapassava R$ 1,03 milhão. O diagnóstico, apresentado após 90 dias de intervenção, também aponta dívidas milionárias, frota envelhecida e falhas nos controles de manutenção, estoque e gestão.

O relatório parcial foi entregue nesta terça-feira (22) pelo interventor jurídico do Consórcio Guaicurus, Alexandre Souza Moreira, ao vereador Dr. Lívio, presidente da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana da Câmara Municipal de Campo Grande.

O documento reúne os levantamentos feitos pela equipe desde o início da intervenção, decretada pela Prefeitura em 16 de junho. A medida tem prazo de até 180 dias e foi adotada após um histórico de mais de 21 mil autuações aplicadas pela Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran) entre 2021 e 2025.

Caixa não cobria salários

Segundo o relatório, a situação financeira encontrada no primeiro dia da intervenção era considerada crítica. Além de não ter recursos suficientes para o pagamento dos salários, o consórcio estava com 99% das linhas de conta garantida utilizadas.

Também havia R$ 5,86 milhões em títulos vencidos com fornecedores de combustível, enquanto o estoque de diesel estava em nível considerado crítico.

Na área tributária, foram identificados R$ 4,86 milhões em recolhimentos de INSS e IRRF vencidos e não parcelados. Os passivos federais consolidados ultrapassavam R$ 31 milhões.

Diante desse quadro, a equipe de intervenção avaliou que havia risco concreto de uma nova paralisação total do transporte coletivo.

Ônibus têm idade média de 10,4 anos

A situação encontrada na operação também chamou atenção. A idade média da frota chegou a 10,4 anos, mais que o dobro do limite de cinco anos previsto no contrato.

Dos 460 ônibus do sistema, 210 foram fabricados até 2015.

O relatório também mostra uma redução da atividade do transporte coletivo entre 2023 e 2025. O número de viagens caiu cerca de 14% e a quilometragem percorrida recuou 15,2%. No mesmo período, o número de passageiros pagantes diminuiu 12,3%, apesar de não ter ocorrido redução na quantidade total de veículos.

Outro ponto levantado pela intervenção foi a situação dos seguros obrigatórios da frota. Segundo o documento, eles estavam inadimplidos desde 2016.

A equipe também identificou que nenhum dos 11 indicadores de desempenho previstos no contrato era efetivamente calculado pelas empresas.

Problemas vão além da tarifa

O relatório também questiona a ideia de que a crise financeira do consórcio seja explicada apenas pela tarifa ou pela insuficiência de subsídios públicos.

A equipe reconhece a existência de déficit operacional, mas afirma que parte das despesas apresentadas pelas empresas está relacionada a decisões consideradas ineficientes na gestão. Segundo o documento, esses custos não devem ser automaticamente repassados aos passageiros ou ao Tesouro Municipal.

Um dos problemas apontados foi a predominância da manutenção corretiva. Sem programas preventivos, os ônibus estariam sujeitos a quebras recorrentes durante a operação, aumentando a necessidade de compras emergenciais.

Também foi identificado o uso limitado do sistema ERP Globus, empregado em menos de 40% de sua capacidade. Na prática, controles paralelos em planilhas continuavam sendo utilizados.

No almoxarifado, a equipe encontrou discrepâncias de estoque, requisições feitas manualmente em papel e desativação do módulo de controle de garantias de peças.

O relatório ainda cita transações entre empresas relacionadas, despesas ligadas a imóveis de partes relacionadas e encargos moratórios decorrentes de problemas na gestão tributária.

Intervenção centralizou compras e controle da operação

Durante os primeiros 90 dias, a equipe adotou medidas para tentar manter o sistema funcionando e reduzir os problemas encontrados.

As compras foram centralizadas sob a chefia do interventor operacional. A mudança permitiu negociar com fornecedores bloqueados e priorizar despesas consideradas essenciais, como combustível e peças para os ônibus.

O controle dos dados operacionais também passou para a gestão da intervenção, incluindo informações sobre viagens realizadas e consumo de diesel.

Já os setores de manutenção e almoxarifado passaram a responder diretamente aos gerentes locais, em uma tentativa de aproximar o controle da operação da disponibilidade dos veículos.

Auditoria vai definir próximos passos

A equipe de intervenção ainda não pode determinar se existe ou não desequilíbrio econômico-financeiro no contrato de concessão. Essa análise deverá avançar com uma auditoria externa, que vai aprofundar os dados financeiros e operacionais.

Depois dessa etapa, os interventores deverão elaborar o relatório final. O documento será usado pela Prefeitura para definir os rumos da concessão.

O relatório parcial afirma que, após o encerramento da intervenção, o Consórcio Guaicurus deverá passar por uma reestruturação de seus mecanismos de governança e controle interno.

Entre as medidas apontadas estão o controle rigoroso do fluxo de caixa, com prioridade para salários, combustível e peças críticas; a adoção de manutenção preventiva; a renovação planejada da frota; e o uso integral das ferramentas de gestão.

O relatório também prevê uma revisão contratual na Agência Municipal de Regulação de Serviços Públicos (Agereg), com o objetivo de definir o equilíbrio econômico-financeiro a partir de custos considerados eficientes e separar a tarifa de eventuais ineficiências administrativas.

Relembre a intervenção

A Prefeitura de Campo Grande decretou a intervenção no Consórcio Guaicurus em 16 de junho, com prazo de até 180 dias. A medida suspendeu os poderes de gestão dos atuais administradores do consórcio, que continuam com direito à defesa e ao acompanhamento do processo administrativo, conforme a legislação federal.

O advogado Alexandro Adriano Lisandro de Oliveira foi nomeado interventor-geral. Ele é auxiliado por profissionais das áreas administrativa-financeira, jurídica e operacional.

Interventor Administrativo-Financeiro: Rodolfo Bahiense Fernandes
Interventor Jurídico: Alexandre Souza Moreira
Interventor Operacional: Robson Tadeu Pereira

O Consórcio Guaicurus é formado pelas empresas Viação Cidade Morena Ltda., Viação São Francisco Ltda., Jaguar Transportes Urbanos Ltda. e Viação Campo Grande Ltda.

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