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Enquanto presidente defende investimentos estatais e políticas sociais, senador propõe cortes de despesas, redução de tributos e nova regra fiscal

As propostas econômicas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para a Presidência da República apresentam diferenças sobre o tamanho do Estado, o controle das contas públicas, a tributação e as políticas de emprego e renda. Enquanto Lula defende a continuidade de investimentos públicos e programas sociais, Flávio propõe reduzir despesas administrativas, rever a regra fiscal e diminuir impostos e custos de contratação.

Apesar das diferenças, os dois candidatos apontam o endividamento público como um dos principais desafios da economia brasileira. O contraste está na estratégia para enfrentar o problema: a proposta de Lula combina controle de gastos, arrecadação e crescimento econômico, enquanto a de Flávio prioriza a contenção das despesas e a redução da estrutura estatal.

As propostas envolvem escolhas que podem afetar desde o financiamento de serviços públicos até os custos das empresas, a renda dos trabalhadores e a capacidade de investimento do governo. Os resultados, porém, dependerão do detalhamento das medidas, da aprovação pelo Congresso e das condições econômicas durante um eventual mandato.

Ajuste fiscal divide candidatos

Lula pretende manter o arcabouço fiscal, regra aprovada em 2023 que estabelece limites para o crescimento das despesas federais e busca compatibilizar os gastos com as metas de resultado primário. A estratégia do presidente também prevê melhorar a arrecadação e estimular a atividade econômica para sustentar investimentos e políticas públicas.

Entre as prioridades estão obras de infraestrutura, reindustrialização, inovação tecnológica e energia renovável. A avaliação do governo é que o crescimento econômico pode ampliar a arrecadação e contribuir para a melhora das contas públicas.

Flávio Bolsonaro propõe substituir o modelo atual por uma nova regra fiscal vinculada à trajetória da dívida pública. O plano também prevê cortes de despesas administrativas, redução do número de ministérios e revisão de cargos comissionados.

Em entrevista à GloboNews em agosto, Daniella Marques, coordenadora da equipe econômica do senador, afirmou que a proposta prevê um ajuste fiscal equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), estimado em cerca de R$ 190 bilhões com base no PIB de 2025.

O alcance das medidas, no entanto, depende de como os cortes seriam distribuídos entre as áreas do governo e de quais despesas poderiam ser reduzidas. Também será necessário esclarecer como a nova regra fiscal funcionaria e quais seriam seus efeitos sobre investimentos e serviços públicos.

Em 9 de outubro, Flávio negou que pretenda acabar com programas sociais como o Bolsa Família e o Farmácia Popular. A manutenção desses benefícios, diante da proposta de redução de despesas, coloca o financiamento das políticas sociais entre os pontos que exigem detalhamento.

Impostos e investimentos

Na área tributária, Lula defende um sistema mais progressivo, no qual pessoas com rendas mais altas contribuam proporcionalmente mais. O governo também pretende dar continuidade aos investimentos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e às políticas de incentivo à indústria nacional.

Flávio prioriza a redução de tributos, a simplificação de regras e a diminuição dos custos para empresas. A proposta busca estimular a atividade econômica por meio de um ambiente de negócios com menos burocracia e encargos.

A diferença entre os planos está também na forma de financiar as medidas. Uma redução de impostos pode diminuir a arrecadação, caso não seja compensada pelo crescimento da atividade econômica ou por outras fontes de receita. No modelo defendido por Flávio, a contenção de despesas teria papel importante nesse equilíbrio.

Na estratégia de Lula, a ampliação de investimentos e a manutenção de políticas públicas dependem da capacidade de arrecadação e do cumprimento das metas fiscais. O desempenho da economia, a evolução das receitas e o controle dos gastos serão determinantes para a execução das duas propostas.

Trabalho e renda

As campanhas também apresentam caminhos diferentes para estimular o emprego e melhorar a renda dos trabalhadores.

Lula defende a valorização real do salário mínimo, a manutenção dos direitos trabalhistas e a redução da jornada semanal para 40 horas, sem corte salarial. A proposta busca ampliar o tempo disponível para descanso e convivência familiar, preservando a remuneração dos trabalhadores.

Flávio, por sua vez, enfatiza a redução dos custos de contratação e a flexibilização de modalidades específicas de trabalho, com medidas voltadas a determinados grupos etários.

As duas abordagens têm possíveis efeitos sobre o mercado de trabalho. A redução da jornada sem diminuição salarial pode elevar os custos por hora trabalhada para empresas que não consigam compensar a mudança com ganhos de produtividade. Já a redução de encargos pode diminuir o custo da contratação, mas seus efeitos sobre a formalização, os salários e a arrecadação dependerão do desenho das medidas.

A comparação entre as propostas exige, portanto, avaliar não apenas a quantidade de empregos que cada uma pretende gerar, mas também as condições de trabalho, a remuneração e os efeitos sobre as contas públicas.

Programas sociais

Lula pretende manter e ampliar políticas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, além de ações de combate à fome e de proteção social.

Flávio também declarou intenção de preservar programas como Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e Farmácia Popular. A diferença está na estratégia de financiamento: enquanto Lula associa a continuidade das políticas sociais à arrecadação, ao crescimento econômico e ao controle das despesas, Flávio defende uma redução mais intensa dos gastos administrativos.

O desafio para ambas as propostas é conciliar a manutenção dos benefícios com a trajetória da dívida pública. Para isso, será necessário apresentar estimativas de receitas e despesas, além de esclarecer quais programas terão prioridade e como serão financiados ao longo do mandato.

Balanço das gestões anteriores

Os resultados econômicos dos governos anteriores oferecem elementos para avaliar as propostas, mas precisam ser analisados à luz das condições enfrentadas em cada período.

Durante o governo Jair Bolsonaro (PL), entre 2019 e 2022, o país enfrentou a pandemia de covid-19 e os efeitos econômicos da guerra na Ucrânia. A gestão adotou medidas emergenciais de auxílio, promoveu privatizações e concessões e encerrou 2022 com a dívida bruta do governo geral em torno de 72% do PIB.

No terceiro mandato de Lula, iniciado em 2023, o país registrou crescimento econômico superior ao observado no período anterior, segundo os dados apresentados no levantamento da Agência Brasil. O governo retomou programas sociais, ampliou investimentos em infraestrutura, implementou a valorização do salário mínimo e aprovou a reforma tributária sobre o consumo.

O desemprego também recuou durante o período, chegando a 5,6% em 2025, conforme os dados citados na publicação. Em contrapartida, a dívida pública voltou a crescer em proporção do PIB e atingiu 82,9% em agosto de 2026, segundo o mesmo levantamento.

A comparação exige cautela. Crescimento econômico, emprego e endividamento são influenciados por fatores como juros, inflação, cenário internacional, decisões do Banco Central, arrecadação e medidas extraordinárias de cada governo. Por isso, os indicadores não permitem atribuir todos os resultados exclusivamente às decisões dos presidentes.

A disputa econômica entre Lula e Flávio Bolsonaro coloca em debate duas prioridades distintas: o papel do Estado como indutor do crescimento e financiador de políticas sociais e a redução de despesas e tributos como instrumentos para estimular a atividade privada. A viabilidade de cada caminho dependerá das medidas concretas, de seus custos e da capacidade de conciliar crescimento, emprego e equilíbrio fiscal.

Com infomações e imagem da Agência Brasil

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