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Pesquisa Datafolha mostra distância entre idade desejada e expectativa real de aposentadoria; 65% não sabem quanto receberão do INSS

Apenas 28% dos brasileiros acreditam que conseguirão se aposentar até os 60 anos, embora 59% desejem deixar o mercado de trabalho até essa idade. A diferença de 31 pontos percentuais entre expectativa e desejo evidencia a incerteza em relação à renda na velhice e à capacidade de manter o padrão de vida após o fim da carreira profissional.

Os dados são da pesquisa Percepção dos Brasileiros sobre Proteção e Planejamento, realizada pelo Datafolha a pedido da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi). O levantamento também aponta que 65% dos entrevistados não sabem quanto deverão receber do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) quando se aposentarem.

Os resultados indicam dificuldades no planejamento financeiro para o período após a saída do mercado de trabalho. A falta de clareza sobre o valor do benefício previdenciário pode dificultar a organização das despesas e a definição de estratégias para complementar a renda.

Para Marcos Eduardo Ferreira, especialista em longevidade, pós-carreira e mercado securitário, o aumento da expectativa de vida exige uma mudança na forma de planejar a aposentadoria.

“Quando falamos em aposentadoria hoje, estamos falando de uma fase que pode durar décadas. Por isso, o planejamento não pode considerar apenas o momento de parar de trabalhar, mas como essa pessoa pretende viver e quais recursos terá disponíveis ao longo desse período”, afirma.

Renda familiar aumenta a preocupação com o futuro

A preparação para a aposentadoria também envolve as responsabilidades financeiras assumidas durante a vida profissional. Segundo a pesquisa, 61% dos entrevistados são os principais provedores financeiros de suas famílias.

Desse total, 36% são os únicos responsáveis pelas despesas da casa, enquanto 25% respondem por mais da metade dos gastos domésticos.

A dependência de uma única fonte de renda pode ampliar os desafios de quem pretende deixar de trabalhar, especialmente quando há despesas permanentes com moradia, saúde, alimentação e apoio a familiares.

Ferreira afirma que o planejamento precisa considerar os custos que permanecerão depois da aposentadoria, além de possíveis mudanças nas necessidades pessoais ao longo do envelhecimento.

A longevidade, nesse contexto, amplia o período em que a renda acumulada ou recebida mensalmente precisará sustentar as despesas. Por isso, a organização financeira envolve tanto a estimativa dos gastos futuros quanto a identificação das fontes de recursos disponíveis.

Maioria não sabe quanto receberá do INSS

O desconhecimento sobre o valor do benefício previdenciário é outro ponto de atenção. De acordo com o levantamento, 65% dos brasileiros entrevistados não sabem quanto receberão do INSS na aposentadoria.

Para Gabriel Barros, diretor da SF Barros Contabilidade, conferir o histórico de contribuições é uma das medidas que ajudam a identificar possíveis problemas antes de solicitar o benefício.

“Antes de pensar em quanto falta para se aposentar, é importante entender o que já foi construído. Conferir o Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS), verificar se todos os vínculos e contribuições estão registrados e identificar eventuais pendências são passos importantes para evitar surpresas quando chegar o momento de solicitar o benefício”, orienta.

O CNIS reúne informações sobre vínculos empregatícios, remunerações e contribuições previdenciárias. Dados ausentes ou incorretos podem afetar o reconhecimento do tempo de contribuição e a análise do pedido pelo INSS.

A conferência antecipada permite identificar registros que precisam ser corrigidos e reunir documentos que comprovem períodos de trabalho ou recolhimentos. O procedimento, no entanto, não garante a concessão do benefício nem determina, isoladamente, o valor que será recebido, que depende das regras previdenciárias aplicáveis a cada segurado.

INSS é a principal fonte de renda esperada

Mesmo diante das dúvidas sobre o valor do benefício, o INSS continua sendo a principal fonte de renda esperada para a aposentadoria, citado por 38% dos entrevistados.

A pesquisa também aponta crescimento, desde 2021, da parcela de brasileiros que já possui ou pretende construir uma reserva financeira para complementar os recursos da Previdência Social.

A formação de patrimônio aparece como outra possibilidade de sustentar as despesas após o fim da vida profissional. Segundo Barros, imóveis podem representar uma fonte de renda futura por meio de aluguel ou da venda do bem.

A estratégia, contudo, depende de fatores como a valorização do imóvel, os custos de manutenção, a possibilidade de encontrar inquilinos e a necessidade de transformar o patrimônio em dinheiro disponível para as despesas cotidianas.

Para Ferreira, a preparação deve considerar diferentes fontes de recursos e as necessidades individuais de cada pessoa.

“Vale questionar-se de onde virá o dinheiro para manter minha vida quando eu não estiver mais trabalhando? Quanto antes essa conta for feita, mais opções a pessoa terá para construir essa renda”, afirma.

Oito em cada dez brasileiros não têm seguro de vida

O levantamento também identificou baixa adesão ao seguro de vida: 82% dos entrevistados afirmaram não possuir esse tipo de proteção.

Entre aqueles que não contrataram o produto, 35% apontaram o custo como uma das razões. O dado, porém, não significa que todos tenham avaliado preços e condições antes de desistir da contratação.

Entre os que consideram o seguro caro, 45% admitem que não conhecem os custos reais e apenas supõem que o produto seja inacessível.

O seguro de vida pode ajudar a proteger financeiramente dependentes em situações previstas no contrato, como a morte do segurado ou determinados casos de invalidez. Sua finalidade é diferente da aposentadoria: não substitui o benefício previdenciário nem funciona necessariamente como uma reserva para financiar a velhice.

A escolha de uma cobertura depende das necessidades familiares, das condições contratuais e da capacidade de pagamento. Por isso, a avaliação do produto deve fazer parte de uma análise mais ampla da proteção financeira, e não ser tratada como solução única para o planejamento previdenciário.

Planejamento deve começar antes da aposentadoria

Os especialistas defendem que a organização financeira seja iniciada com antecedência, para que o trabalhador tenha tempo de verificar suas contribuições, estimar as despesas futuras e avaliar formas de complementar a renda.

Entre as medidas recomendadas estão consultar o extrato previdenciário no Meu INSS, conferir se os vínculos de trabalho estão registrados corretamente, estimar o valor do benefício conforme as regras aplicáveis e organizar um orçamento que considere os custos da aposentadoria.

A formação de uma reserva financeira também pode ajudar a reduzir a dependência exclusiva do benefício previdenciário. A escolha dos instrumentos de investimento, entretanto, deve levar em conta a renda disponível, o prazo até a aposentadoria, as necessidades de liquidez e a tolerância ao risco.

A pesquisa mostra que o desafio não está apenas em definir a idade em que se pretende parar de trabalhar, mas em entender como financiar os anos seguintes. Com 65% dos entrevistados sem saber quanto receberão do INSS, a falta de informação sobre a renda futura aparece como um obstáculo para transformar a expectativa de aposentadoria em planejamento concreto.

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