Prestação de contas mostra 2,1 milhões de ações na atenção primária e investimento de 24,6%, mas vereadores cobram soluções para medicamentos, cirurgias, transporte e Santa Casa
A rede municipal de saúde de Campo Grande ampliou a quantidade de procedimentos no segundo quadrimestre de 2026, mas os números apresentados pela Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) nesta segunda-feira (28) também deixaram à mostra problemas que continuam afetando quem depende do SUS. A prestação de contas realizada na Câmara Municipal foi marcada por cobranças sobre falta de medicamentos, demora para cirurgias eletivas, transporte de pacientes, manutenção de equipamentos, limpeza das unidades e a situação financeira da Santa Casa.
O secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, apresentou os dados referentes ao período de maio a agosto e afirmou que a assistência avançou apesar das dificuldades enfrentadas pela rede. O município informou ter aplicado 24,6% da receita de impostos e transferências em Ações e Serviços Públicos de Saúde (ASPS), percentual 9,6 pontos acima do mínimo constitucional de 15%.
O valor liquidado em ASPS chegou a R$ 414 milhões. Considerando as despesas totais da saúde, que incluem ASPS e recursos do SUS, os valores liquidados passaram de R$ 562 milhões para R$ 849,7 milhões entre o segundo e o terceiro bimestres. Os pagamentos, no mesmo intervalo, subiram de R$ 505 milhões para R$ 788,8 milhões.
Os números financeiros, porém, não encerram a discussão sobre a qualidade e a regularidade do atendimento. Durante a audiência, vereadores e representantes do controle social apontaram problemas que continuam aparecendo na rotina das unidades.
Mais produção, mas problemas continuam na ponta
Na atenção primária, a Sesau registrou 2.170.701 ações entre maio e agosto, alta de 4,8% em relação ao mesmo período de 2025. O resultado inclui 982.741 visitas domiciliares feitas por agentes comunitários de saúde, 694.808 procedimentos, 438.884 atendimentos individuais e 54.268 atendimentos odontológicos.
A atenção especializada da rede própria também apresentou aumento. Foram 100.859 procedimentos ambulatoriais no segundo quadrimestre, contra 66.823 no primeiro. A média mensal passou de 22.274 para 33.620 procedimentos.
O crescimento informado pela secretaria foi de 50,9%, mas o próprio relatório faz uma ressalva: parte da diferença está relacionada à migração dos registros de procedimentos para o sistema e-SUS. Ou seja, o salto não pode ser interpretado integralmente como aumento real da capacidade de atendimento.
Na saúde mental, a média mensal de atendimentos e acompanhamentos psicossociais passou de 14.106 para 14.866, crescimento de 5,4% em relação ao primeiro quadrimestre. A rede própria inclui Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), residências terapêuticas e ambulatório de saúde mental.
Medicamentos seguem como ponto de pressão
Um dos temas mais sensíveis da audiência foi o abastecimento de medicamentos. Segundo os dados apresentados, a disponibilidade na Central de Abastecimento passou de 65% para 76%, chegando perto de 80%.
Apesar da melhora, o índice significa que uma parcela dos medicamentos ainda não estava disponível regularmente. O vereador Dr. Lívio (União Brasil) destacou que a questão precisa continuar sob fiscalização, já que a falta de remédios afeta diretamente pacientes que dependem do SUS.
Vilela afirmou que parte do problema está relacionada a fornecedores que não estariam cumprindo os prazos de entrega. Segundo o secretário, em alguns casos foi necessário recorrer à Justiça para tentar regularizar o fornecimento.
A explicação, contudo, não elimina o impacto para o usuário que chega à unidade com uma receita e não encontra o medicamento necessário.
Santa Casa entra no centro da discussão
A situação da Santa Casa de Campo Grande também ocupou parte importante da audiência. O hospital atravessa uma crise após a prisão da então presidente e investigações envolvendo suspeitas de irregularidades na gestão de recursos e contratos.
Vilela informou que ainda participaria da primeira reunião de alinhamento com a equipe de intervenção do hospital. Também foi mencionado um repasse de aproximadamente R$ 4 milhões, com recursos da Prefeitura de Campo Grande e do governo estadual, para a compra de insumos.
O hospital também aparece diretamente na discussão sobre as cirurgias eletivas. Segundo o secretário, a suspensão de procedimentos urológicos pela Santa Casa contribuiu para aumentar a pressão sobre a fila.
O vereador Jean Ferreira (PT) afirmou que entregou ao superintendente do Ministério da Saúde um pedido de auditoria nos recursos destinados à Santa Casa, diante dos fatos investigados.
Cirurgias ainda dependem de respostas
A realização de cirurgias eletivas foi outro ponto de cobrança. O vereador Dr. Lívio questionou o cronograma dos procedimentos e citou o número de judicializações relacionadas ao acesso à assistência.
Vilela afirmou que existe uma rede contratualizada e mencionou o programa Vira CG como uma das estratégias para reduzir a fila. O secretário também informou que deverá encaminhar à Câmara um balanço dos procedimentos realizados e dos recursos aplicados.
O dado é relevante porque o aumento da produção geral da rede não necessariamente significa que a demanda reprimida tenha sido solucionada. A existência de filas e judicializações mostra que o acesso continua sendo um dos principais gargalos do sistema.
Falta de ambulância vira outro gargalo
Outro problema apontado durante a audiência foi a dificuldade para transportar pacientes das unidades de pronto atendimento até hospitais.
O vereador Veterinário Francisco (União Brasil) relatou que, mesmo quando surgem vagas, a transferência pode ser prejudicada pela falta de ambulância.
“Não temos ambulância para levar pacientes das unidades até os hospitais”, afirmou.
Segundo Vilela, a prefeitura está preparando a contratação de um serviço específico de transporte das UPAs para os hospitais.
“Estamos correndo para fazer contratação disso. Não tinha esse serviço”, disse o secretário.
A declaração expõe um problema básico de integração da rede: conseguir uma vaga hospitalar não encerra o percurso do paciente quando não há estrutura suficiente para efetivar a transferência.
Equipamentos e limpeza também entram na mira
A manutenção dos equipamentos utilizados nas unidades de saúde foi outro ponto levantado. A prefeitura pretende incorporar à rede um serviço de engenharia clínica para cuidar do parque tecnológico e organizar um cronograma de manutenção.
A medida foi discutida após questionamentos sobre equipamentos como compressores odontológicos, indispensáveis para o funcionamento dos consultórios.
A limpeza das unidades também foi alvo de críticas. Jader Vasconcelos, presidente do Conselho Municipal de Saúde, afirmou que o serviço prestado pela empresa Produserv continua sendo motivo de reclamações.
“A empresa continua e o serviço de péssima qualidade. Agora não estão entregando material mesmo, quando anda pelas unidades percebe que a reclamação é geral”, afirmou.
Segundo ele, o número mínimo de profissionais previsto no contrato também estaria sendo descumprido.
Vilela atribuiu a permanência do problema a uma disputa judicial. Conforme o secretário, a empresa entrou com mandado de segurança para suspender uma nova licitação, o que teria deixado a prefeitura, nas palavras dele, “refém” da situação administrativa.
Auditoria aponta gasto de R$ 345 mil com veículos
A frota do município também foi questionada durante a audiência. O vereador Maicon Nogueira (PP) citou um relatório do Denasus e perguntou sobre a utilização de R$ 345 mil em veículos que, segundo o questionamento, não pertenciam à frota do Samu.
O secretário afirmou que uma auditoria interna identificou a necessidade de devolução de recursos e que a administração está cobrando medidas para corrigir problemas relacionados à frota.
“Em relação à frota melhorou 90%, temos tudo rodando. São problemas administrativos, vamos corrigindo com diagnósticos de gestão”, afirmou.
A própria necessidade de auditoria e devolução de recursos, porém, mostra que a discussão não se limita à quantidade de veículos em funcionamento, mas também envolve controle e gestão dos recursos públicos.
Rede tem 214 estabelecimentos e 7.888 servidores
Segundo os dados apresentados, a rede municipal vinculada ao SUS possui 214 estabelecimentos e 7.888 servidores, entre efetivos, temporários e convocados.
A Sesau também informou a execução de R$ 6 milhões em emendas parlamentares destinadas à saúde até o segundo quadrimestre. Os recursos já pagos foram utilizados, entre outras finalidades, em procedimentos cirúrgicos ortopédicos e urológicos.
O desafio colocado pela prestação de contas é transformar números de produção e execução financeira em atendimento efetivo e regular para quem está na ponta.
A prestação de contas ocorre a cada quatro meses e tem como objetivo apresentar ao Legislativo os dados da execução das ações e dos recursos destinados à saúde.
Foto: Prefeitura de Campo Grande

















