A educação brasileira vivencia uma crise que não pode mais ser classificada como silenciosa, mas sim, totalmente visível – o adoecimento de nossos professores, nossos mestres. O que por décadas foi sendo construído para que chegássemos a esse resultado? Através de uma rápida análise podemos afirmar que esse adoecimento não é fruto de um único fator, mas de uma combinação complexa de elementos estruturais e culturais.
Daí eu fazer uso do termo “colapso” – conforme o dicionário online de português – que pode indicar “estado daquilo que está desmoronando, do que está em crise, em falência. Pode ser compreendido, também, como esgotamento físico e mental extremo onde a pessoa não consegue lidar com o estresse diário.”
A não valorização e a perda de autoridade do professor no Brasil é resultado de um processo histórico, social e econômico. Entretanto, podemos destacar alguns marcos importantes relacionados a isso.
Na década de 70 e 80 com a expansão da educação básica e, com o aumento da demanda por professores, com a desvalorização salarial, a ausência de plano de carreira e de infraestrutura, gerou a precarização do ensino e a desvalorização da profissão docente em nosso país.
Em 1996, a Nova Lei de Diretrizes e Bases – LDB, trouxe profundas e necessárias mudanças à educação brasileira. Porém, ao colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem, como sempre, trouxe algumas más interpretações que passaram a contribuir para um esvaziamento da autoridade e autonomia do professor no processo de ensino e aprendizagem de seus alunos.
Já o século XXI tornou-se mais desafiador, pois o professor que detinha o monopólio do saber passa a dividir o conhecimento e as informações com a internet. Essa era digital tornou-se desafiadora à prática docente num país onde esse mesmo professor não tem acesso à internet para compartilhar com seus alunos as novas informações e conhecimentos no seu dia a dia escolar. Não existem computadores e muito menos internet nas escolas e, muitos alunos nas suas próprias casas já conseguem acessar informações que nem mesmo o seu professor tem conhecimento.
A partir dos anos 2000, a falta de apoio institucional e social leva o professor a jornadas duplas e muitas vezes até triplas para garantir a sua sobrevivência. A indisciplina dos alunos, o desrespeito, as salas de aula lotadas e, questionamentos constantes por parte das famílias em relação à competência dos professores passou a gerar uma crise de credibilidade da profissão docente. Todo esse movimento histórico, social e econômico trouxe uma crise de sentido e autoridade àqueles que sempre se dedicaram e se dedicam ainda à formação das novas gerações. Mas eu pergunto: Até quando?! É evidente que não há saúde física e mental que suporte tantos embates sem manifestar algum sintoma ao longo da trajetória pessoal e profissional de qualquer ser humano. Afinal, como diz o pesquisador português Antônio Nóvoa em suas pesquisas sobre a profissão docente: “É impossível separar o pessoal do profissional”.
É exatamente assim que 65 mil e 123 professores – somente da rede pública – em nosso país, se sentiram em 2025 ao solicitarem afastamento de suas funções por problemas de saúde mental. Segundo estudos da Fiocruz sete em cada dez professores apresentam sinais de depressão ou ansiedade.
Creio ser este um momento muito propício para nos debruçarmos sobre este assunto, até porque na última semana, mais especificamente em 26 de maio de 2026 – após adiamento – entrou em vigor a Portaria MTE nº 1.41G, de 27 de agosto de 2024. Esta portaria atualizou a Norma Regulamentadora n° 1 (NR-1) estabelecendo os requisitos para o Gerenciamento dos Riscos Ocupacionais (GRO) no ambiente de trabalho. Isso diz respeito à saúde mental de todo trabalhador nas 24 milhões de empresas existentes em nosso país – inclusive as escolas.
Embora exista essa obrigatoriedade das empresas em se adequarem às atualizações da NR-1, não podemos negar que é um momento de grande evolução normativa em nosso país no que diz respeito à saúde mental dos colaboradores nas empresas brasileiras – e aqui destaco os nossos professores, nossos mestres. Mas por que os professores necessitam ser vistos com um olhar de cuidado? Porque antes o que era percebido como um desgaste inerente à profissão, hoje se configura como um problema estrutural, sistêmico e urgente.
Cuidar do professor não é um gesto de “benevolência”, mas uma necessidade estratégica para o desenvolvimento de uma nação. Não há educação de qualidade sem professores saudáveis, valorizados e respeitados. Enquanto o Brasil não compreender isso, continuará tentando construir um sistema educacional sólido sobre bases fragilizadas. E, inevitavelmente, os resultados continuarão aquém do necessário.
















