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Arthur Maximilliano

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Toda empresa quer crescer. Mais clientes, mais faturamento, mais equipe, mais estrutura. É natural que, diante desse desejo, o empresário concentre sua energia em colocar cada vez mais água dentro do balde: investir em marketing, contratar vendedores, comprar tecnologia e ampliar a operação.

O problema é que, em muitas empresas, esse balde está cheio de pequenas goteiras.

Enquanto novas vendas entram, clientes antigos saem. Enquanto o faturamento cresce, a margem diminui. A equipe aumenta, mas o retrabalho também. Oportunidades comerciais chegam, porém várias se perdem por falta de acompanhamento. A empresa movimenta cada vez mais água sem perceber quanto dela está escapando.

Talvez essa seja uma das imagens mais simples para entender gestão: antes de colocar mais água no balde, é preciso descobrir onde estão os furos.

Essas perdas raramente aparecem como grandes acontecimentos. Normalmente são pequenas: uma compra mal planejada, um desconto desnecessário, uma tarefa refeita, um cliente sem retorno ou uma reunião que termina sem decisão. Separadamente parecem irrelevantes. Repetidas todos os dias, consomem dinheiro, tempo e capacidade operacional.

Essa lógica se aproxima do pensamento Lean e do Sistema Toyota de Produção, que colocam a eliminação de desperdícios no centro da melhoria. Esperas, retrabalhos, estoques excessivos, falhas e processos mal desenhados são, na prática, pequenas goteiras espalhadas pela organização.

E quanto mais a empresa cresce, maior pode ser o impacto desses vazamentos. Um processo ruim pode parecer administrável com dez clientes. Com mil, o mesmo problema assume outra dimensão. Crescer não corrige automaticamente a desorganização. Muitas vezes, apenas aumenta sua escala.

Quando essas goteiras passam tempo demais sem atenção, aparece outro elemento conhecido dentro das empresas: o incêndio.

Um cliente importante ameaça cancelar. O caixa aperta. Um funcionário estratégico pede demissão. Uma entrega atrasa. Uma negociação relevante é esquecida. Nesse momento, toda a organização se movimenta para apagar o fogo.

Crises precisam ser resolvidas, mas existe uma diferença entre resolver uma crise e gerir bem uma empresa.

Pesquisadores ligados ao MIT estudaram esse comportamento por meio do conceito de “firefighting trap”, ou armadilha do combate a incêndios. A empresa enfrenta urgências, os gestores gastam energia resolvendo problemas imediatos e, justamente por estarem ocupados, não conseguem atuar sobre as causas estruturais. Sem melhoria, novos problemas aparecem e novas urgências surgem.

A empresa fica permanentemente ocupada, mas pouco evolui.

Existe ainda um paradoxo: quem resolve uma grande crise costuma receber reconhecimento, porque todos enxergam o incêndio. Já quem cria um processo capaz de evitar dezenas de crises quase não aparece, porque aquilo que foi evitado é invisível.

Por isso, uma empresa madura não deveria valorizar apenas bons “bombeiros”. Deveria valorizar quem reduz a quantidade de incêndios.

Essa reflexão também muda a forma de pensar crescimento. Quando o resultado não aparece, a reação costuma ser buscar mais: mais vendedores, mais campanhas, mais leads, mais contratações e mais investimento.

Mas talvez exista uma pergunta anterior:

quanto daquilo que já conquistamos estamos perdendo?

Uma empresa pode gerar muitas oportunidades comerciais e perder boa parte delas por falta de follow-up. Nesse caso, talvez o problema não seja marketing, mas processo comercial.

Pode conquistar clientes novos e continuar perdendo os antigos. Talvez a dificuldade esteja na retenção.

Pode crescer em faturamento enquanto a margem diminui. Talvez seja necessário olhar para preço, desconto, custo ou produtividade.

Colocar mais água em um balde furado aumenta o movimento. Não necessariamente aumenta o resultado.

Outra referência importante é a Teoria das Restrições, de Eliyahu Goldratt. Uma de suas ideias centrais é que o desempenho de um sistema tende a ser limitado por uma restrição principal. Isso significa que nem todos os problemas possuem o mesmo peso.

Uma empresa pode ter dezenas de goteiras, mas algumas delas drenam muito mais resultado do que as outras. Pode ser um processo comercial fraco, um estoque mal dimensionado, excesso de retrabalho ou uma liderança centralizadora.

O papel da gestão é identificar o maior vazamento e concentrar energia nele.

Isso também exige parar de tratar tudo como prioridade. Quando surgem vinte problemas e a empresa cria vinte planos de ação, sua energia acaba espalhada demais. Gestão também é decidir aquilo que não será prioridade agora.

Existe, claro, um momento em que o balde realmente precisa ser maior. Toda empresa possui limites de capacidade. Em algum ponto, crescer exige mais pessoas, tecnologia, estrutura ou equipamentos.

A questão é descobrir se a empresa realmente chegou a esse limite ou se está apenas utilizando mal a capacidade que já possui.

Uma equipe pode parecer sobrecarregada quando parte da sobrecarga vem do retrabalho. A empresa pode comprar um sistema novo quando o problema real é a ausência de processo. Pode contratar mais pessoas quando o maior gargalo está na falta de organização.

Antes de aumentar o tamanho do balde, vale verificar se o atual está funcionando bem.

Talvez a relação mais importante dessa metáfora seja esta: muitos incêndios começaram como pequenas goteiras ignoradas.

Um indicador começou a cair. A margem diminuiu pouco a pouco. Um cliente passou a reclamar. Um funcionário começou a demonstrar desengajamento. O estoque foi crescendo.

Os sinais estavam ali.

É justamente por isso que processos, indicadores, reuniões de acompanhamento e lideranças preparadas importam. Eles ajudam a perceber a goteira antes que ela se transforme em incêndio.

A tecnologia e a inteligência artificial podem ampliar essa capacidade, cruzando informações, identificando padrões e gerando alertas. Mas nenhuma tecnologia substitui a decisão de agir.

Um painel pode mostrar exatamente onde está o vazamento.

Alguém ainda precisa fechá-lo.

No fim, talvez a melhor pergunta para o empresário não seja apenas “como colocar mais água no balde?”, mas também “quanto estamos perdendo daquilo que já colocamos?”.

Empresas maduras não são aquelas que nunca enfrentam problemas. São aquelas que aprendem com eles, transformam erros em processos e percebem pequenos sinais antes que se tornem grandes emergências.

Talvez sua empresa realmente precise de um balde maior.

Mas, antes disso, vale olhar para as goteiras.

Porque crescer não é apenas colocar mais dentro da empresa.

É também aprender a perder menos daquilo que ela já conquistou.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Arthur Maximilliano

Arthur Maximilliano

Sócio fundador e Diretor de Estratégia (CSO) da RetenMax, empresa de consultoria empresarial com foco em gestão, cultura e tecnologia. Engenheiro de Produção formado pela UFMS, possui especializações em Gestão, Liderança e Inovação, além de formação em Marketing Digital e Business Intelligence e tem MBA em Inteligência Artificial e Big Data pelo IBMEC. Atua também como professor universitário, palestrante e é autor do livro Sussurros Empresariais, escrevendo sobre liderança, integridade, inovação e o futuro das organizações. | @arthurmaxnl

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