Carregando…
márcio pereira - atualizado certo

COMPARTILHE

Há uma percepção equivocada, ainda bastante difundida no Brasil, de que a pauta climática é assunto restrito a cientistas e ativistas, algo situado entre o laboratório e a manifestação de rua. Essa leitura, além de anacrônica, é estrategicamente perigosa para um país que possui dois dos maiores ativos ambientais do planeta: a Amazônia e o Pantanal. A realidade, observada a partir dos grandes centros de produção de conhecimento e de decisão econômica global, é radicalmente diferente. O clima tornou-se a variável central de competitividade nacional, de arquitetura financeira, de política industrial e de segurança alimentar. Ignorar essa dimensão não é uma postura de neutralidade, mas sim uma escolha deliberada pelo atraso, um luxo que o ensino superior e as lideranças não podem mais sustentar.

Enquanto o Fórum Econômico Mundial, em Davos, cumpre há décadas o papel de espaço onde a agenda econômica global é negociada e legitimada, é em Londres que o planeta está sendo redesenhado. A London Climate Action Week, um dos maiores eventos climáticos independentes do mundo, atrai anualmente mais de 75.000 pessoas e abriga mais de 750 eventos, consolidando-se como o epicentro onde a inovação sistêmica encontra os extremos climáticos. Longe de ser um mero encontro de sensibilização, é o espaço onde governos apresentam suas estratégias de transição energética, onde corporações multinacionais discutem suas cadeias de fornecimento à luz do risco climático, e onde acadêmicos e investidores calibram o que é tecnologicamente possível e financeiramente viável.

O impacto da London Climate Action Week transcende o debate teórico. Como evidenciado nas edições recentes, o evento estabelece diretrizes cruciais para a economia global, destacando que o financiamento climático precisa fluir com urgência para as economias emergentes [2]. A narrativa sobre a ação climática está mudando: o que antes era visto como custo, agora é reconhecido como uma oportunidade ímpar para alavancar tecnologias como inteligência artificial e armazenamento de energia em baterias, elementos centrais para a entrega de energia limpa e inclusiva [2]. Essa transformação exige que o ensino superior brasileiro abandone a inércia e passe a formar profissionais capazes de atuar nessa nova fronteira, onde a colaboração intersetorial é o único multiplicador real de resultados.

A inovação climática consolidou-se como o novo campo de disputa geopolítica. Os dados do Global Innovation Index revelam uma tendência inequívoca: os países que lideram o ranking de inovação são os mesmos que mais investem em tecnologias de baixo carbono, adaptação climática e economia circular. Não é coincidência, é causalidade. A União Europeia, com seu Green Deal Industrial Plan, alocou mais de 270 bilhões de euros para transformar a base produtiva do continente até 2030. Os Estados Unidos, via Inflation Reduction Act, mobilizaram cerca de 369 bilhões de dólares em incentivos para energia limpa e manufatura verde. Ainda que a administração Trump tenha congelado os repasses, a ferramenta permanece importante na arquitetura energética. A China, com sua política industrial de longo prazo, já responde por mais de 50% da capacidade global instalada de energia solar e lidera a corrida por veículos elétricos. Esses não são gestos simbólicos de compromisso ambiental, mas estratégias nacionais de reindustrialização, geração de empregos de alta qualificação e captura de mercados do futuro. O clima, aqui, é o pretexto e a oportunidade simultaneamente.

O Brasil possui uma posição singular nesse tabuleiro global. Tem a maior biodiversidade terrestre do planeta, uma das maiores reservas de água doce, uma matriz energética predominantemente renovável e um setor agropecuário que, quando bem orientado, pode ser protagonista da bioeconomia. Mas possuir ativos não equivale a utilizá-los estrategicamente. Mato Grosso do Sul concentra, em seu território, alguns dos elementos mais relevantes desse cenário: o Pantanal, com sua enorme capacidade de prestação de serviços ecossistêmicos ainda subexplorada em bases científicas e econômicas; as cadeias de proteína animal com potencial de rastreabilidade e certificação de baixo carbono; o corredor bioceânico, que pode reposicionar o estado como nó logístico sul-americano em uma economia de baixo carbono; e o polo de celulose emergente, que coloca o estado no mapa das bioindústrias de escala global.

Traduzir esses ativos em estratégias de inovação climática competitivas requer, no entanto, algo que ainda falta em abundância: conexão profunda entre a produção científica das universidades, a capacidade de investimento do setor privado e a visão de longo prazo das políticas públicas estaduais. É imperativo que os gestores educacionais compreendam que a universidade não pode ser um mero espectador das mudanças climáticas. Ela deve ser o motor da inovação, o laboratório onde as soluções para o Pantanal e para a bioeconomia global são testadas e validadas.

Iniciativas como o INCT PantaClima, instituto de pesquisa coordenado pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) com sede em Aquidauana, credenciado pelo CNPq em 2025 e apoiado pela Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de MS (Fundect), exemplificam como investimentos estratégicos em pesquisa podem gerar conhecimento robusto sobre os impactos das alterações climáticas no Pantanal e desenvolver soluções sustentáveis para a conservação do bioma. Esses projetos não são exceções; devem ser a regra, o padrão esperado de uma instituição que se propõe a estar à altura dos desafios do seu tempo.

A participação em fóruns como a London Climate Action Week e seu palco principal, o Climate Innovation Forum, não é turismo acadêmico. É o trabalho fundamental de quem entende que a periferia do sistema global não está condenada a apenas sofrer as consequências das decisões tomadas nos grandes centros. Com conhecimento, articulação e propostas robustas, é possível participar ativamente da formulação dessas decisões. O evento em Londres pauta as tendências em financiamento climático, as estratégias de adaptação em biomas sensíveis e os modelos de governança de parques tecnológicos voltados à bioeconomia. Tudo isso tem implicação direta e imediata para as decisões que estados como Mato Grosso do Sul precisarão tomar.

Mato Grosso do Sul tem algo raro: ativos climáticos genuínos em um mundo que está disposto a pagar por eles. O que nos falta é a sofisticação institucional e ousadia inovadora para converter essa riqueza em desenvolvimento sustentável. A pauta climática não é o futuro distante. Ela é o presente urgente que o Brasil, e em especial suas instituições de ensino superior, ainda insistem em tratar como se fosse opcional. A omissão agora custará o protagonismo nas próximas décadas.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Márcio Pereira

Márcio Pereira

Administrador de Empresas, Doutor em Desenvolvimento Rural (UFRGS). | @marcio.araujo.pereira

Total News MS

AD BLOCKER DETECTED

Indicamos desabilitar qualquer tipo de AdBlocker

Please disable it to continue reading Total News MS.