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MIRIAM ABREU

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Após dois meses de recuperação de meu esposo devido a uma cirurgia, num sábado ensolarado, decidimos fazer uma caminhada mais longa até à casa de minha irmã em nossa cidade. Planejamos ir a pé e voltarmos de transporte coletivo. E assim foi.

Posso lhe afirmar que não foi só uma caminhada, foi um diagnóstico que nos provocou inúmeros sentimentos. Calçadas quebradas, desniveladas, mato nas calçadas e laterais das ruas, árvores alcançando os fios elétricos, galhos caídos e sujeira por todo lado. Por vários momentos precisamos dividir o espaço com os carros na rua, e que perigo, pois todas se encontram cheias de buracos. O que isto nos revela? Um cotidiano cheio de riscos para todos os cidadãos e uma privação quanto ao direito de ir e vir, principalmente para as pessoas com dificuldades de locomoção, como idosos, cadeirantes, pessoas com deficiência visual, mães com carrinhos de bebê etc. Outro aspecto claro é a normalização do descuido em todos os bairros da cidade. O fato é que as ruas são verdadeiras salas de aula a céu aberto.

Consciente ou inconscientemente a rua educa mesmo quando ninguém percebe. Ela molda comportamentos. Ensina a não cuidar do que está estragado, a não limpar ou organizar o que está sujo e desorganizado, a não cobrar que seja melhorado e a aceitar como normal aquilo que lhe é ofertado. A rua é o currículo oculto urbano, ou seja, é aquilo que se aprende fora da escola e que forma mentalidade.

Isso só nos confirma que vivemos num país que não consegue romper ciclos. A repetição é histórica e o problema não é novo. Infraestrutura precária em todos os campos, incompetência na gestão pública, uma cultura de não manutenção, corrupção por todos os lados e nenhuma punição real… Os discursos mudam, a roupagem muda, porém a estrutura é a mesma e permanece. É impossível ensinar pertencimento a um povo em ambientes que comunicam o tempo inteiro abandono e escassez. A escola tenta cumprir o seu papel ensinando cidadania, porém, o estudante ao voltar para casa, para o seu bairro é confrontado com a realidade. Tudo contradiz o dito, o ensinado no campo escolar, na sala de aula. A distância entre a teoria e a realidade só se amplia a cada dois anos e a cada quatro anos na sociedade brasileira.

Voltando à minha caminhada e de meu esposo, ao retornarmos para casa pegamos um transporte coletivo. Um ônibus de baixa qualidade e quente. O motorista com um semblante desgastado e os passageiros com um olhar distante como se a esperança estivesse a se esvair. Devido à trepidação você quase não consegue parar sentado à medida que o ônibus avança devido a inúmeros “tapa-buracos” realizados nessas ruas e aos buracos atuais ainda não tampados. A minha memória voltou às décadas de 80 e 90 quando esse era o meio de transporte que eu mais utilizava e o pior… só confirmei que nada mudou em nossa cidade. A diferença é que naquela época nutríamos a esperança de que dias melhores viriam à nossa cidade, à nossa nação. Ledo engano! A estrutura é a mesma e a desigualdade só aumenta de forma galopante. Ah!!! Mas as pesquisam mostram o contrário, Miriam. Você está equivocada. Como dizia um colega meu de trabalho: “As pesquisas são semelhantes a biquinis. Só mostram o que se deseja mostrar ou o que é necessário”.

Precisamos aprender a ler além dos discursos que ouvimos, ler as entrelinhas. Ao fazer uma rápida leitura já observamos que o espaço público revela valores ou a falta deles. E aqui, o que mais percebemos é a falta deles. O lixo e o mato nas calçadas e meio-fio revelam descaso, sem contar calçadas quebradas. A pergunta que não quer calar é: por que nossas calçadas não são padronizadas como em outros países? Afinal pagamos impostos para tudo… Os buracos nas ruas ou os “tapa buracos”, revelam negligência, assim como o transporte público precário das cidades brasileiras, revelam descaso e a perpetuação da desigualdade.

A indignação é saber que nossos gestores públicos conhecem e gostam muito de usufruir da qualidade dos serviços públicos de outros países como da Europa, Ásia, Oriente Médio, EUA etc. Porém, não possuem a dignidade de proporcionarem essa qualidade ao povo brasileiro. Uma coisa é certa: dinheiro não falta, pois estamos entre os países que mais pagam impostos no mundo e, estamos entre os países que pouco devolvem esses impostos em forma de serviços de qualidade aos seus cidadãos.

Olhando para o aspecto educacional, podemos afirmar que um país assim forma cidadãos que sobrevivem, mas não possuem o senso de pertencimento. São formados com baixa expectativa de futuro, sem o senso de coletividade, sendo normalizados em seu cotidiano o improviso e a precariedade nos serviços públicos que lhes são prestados.

Finalizo deixando uma reflexão. A questão não é: Por que nada mudou? A questão é: quando foi que nos acostumamos a tudo isso e até quando?!

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Miriam Abreu

Miriam Abreu

É doutora e mestre em Educação pela (UFMS). Especialista em Orientação Educacional e Psicopedagogia pela (UFRRJ/CEP-EB). Pedagoga habilitada em Orientação Educacional (FUCMT)  e Supervisão Escolar (Faclepp). Consultora Educacional, palestrante e escritora. | @miriam_abreu65

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