Enquanto tarifas impostas por Donald Trump reduzem vendas para os Estados Unidos, avanço em mercados estratégicos supera perdas em mais de seis vezes; governo anuncia plano de R$ 130 milhões para acelerar diversificação
As novas barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros já provocam impactos sobre as exportações nacionais, mas os números mais recentes indicam que o Brasil vem encontrando alternativas para reduzir a dependência do mercado norte-americano. No primeiro semestre deste ano, o crescimento das vendas para China, Índia e Europa superou em mais de seis vezes a queda registrada nas exportações para os EUA.
Dados divulgados pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) mostram que as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram cerca de US$ 2,6 bilhões entre janeiro e junho. No mesmo período, porém, as vendas para a China cresceram US$ 10,5 bilhões, enquanto os embarques para a Europa avançaram US$ 3,1 bilhões e para a Índia, US$ 2,5 bilhões.
O desempenho ocorre em meio ao aumento das tensões comerciais entre Brasília e Washington. Na última quarta-feira (15), o governo do presidente Donald Trump confirmou uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, ampliando medidas adotadas desde 2025.
Diante do novo cenário, o governo federal aposta na abertura de mercados e na diversificação de destinos para manter o ritmo das exportações e minimizar possíveis impactos sobre empresas brasileiras.
Plano de R$ 130 milhões mira novos mercados
Como resposta ao novo tarifaço, a ApexBrasil anunciou um plano de R$ 130 milhões que será lançado em agosto para apoiar empresas exportadoras na busca por novos compradores internacionais.
A iniciativa será desenvolvida em parceria com 57 setores econômicos e deve beneficiar cerca de 2,4 mil empresas que já atuam no comércio exterior.
Segundo o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, a estratégia vai além da simples expansão comercial.
“A expansão para outros mercados a gente já faz. O que a gente vai trabalhar agora é a diversificação. É um novo olhar sobre novas oportunidades a partir de um novo cenário do comércio internacional”, afirmou.
A prioridade será ampliar a presença brasileira na União Europeia, impulsionada pelo acordo entre Mercosul e União Europeia, além de fortalecer relações comerciais com países do Sudeste Asiático e da Ásia Central.
Entre os mercados considerados estratégicos estão Indonésia, Malásia, Tailândia, Vietnã, Cazaquistão e Uzbequistão, economias que vêm registrando crescimento acelerado e aumento da demanda por produtos importados.
Brasil reduz dependência dos Estados Unidos
A avaliação da ApexBrasil é que os resultados do primeiro semestre demonstram que a estratégia de diversificação já começou a produzir efeitos concretos.
Segundo Müller, boa parte das empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos já iniciou um movimento de ampliação de mercados desde a primeira rodada de tarifas adotada pelo governo norte-americano em 2025.
“Isso implica dizer que 72% das 2,4 mil empresas que exportam para os EUA, e que são apoiadas pela ApexBrasil, já diversificaram o mercado entre junho de 2025 e maio de 2026. Elas acrescentaram, nesse período, pelo menos um novo destino de suas exportações”, disse.
O dirigente destacou que alguns setores conseguem encontrar compradores alternativos com maior rapidez, enquanto outros dependem de um trabalho mais longo para conquistar espaço em novos mercados.
“Tem outros setores que vão demorar um pouco mais e que talvez seja mais complexo. Muitas vezes a gente precisa, inclusive, criar o mercado em outro país. Nós vamos ter que chegar ao mercado chinês, por exemplo, para dizer: ‘olha, existe uma rocha brasileira que tem tal característica e ela pode também servir ao seu mercado'”, explicou.
Tarifaço atinge parte das exportações brasileiras
A nova medida anunciada por Washington afeta produtos que representaram cerca de US$ 7,2 bilhões das exportações brasileiras para os Estados Unidos em 2025.
Apesar disso, a maior parte das vendas brasileiras ao mercado norte-americano continua fora da sobretaxação. Segundo a ApexBrasil, a lista de produtos isentos foi ampliada durante as negociações, passando de 615 para 699 itens.
Com isso, o valor das exportações brasileiras protegidas das novas tarifas subiu de US$ 20,6 bilhões para US$ 22,8 bilhões, considerando os dados do ano passado.
Ainda assim, especialistas avaliam que a medida aumenta a incerteza para empresas que dependem do mercado norte-americano e reforça a necessidade de ampliar a presença brasileira em outras regiões.
Brasil ganha espaço em cenário global
Além do crescimento das exportações, o governo destaca que o país também tem ampliado sua capacidade de atrair investimentos estrangeiros.
Segundo dados citados pela ApexBrasil, o Brasil recebeu US$ 77 bilhões em investimentos internacionais em 2025, resultado que colocou o país entre os cinco maiores destinos de capital estrangeiro do mundo.
Para Müller, o desempenho está relacionado à imagem do Brasil como fornecedor confiável em um momento de instabilidade geopolítica e reconfiguração das cadeias globais de produção.
“Tanto é que nós tivemos US$ 77 bilhões de entrada de investimentos no ano passado. Fomos o quinto maior recebedor de investimentos do mundo. Os países em desenvolvimento tiveram um crescimento de 2% na atração de investimentos, o Brasil teve um crescimento de 22% na atração de investimentos e é o principal destino já dos investimentos chineses”, concluiu.


















