Constantemente ouvimos educadores e tantas outras pessoas afirmando que o Brasil precisa formar leitores. Concordo plenamente, porém com algumas ressalvas. A pesquisa Retratos da leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró-Vida, aponta-nos que a leitura do povo brasileiro – por pessoa – fica em torno de 2 a 4 livros na média geral da população a cada ano. Entre 46% e 55% dizem que não leem livros por cansaço, falta de paciência e que preferem o celular e o uso das redes sociais.
Em contrapartida a Revista Veja, em 02 de julho de 2026, fez a seguinte publicação: “O brasileiro médio passa 116 horas por semana conectado à internet, o que equivale a quase cinco dias inteiros. Mantido esse ritmo ao longo da vida, serão 52 anos, 09 meses e 16 dias diante de telas, segundo levantamento da empresa de cybersegurança NordVPM.”
Esses acessos, segundo a publicação, estão divididos entre redes sociais como: WhatsAPP, Instagram, Tiktok, streaming de filmes e séries, Youtube, músicas e conversas com IA. Sem contar outro hábito já consolidado que é a “segunda tela”, ou seja, 35% da população brasileira usa as redes sociais enquanto assistem à televisão ou a plataformas de streaming. Isso equivale a uma média de três vezes mais ao acesso dos japoneses às redes sociais.
A pergunta intrigante que não quer calar é: Do que nos adianta formarmos leitores se não estamos conseguindo formar intérpretes da vida? É evidente que nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em compreender o essencial, o que é mais importante na vida. Hoje uma das grandes crises tanto na família quanto na escola e nas relações sociais é a “ausência”, ou seja, as pessoas estão fisicamente presentes, porém totalmente ausentes. É o famoso adágio: “Corpo presente e alma ausente”. Perdeu-se a essência do diálogo, da troca de experiência, do olho no olho, da percepção em relação às pessoas e de como estão no seu dia a dia.
Saber ler não é mais suficiente; é necessário e urgente algo a mais. Como famílias e educadores precisamos entender que alfabetização é totalmente diferente de uma compreensão profunda daquilo que se lê. Hoje vivenciamos o excesso de informações que exige de nós, cada vez mais, perspicácia, para lermos aquilo que está oculto aos nossos olhos, que está nas entrelinhas tanto na escrita quanto nos discursos. E isso é um exercício para além da simples leitura das palavras. Necessitamos estar atentos às superficialidades das escritas, dos discursos e das relações, assim como das opiniões sem bases concretas. O papel da escola nesse contexto é fundamental. Esta precisa ir além dos conteúdos e das decorebas, levando os estudantes a fazerem uma leitura crítica dos fatos e acontecimentos locais, regionais, nacionais e internacionais. É necessário que os estudantes aprendam a fazer perguntas, como também aprendam a analisar as respostas à luz da realidade e dos fatos.
Mas o que vem a ser a leitura das entrelinhas? É você perceber, discernir quais são as reais intenções daquela fala, daquela escrita, buscando compreender em que contexto está inserida, identificando, assim, o não dito. Essa capacidade não adquirimos da noite para o dia; é um processo e isso acontece através do ensino e da aprendizagem. Deve ser um exercício contínuo em nossa vida pessoal, familiar e profissional para que possamos construir trajetórias e relacionamentos saudáveis.
A verdadeira educação não forma apenas leitores, mas sim, cidadãos capazes de fazerem leituras nas entrelinhas, interpretando as suas próprias vidas, suas relações, como também aquilo que lê e ouve. É o cidadão que consegue perceber com perspicácia o não dito; é o cidadão provido de discernimento.















