Certa vez, ouvi uma história sobre uma importante cantora gospel que foi procurada por outra cantora, que vivia um momento de incertezas e precisava tomar uma decisão. Ao perguntar-lhe o que deveria fazer, recebeu uma resposta curta, mas profunda: “Leia os sinais”.
Você está sabendo ler os sinais do seu tempo? Os sinais estão diante de nós e a questão em pauta é: estamos, realmente, prestando atenção? Muitos sinais nos são dados de maneira silenciosa; nem todos são acompanhados de aviso. Pode ser uma mudança de comportamento, uma família que não consegue mais dialogar, um estudante que perde o interesse pelos estudos, uma sociedade que passa a considerar normal aquilo que antes provocava indignação, uma empresa onde os colaboradores estão presentes fisicamente, porém ausentes emocionalmente etc.
Precisamos compreender que ver não é o mesmo que perceber; e que perceber não é o mesmo que compreender. E o mais importante: compreender exige de nós disposição para pensarmos. Pesquisas apontam que somente 8% dos brasileiros conseguem interpretar um texto e que apenas 6% conseguem diferenciar um fato de uma opinião. Ler os sinais significa observarmos além dos acontecimentos imediatos, além do que vemos, ouvimos e lemos.
A Bíblia relata que entre as doze tribos de Israel, havia uma tribo muito especial – a de Issacar – que possuía a capacidade de discernir e entender os tempos. No livro de 2 Crônicas 12:32 está escrito que os chefes, os líderes dessa tribo: “[…] entendiam os tempos e sabiam o que Israel devia fazer”. Eles conseguiam ler o cenário de sua época; compreendiam o clima espiritual, social, político e econômico do momento em que estavam vivendo. Não fixavam o seu entendimento apenas no relógio cronológico, mas buscavam o discernimento dos tempos (kairós).
Em muitos momentos de crises e transições políticas e sociais eles sabiam a direção certa a seguir. Aprendemos com os líderes da tribo de Issacar que o mais importante não é saber o que fazer, mas qual atitude tomar e qual direção seguir. Portanto, o discernimento gera em nós direção prática que unifica e traz paz para que todos à nossa volta possam produzir em segurança.
Vivemos hoje numa sociedade em que temos a carência de líderes como os da tribo de Issacar. Essa carência se estende por todos os campos de nossa sociedade, seja político, religioso, econômico, educacional, corporativo, da comunicação etc. Aquilo que antes nos chamava à reflexão passou-se a ser tratado de maneira normalizada, naturalizada, inclusive a corrupção em todos os sentidos e em todos os campos. Esse é o chamado “jeitinho brasileiro”.
Perdemos há décadas a capacidade de discernirmos os tempos e os fatos e, mais ainda, a capacidade de nos anteciparmos a estes. As crises não se iniciam no momento que explodem, elas nos dão muitos sinais antes que tudo aconteça.
Quanto às famílias, estas precisam aprender a ler os sinais na vida de seus filhos, antecipando, assim, de forma prática, a problemas futuros. É importante ter a clareza de que nem todo isolamento significa que o filho deseja ficar sozinho; nem toda “rebeldia” é uma fase; nem todo baixo rendimento escolar é preguiça de estudar e nem todo silêncio significa que seu filho é tranquilo etc.
A escola, por sua vez, também, precisa desenvolver em seus gestores e colaboradores a capacidade de observação e antecipação aos fatos. Quem educa precisa desenvolver a capacidade de enxergar aquilo que ainda não se tornou evidente. Educar, também, é observar o comportamento dos alunos, o professor que se encontra esgotado e amedrontado por tanta insegurança dentro e fora das instituições de ensino, a dificuldade de aprendizagem dos estudantes, o relacionamento com as famílias etc.
É fundamental termos a clareza de que ler os sinais não significa vivermos com medo, mas sim vivermos de forma consciente. Não é necessariamente prevermos o futuro, mas nos prepararmos para ele. Quando aprendemos a ler os sinais não vivemos reagindo aos acontecimentos, mas sim aprendemos a tomar decisões antes que eles se tornem consequências indesejáveis. A questão é: os tempos e as estações estão falando. Estamos escutando?














