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Livros, cadernos, vinis e câmeras de filme voltam à rotina de jovens e adultos em um movimento marcado por curiosidade, estética e redescoberta de experiências físicas

As notificações se acumulam, as telas se alternam e as respostas precisam ser rápidas. Entre mensagens, atualizações e conteúdos que se renovam o tempo todo, o ritmo é contínuo e difícil de interromper. A sensação é de que tudo acontece ao mesmo tempo, e de que é preciso acompanhar.

Nesse cenário, começa a ganhar espaço um movimento na direção oposta. Sem romper com o digital, práticas e objetos analógicos voltam a fazer parte da rotina. São escolhas que exigem mais tempo, mais atenção e menos automatismo, e que têm atraído diferentes perfis de pessoas, especialmente entre a geração Z (pessoas nascidas aproximadamente entre 1997 e 2012).  

Em meio a esse interesse, livros físicos, cadernos, câmeras de filme e discos de vinil reaparecem como parte do cotidiano. Páginas são folheadas com mais calma, a escrita manual volta a ocupar espaço e a experiência de ouvir um disco inteiro ganha valor para além da praticidade.

Embora não exista uma única explicação para esse movimento, ele pode estar relacionado a diferentes fatores que se sobrepõem: a curiosidade por experiências não vividas diretamente por parte das novas gerações, o apelo estético dos objetos antigos, o valor sentimental associado a memórias familiares e também a busca por experiências mais táteis e menos mediadas por telas. Em vez de uma ruptura com o digital, o que se observa é uma convivência entre os dois universos.

No mercado editorial, essa permanência do físico também aparece nos dados. Segundo o Panorama do Consumo de Livros, da Câmara Brasileira do Livro (CBL), realizado pela Nielsen BookData e divulgado em fevereiro de 2025, os livros impressos seguem como preferência entre os leitores brasileiros. Entre os entrevistados, 56% adquiriram apenas livros físicos nos últimos 12 meses, enquanto 30% compraram nos dois formatos e 14% optaram exclusivamente pelo digital.

Esse interesse também se reflete em diferentes formas de consumo cultural, especialmente entre os mais jovens. O acadêmico de História Vinícius Ortega, de 20 anos, é um exemplo de como o vínculo com o analógico pode nascer da curiosidade e se transformar em coleção.

Ele mantém o que chama de um “gabinete de curiosidades”, onde reúne moedas, câmeras antigas, livros, fitas cassete, toca-fitas e walkman. O conjunto, segundo ele, funciona como uma forma de preservar fragmentos da história e compreender a materialidade dos objetos.

Para Vinícius, esse interesse acompanha sua trajetória desde a infância. Ele afirma que o fascínio pelo passado se relaciona com a ideia de preservar vestígios e narrativas, e que seu acervo também é utilizado em atividades didáticas.

Em sua avaliação pessoal, o crescimento do interesse por objetos antigos pode estar ligado a múltiplas interpretações, incluindo uma espécie de nostalgia construída, embora reconheça que se trata de uma leitura individual sobre o fenômeno.

O movimento também é percebido no ambiente comercial. Em Campo Grande, o Bar Época e Cozinha aposta na estética retrô e na experiência musical como parte de sua identidade.

O espaço reúne objetos antigos, discos de vinil e referências musicais que vão do chorinho ao rock clássico, além de promover eventos temáticos, como feiras de vinil organizadas em datas especiais, a exemplo do Dia Nacional do Disco.

O proprietário, Rafael Petinari, afirma que tem percebido um aumento no interesse por esse tipo de material, especialmente entre os mais jovens. Segundo ele, o vinil voltou a ganhar espaço mesmo em um cenário dominado por plataformas digitais de música.

Dados de mercado também indicam essa retomada. Levantamento da Pequenas Empresas & Grandes Negócios (2024) aponta que a busca por câmeras digitais cresceu até 563% no último ano, impulsionada por tendências nas redes sociais. Além disso, entre novembro de 2024 e maio de 2025, as vendas da linha Cybershot tiveram aumento de 1.456%, segundo dados divulgados por Ricardo Steffen, Chief Growth Officer da Octoshop.

Petinari destaca ainda que há uma valorização do objeto físico e da experiência que ele proporciona, ligada ao ato de garimpar e ao contato direto com o material. Ele acrescenta que esse movimento não se limita ao vinil, alcançando também câmeras antigas e outros itens colecionáveis. Segundo ele, há expectativa de que até mesmo os CDs possam voltar a ganhar força nos próximos anos.

O mesmo comportamento também aparece em outros segmentos culturais. O interesse por câmeras digitais compactas dos anos 2000, como a Sony Cybershot, voltou a crescer entre jovens, impulsionado pela estética de imagens menos perfeitas e mais espontâneas.

Mais do que um retorno ao passado, o que se observa é a convivência entre diferentes formas de consumo cultural. O digital permanece como parte central da rotina, enquanto o analógico ganha espaço como experiência complementar, marcada pela escolha e pela desaceleração pontual do ritmo cotidiano.

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