Carregando…
MIRIAM ABREU

COMPARTILHE

Tenho observado que cada vez mais está se tornando difícil a comunicação e o diálogo em nosso cotidiano. Isso pode ser observado no comércio, nas instituições escolares, nas pequenas, médias e grandes empresas, nos prestadores de serviço em geral e, principalmente na família.

Essa é uma crise silenciosa, porém perceptível. Embora seus efeitos sejam profundos e abrangentes, ela não aparece nos indicadores econômicos, não ocupa manchetes diárias e nem gera grandes discussões.

O mais incrível é que nunca se falou tanto, nunca se escreveu tanto e nunca se produziu tantas informações e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil estabelecer um diálogo claro, consistente e produtivo. O que se percebe é que a maioria dos brasileiros fala, mas não se fazem compreender; escutam, mas não interpretam; respondem, mas não resolvem. Muitos dizem: Ahh…é reflexo do intenso uso das redes sociais etc. Em parte, sim. Porém, não é uma falha pontual. É o reflexo de uma formação deficiente que inicia na família e se consolida nas escolas e nas universidades.

Há poucos dias, devido a uma falha de comunicação interna — conforme nos foi dito por uma profissional —, meu esposo, que precisava de uma cirurgia urgente, foi encaminhado a outro hospital. Isso acabou gerando atraso no atendimento. No entanto, por providência divina, ele apresentou uma nova crise e retornou ao primeiro hospital, onde finalmente realizou a cirurgia de urgência. Aparentemente tudo resolvido. Porém, esse erro de comunicação poderia ter custado a vida de meu esposo.

A boa comunicação vai muito além da linguagem verbal. Ela envolve a capacidade de organizar e estruturar o pensamento, interpretar contextos, sustentar argumentos e estabelecer conexões com os outros. É, antes de tudo, um exercício de pensamento. Aqui está a essência do problema: estamos formando sujeitos que falam antes de pensar, respondem antes de compreender e opinam antes de refletir. A própria Bíblia nos ensina uma preciosa lição: “[…] seja pronto para ouvir, tardio para falar […]” (Tiago 1:19).

Tudo inicia no ambiente familiar. A família deveria ser a primeira responsável pelo desenvolvimento da linguagem. Porém, nas últimas décadas, as conversas longas, os relatos de experiência, as narrativas intergeracionais foram sendo substituídas pelo longo tempo de exposição às telas. Em muitas casas fala-se pouco, escuta-se menos ainda. Sem o estímulo ao diálogo, à escuta e à argumentação, a criança cresce com um repertório linguístico limitado e com dificuldades de expressar sentimentos, ideias e opiniões de forma estruturada.

Somando-se a isso, encontra-se a educação brasileira que historicamente está ancorada na transmissão de conteúdo, valorizando a resposta correta e não o processo de construção do pensamento. Cobra-se a reprodução, mas não se ensina a elaboração. O resultado todos nós já sabemos. A sociedade brasileira lê mal, compreende muito pouco e interpreta menos ainda.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu contribui significativamente para a compreensão desse fenômeno. Ao tratar do capital cultural, o autor evidencia que as habilidades linguísticas não são distribuídas de forma igualitária na sociedade. Elas são construídas a partir das experiências vividas nos diferentes contextos sociais.

O cenário contemporâneo marcado pela velocidade das informações e pela superficialidade nas interações digitais vem agravando mais essa situação. Há pouco espaço para a reflexão e construção de raciocínios mais elaborados, dificultando, assim, o exercício da escuta. Fala-se muito, porém dialoga-se pouco. Nesse contexto, tem-se criado uma ilusão de comunicação.

As consequências dessa crise são amplas: na educação, a aprendizagem está cada vez mais comprometida; no ambiente empresarial/profissional, observa-se uma grande dificuldade no quesito liderança, sem contar outros aspectos fundamentais no ambiente corporativo como negociar, apresentar ideias e trabalhar em equipe; na vida social, observamos a dificuldade em lidar com o contraditório, a crescente intolerância e a escancarada fragilidade para um debate público de qualidade.

Enfim, a crise da comunicação no Brasil não é um problema de linguagem, mas sim de formação.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Miriam Abreu

Miriam Abreu

É doutora e mestre em Educação pela (UFMS). Especialista em Orientação Educacional e Psicopedagogia pela (UFRRJ/CEP-EB). Pedagoga habilitada em Orientação Educacional (FUCMT)  e Supervisão Escolar (Faclepp). Consultora Educacional, palestrante e escritora. | @miriam_abreu65

Total News MS

AD BLOCKER DETECTED

Indicamos desabilitar qualquer tipo de AdBlocker

Please disable it to continue reading Total News MS.