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márcio pereira - atualizado certo

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Um alerta global com endereço brasileiro

Em 1º de junho de 2026, o Center for World University Rankings divulgou a edição de 2026 do Global 2000, seu ranking anual das melhores instituições de ensino superior do planeta. O levantamento avaliou 21.291 universidades de todo o mundo e selecionou as duas mil mais bem posicionadas, com base em 81 milhões de pontos de dados distribuídos em quatro dimensões: qualidade da educação, empregabilidade dos egressos, excelência do corpo docente e produção científica. O resultado para o Brasil foi, para usar as palavras do próprio presidente do CWUR, Nadim Mahassen, um alerta nacional.

Das 52 universidades brasileiras presentes na lista, 45 perderam posições em relação a 2025. Isso representa 87% das instituições do país avaliadas pelo ranking. O indicador de pesquisa científica registrou recuo em 44 das 52 universidades. A Universidade de São Paulo, a mais bem posicionada do Brasil e da América Latina, caiu uma posição e agora ocupa o 119º lugar global. A UFRJ recuou 15 postos, chegando ao 346º. A Unicamp perdeu dez posições, ficando no 379º. Ao mesmo tempo, a China tornou-se, pela primeira vez, o país com maior número de universidades entre as melhores do mundo, com 360 instituições listadas no Global 2000, contra 313 dos Estados Unidos. Das universidades chinesas presentes no ranking, 98% subiram de posição.

A comparação é incômoda porque não é acidental. Ela reflete décadas de escolhas políticas distintas sobre onde e como investir em ciência e ensino superior. E ela ressoa diretamente nas leituras que o Global Innovation Index (GII) 2025, publicado pela WIPO – World Intellectual Property Organization, faz sobre a capacidade dos países de transformar conhecimento em desenvolvimento econômico.

O que o ranking mede e por que importa

O CWUR é um dos rankings internacionais de maior abrangência por metodologia. Diferentemente de outros levantamentos que dependem de informações fornecidas pelas próprias universidades ou de pesquisas de reputação, o CWUR utiliza exclusivamente bases de dados públicas e indicadores bibliométricos objetivos. Os quatro pilares da avaliação têm pesos distintos: educação e empregabilidade respondem cada um por 25% do resultado; corpo docente responde por 10%; e a pesquisa científica, desdobrada em produção total de artigos, publicações em periódicos de alto impacto e citações de alta qualidade, concentra o restante da pontuação e é o vetor com maior poder de diferenciação entre instituições.

Isso significa que o CWUR mede, acima de tudo, a capacidade de uma universidade de produzir e disseminar conhecimento científico com impacto reconhecido internacionalmente. E é precisamente nesse indicador que o Brasil encolheu. O diagnóstico de Mahassen é direto: o declínio das universidades brasileiras reflete anos de financiamento inadequado e a desvalorização da ciência e da educação como bens públicos. Para ele, o problema não é apenas acadêmico. A erosão do sistema de ensino superior compromete o desenvolvimento científico, a capacidade de inovação e o futuro de longo prazo do país.

Esse diagnóstico encontra respaldo nos dados do GII 2025. O Brasil ocupa a 84ª posição global no indicador de colaboração universidade-indústria em P&D e a 107ª posição no pilar Instituições do ranking de inovação da WIPO. A queda das universidades no CWUR e o posicionamento institucional frágil no GII não são fenômenos separados. São sintomas da mesma doença: a ausência de um ecossistema que conecte ciência produzida a valor econômico gerado.

A exceção sul-mato-grossense

No meio desse quadro de retração generalizada, um resultado merece atenção especial do leitor desta coluna. A Universidade Federal de Mato Grosso do Sul registrou o maior avanço entre todas as instituições brasileiras no CWUR 2026. A UFMS subiu 20 posições, passando do 1.367º lugar em 2025 para o 1.347º em 2026, alcançando a 32ª colocação entre as 52 universidades brasileiras avaliadas, a 25ª entre as federais do país e a 3ª posição entre as instituições do Centro-Oeste.

A pontuação geral da universidade cresceu de 68,7 para 68,8 pontos, consolidando sua presença entre o top 6,4% das melhores instituições de ensino superior do planeta, em um universo de mais de 21 mil avaliadas. O resultado é ainda mais expressivo quando contextualizado: das cinco universidades brasileiras que avançaram no ranking, a UFMS registrou a maior subida em número absoluto de posições.

Para Maurílio Montanha, diretor de Avaliação Institucional da Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento Institucional da UFMS, o avanço é fruto de escolhas institucionais deliberadas em pesquisa, qualificação docente e infraestrutura acadêmica. A reitora Camila Ítavo atribuiu o resultado ao trabalho coletivo realizado na universidade. Ambas as leituras convergem para um ponto essencial: avanços em rankings de pesquisa não acontecem por acaso e não se sustentam sem investimento contínuo.

Quando uma universidade regional sobe 20 posições no maior ranking de universidades do mundo, enquanto 87% das suas congêneres nacionais recuam, ela está enviando um sinal sobre sua trajetória institucional. E esse sinal precisa ser lido corretamente pelos atores políticos, econômicos e científicos do estado.

O que a China fez que o Brasil não fez

O avanço das universidades chinesas no CWUR 2026 não é novidade, mas a magnitude do fenômeno nesta edição exige reflexão. Pela primeira vez, a China supera os Estados Unidos em número de instituições presentes no Global 2000. Das universidades chinesas listadas, 98% melhoraram sua classificação. A Universidade Tsinghua, referência do sistema, ocupa agora o 36º lugar mundial.

Esse movimento é a expressão mais visível de uma estratégia de Estado construída ao longo de décadas. A China dobrou sua intensidade em P&D como proporção do PIB desde o ano 2000, chegando a 2,6% em 2022, segundo dados do GII 2025. Mais do que isso, o país combinou expansão universitária acelerada com crescimento da atividade de P&D empresarial, criando os vínculos entre ciência e setor produtivo que o Brasil ainda não conseguiu institucionalizar de forma sistemática. O resultado aparece tanto nos rankings universitários quanto no GII: a China entrou, em 2025, pela primeira vez no top 10 do índice global de inovação.

O Brasil, por contraste, mantém-se na 52ª posição do GII com uma assimetria reveladora: é o 24º maior investidor corporativo em P&D do mundo, mas ocupa a 84ª posição em colaboração universidade-indústria. Produz ciência de qualidade, como atestam os rankings de publicações, mas não consegue fechar o circuito entre laboratório e mercado. O CWUR 2026 confirma que a base científica das universidades brasileiras está sob pressão. O GII 2025 explica por que essa pressão não se traduz em inovação econômica mesmo quando a pesquisa existe.

O elo que falta: da pesquisa ao desenvolvimento

A convergência de dados entre o CWUR 2026 e o GII 2025 aponta para uma questão central que o Brasil precisa enfrentar sem eufemismos: o país não tem um problema apenas de quantidade de pesquisa. Tem um problema de arquitetura do sistema que converte pesquisa em prosperidade.

O GII 2025 introduziu este ano um novo indicador: engajamento universidade-indústria e perspectiva internacional. Os dez primeiros colocados nesse indicador são todas economias de alta renda. Mas o que diferencia esses países não é apenas o volume de recursos investidos. É a existência de mecanismos formais e financiados de transferência tecnológica, de estruturas de negociação de propriedade intelectual, de programas de pesquisa colaborativa que reduzem o risco para as empresas e ampliam o alcance do conhecimento produzido nas universidades. São pontes construídas institucionalmente, não apenas desejadas politicamente.

Em Mato Grosso do Sul, a UFMS que sobe no CWUR, a UFGD, UEMS, UCDB e UNIDERP, juntamente com o IFMS, são as instituições que precisam se conectar ainda mais profundamente com o ParkTech Campo Grande, PTIn – Parque Tecnológico Internacional de Ponta Porã, com as cadeias produtivas do agronegócio de precisão, com a pesquisa em bioeconomia do Pantanal e com as oportunidades abertas pela Rota Bioceânica. O avanço no ranking é a prova de que a capacidade científica está crescendo. A questão é se o ecossistema de inovação do estado construirá os mecanismos que transformem essa capacidade em desenvolvimento econômico concreto.

O que os números exigem de quem decide

O CWUR 2026 e o GII 2025, lidos em conjunto, formulam um diagnóstico que não pode ser ignorado por quem toma decisões sobre ciência, tecnologia e desenvolvimento em Mato Grosso do Sul e no Brasil. Três imperativos emergem com clareza.

O primeiro é financeiro. O retrocesso de 87% das universidades brasileiras no ranking é, antes de qualquer outra coisa, o resultado de anos de subfinanciamento do ensino superior e da pesquisa científica. Estabilizar e ampliar o financiamento não é custo. É o único investimento com retorno comprovado em todos os países que construíram economias baseadas em conhecimento.

O segundo é institucional. O Brasil ocupa a 129ª posição global em ambiente de negócios e a 84ª em colaboração universidade-indústria, segundo o GII 2025. A pesquisa que existe nas universidades brasileiras, inclusive na UFMS, precisa de estruturas profissionais de transferência tecnológica para chegar ao mercado. Não burocracia acadêmica adicional. Mecanismos funcionais de licenciamento, patentes e spin-offs que reduzam a distância entre descoberta científica e empresa inovadora.

O terceiro é estratégico. A China tornou-se o país com mais universidades entre as melhores do mundo não por acidente, mas por uma aposta deliberada e sustentada de Estado. O Brasil precisa de uma política de ciência e tecnologia com horizonte de décadas, não de mandatos. E os estados com potencial científico emergente, como Mato Grosso do Sul, precisam entender que o avanço da UFMS no CWUR 2026 não é um destino. É um ponto de partida.

A universidade que avança onde o Brasil recua merece reconhecimento. Mas o que ela e o estado precisam é de um ecossistema à altura da trajetória que estão construindo, com mais fomento e investimentos em infraestrutura científica, como dos INCT – Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, assunto que trataremos na próxima coluna.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Márcio Pereira

Márcio Pereira

Administrador de Empresas, Doutor em Desenvolvimento Rural (UFRGS). | @marcio.araujo.pereira

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