Político que já disputou vaga de vereador, Prefeitura de Campo Grande e duas eleições para deputado estadual chega à corrida pelo Governo com discurso conservador, histórico de confrontos e uma série de polêmicas
João Henrique Miranda Soares Catan, de 38 anos, chega às eleições de 2026 tentando transformar uma trajetória marcada pela oposição, pelo discurso conservador e pela forte presença nas redes sociais em uma candidatura competitiva ao Governo de Mato Grosso do Sul.
Caso seja eleito, o candidato seria o Governador mais novo da história de Mato Grosso do Sul a assumir o Executivo do Estado, sendo escolhido pelo voto popular.
Deputado estadual em segundo mandato, Catan foi oficializado pelo Partido Novo como candidato ao Palácio Guaicurus durante a convenção da legenda, realizada no dia 5 de agosto. Para a disputa, terá ao seu lado como candidato a vice-governador o empresário, economista e produtor rural Antônio João Jacintho, também do mesmo partido.
A candidatura representa uma nova etapa na carreira de Catan, que já passou por quatro disputas eleitorais antes de chegar à corrida pelo governo. O político tentou ser vereador de Campo Grande em 2016, foi eleito deputado estadual em 2018, disputou sem sucesso a Prefeitura da Capital em 2020 e voltou à Assembleia Legislativa em 2022, quando mais que dobrou sua votação com 25.914 votos.
Agora, filiado ao Novo depois de deixar o Partido Liberal (PL), Catan tenta se apresentar como uma alternativa de direita ao governador Eduardo Riedel (PP) e aos demais candidatos que disputam o comando do Estado.
Da política municipal à Assembleia Legislativa
Nascido em Campo Grande, João Henrique Catan é advogado e formado em Direito pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie, em São Paulo. Segundo sua biografia, começou a trabalhar aos 14 anos, como menor aprendiz em um cartório, e posteriormente mudou-se para São Paulo para cursar Direito.
O político é neto do ex-governador, ex-prefeito de Campo Grande e ex-senador Marcelo Miranda Soares, uma das figuras históricas da política de Mato Grosso do Sul.
A política eleitoral entrou oficialmente em sua trajetória em 2016, quando concorreu a vereador de Campo Grande pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Recebeu 2.629 votos, não foi eleito e terminou como terceiro suplente da coligação.
O resultado, porém, não encerrou a tentativa de ingressar na política.
Em 2018, Catan mudou de partido e disputou uma vaga na Assembleia Legislativa pelo então Partido Republicano (PR), hoje PL. Com 11.010 votos, conseguiu se eleger deputado estadual aos 30 anos.
A eleição marcou o início de sua trajetória no Legislativo estadual e também da construção de uma imagem política baseada em posições conservadoras e críticas contundentes aos adversários.
Derrota para prefeito e retorno ao Legislativo
Em 2020, Catan tentou dar um passo maior e concorreu à Prefeitura de Campo Grande pelo PL.
Recebeu cerca de 10,1 mil votos, correspondentes a 2,76% da votação, e ficou fora do segundo turno.
Dois anos depois, voltou a disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa e apresentou um desempenho eleitoral muito superior ao registrado em 2018.
Em 2022, Catan recebeu 25.914 votos e foi reeleito deputado estadual.
A votação representou um crescimento de aproximadamente 135% em relação aos 11.010 votos obtidos quatro anos antes.
O resultado consolidou o parlamentar como um dos nomes mais identificados com o eleitorado de direita no estado.
De bolsonarista no PL a candidato do Novo
A eleição de 2026 trouxe uma mudança importante na trajetória partidária de Catan.
Depois de construir sua carreira recente no PL, o deputado deixou a legenda e se filiou ao Partido Novo. A mudança ocorreu durante uma reorganização interna do partido no Estado e em meio às articulações para a sucessão de Eduardo Riedel.
Catan buscava espaço para disputar o Governo de Mato Grosso do Sul e encontrou no Novo a possibilidade de encabeçar uma candidatura própria.
A mudança também alterou o posicionamento partidário formal do candidato, mas não significou uma ruptura com as principais bandeiras que marcaram sua carreira.
Catan continua defendendo pautas associadas à direita, ao conservadorismo e ao liberalismo econômico. Entre seus principais discursos estão a redução da burocracia, a defesa da propriedade privada, do agronegócio e da liberdade econômica, além de críticas à expansão da máquina pública.
Antônio João Jacintho será o vice
Para completar a chapa, o Novo escolheu Antônio João Jacintho como candidato a vice-governador.
Empresário, economista e produtor rural, Antônio João representa um elo direto com o setor produtivo, segmento que ocupa espaço importante no discurso eleitoral de Catan.
A escolha também reforça uma das principais bandeiras apresentadas pelo candidato ao Governo: a aproximação entre a administração pública e o setor privado, especialmente o agronegócio e as atividades produtivas.
A chapa Catan–Antônio João aposta, portanto, na combinação entre o discurso político conservador do deputado e a ligação do vice com o setor empresarial e rural.
Patrimônio cresceu entre 2020 e 2022
A evolução patrimonial de Catan também chama atenção quando são comparadas suas declarações apresentadas à Justiça Eleitoral.
Em 2016, quando disputou uma vaga de vereador, declarou patrimônio de R$ 55 mil.
Em 2018, na eleição em que foi eleito deputado estadual, não declarou bens.
Na disputa pela Prefeitura de Campo Grande, em 2020, declarou R$ 166.858,15.
Já em 2022, quando foi reeleito deputado estadual, o patrimônio declarado chegou a R$ 500.281,62.
Entre 2020 e 2022, portanto, houve aumento nominal de aproximadamente 200% no patrimônio declarado.
Até esta segunda-feira (10), o candidato ainda não prestou contas à Justiça Eleitoral sobre seu patrimônio estimado para a Eleição de 2026.
Uma carreira marcada por polêmicas
A ascensão política de Catan também foi acompanhada por episódios que provocaram forte repercussão.
Um dos mais conhecidos ocorreu em 2022, quando o deputado participou de uma sessão remota da Assembleia Legislativa enquanto estava em um estande de tiro. Durante a transmissão, efetuou disparos contra um alvo.
O episódio provocou representações por quebra de decoro parlamentar e gerou críticas de adversários políticos.
Catan afirmou que se tratava de uma demonstração relacionada à atividade de tiro e utilizou o episódio para defender pautas ligadas ao armamento.
O caso foi analisado pelo Conselho de Ética, mas foi encaminhado para arquivamento após a análise de parecer do Ministério Público.
Manifestação em frente ao Comando Militar do Oeste
Ainda em 2022, Catan participou de manifestações realizadas em frente ao Comando Militar do Oeste, em Campo Grande, após a eleição presidencial.
Os atos reuniam manifestantes que contestavam o resultado das urnas e, em alguns casos, defendiam intervenção militar.
A participação do deputado levou à abertura de investigação para apurar possíveis crimes relacionados aos atos antidemocráticos.
Catan reconheceu a participação nas manifestações, mas negou ter financiado alimentação ou outras despesas dos participantes. Também afirmou que apoiava os protestos, mas não defendia violência ou vandalismo.
O inquérito contra o deputado acabou arquivado por unanimidade pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.
O livro de Hitler na Assembleia
Em 2023, outro episódio colocou Catan no centro do debate político nacional.
Durante uma sessão da Assembleia Legislativa, o deputado levou à tribuna um exemplar de “Mein Kampf”, livro escrito por Adolf Hitler.
A atitude provocou críticas e acusações de apologia ao nazismo.
Catan negou que estivesse defendendo o regime nazista e afirmou que utilizava o livro para fazer uma crítica ao autoritarismo e mostrar como o Parlamento alemão foi destruído durante a ascensão de Hitler.
A repercussão levou a pedidos de investigação.
O episódio, entretanto, não resultou em condenação criminal por apologia ao nazismo.
Críticas envolvendo uma professora trans
Em 2025, Catan voltou a provocar reação de adversários políticos após criticar uma professora trans de Campo Grande durante uma sessão da Assembleia.
O deputado exibiu um vídeo da professora e utilizou pronomes masculinos para se referir a ela.
O episódio gerou acusações de transfobia e manifestações de parlamentares contrários à postura adotada pelo deputado.
O caso ampliou a imagem de Catan como um parlamentar de discurso conservador e confrontador em temas relacionados a costumes.
Inteligência artificial entra na campanha
Em 2026, uma nova frente de conflito surgiu com a utilização de inteligência artificial na pré-campanha.
Catan produziu a série “Os Intocáveis MS”, formada por vídeos satíricos e críticas a adversários políticos, publicados no Instagram.
Parte das publicações foi questionada na Justiça Eleitoral por causa da utilização de inteligência artificial e do impulsionamento de conteúdo de caráter negativo.
Decisões da Justiça Eleitoral determinaram a retirada de algumas publicações e aplicaram multas ao candidato.
As penalidades acumuladas em diferentes processos ultrapassaram R$ 60 mil.
A defesa de Catan argumentou que os conteúdos eram sátiras políticas protegidas pela liberdade de expressão.
O caso se tornou um dos principais pontos jurídicos da campanha de 2026, especialmente porque envolve uma questão que deve ganhar importância nas eleições: os limites para utilização de inteligência artificial em propaganda eleitoral.
Até o momento, as decisões citadas resultaram em multas e retirada de conteúdos, e não em cassação da candidatura.
Oposição a Riedel é uma das marcas do mandato
Dentro da Assembleia Legislativa, Catan se consolidou como um dos principais críticos do governo Eduardo Riedel.
O deputado questiona frequentemente a política de incentivos fiscais, os gastos públicos, empréstimos, contratos de publicidade, investimentos, situação financeira do Estado e medidas adotadas pelo Executivo.
Em 2026, com a definição de sua candidatura ao governo, as críticas passaram a ganhar ainda mais peso eleitoral.
Catan tenta transformar o discurso de oposição em uma plataforma de campanha e se apresenta como alternativa ao modelo de gestão adotado por Riedel.
Entre as propostas apresentadas pelo candidato estão a revisão dos incentivos fiscais, mudanças no Fundersul, simplificação de licenças, redução da burocracia, valorização dos servidores e maior participação da iniciativa privada.
Atuação judicial contra órgãos e entidades
A atuação de Catan não ficou restrita à tribuna da Assembleia.
O deputado também recorreu à Justiça para questionar decisões do poder público e de entidades que recebem recursos públicos.
Um dos casos envolve a Cassems, plano de saúde dos servidores estaduais. Catan questionou o aumento da contribuição dos cônjuges dos beneficiários, que passou de R$ 35 para R$ 450.
A ação popular apresentada pelo parlamentar foi extinta pela Justiça, que considerou inadequado o instrumento utilizado para questionar a cobrança.
Outro episódio envolveu a Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Mato Grosso do Sul (Agems). Catan ingressou com ação contra a recondução de Carlos Alberto de Assis à presidência da agência.
A Justiça determinou o afastamento do dirigente ao considerar que requisitos previstos na legislação não haviam sido cumpridos.
O desafio eleitoral de 2026
A candidatura de Catan parte de uma base política construída ao longo de uma década.
Ele saiu de uma derrota na eleição para vereador, conquistou uma cadeira na Assembleia, tentou a Prefeitura de Campo Grande e voltou ao Legislativo com uma votação mais que duas vezes superior à primeira eleição estadual.
Agora, pela primeira vez, disputa diretamente o comando de Mato Grosso do Sul.
Em pesquisa Real Time Big Data divulgada em agosto, Catan apareceu com 12% das intenções de voto, atrás de Eduardo Riedel (PP) e Fábio Trad (PT).
O resultado mostra que o candidato conseguiu ocupar um espaço relevante na disputa, mas também evidencia a distância que ainda precisa percorrer para alcançar os líderes da corrida eleitoral.
Sua estratégia passa pela consolidação do eleitorado conservador e pela tentativa de ampliar o apoio para além de sua base tradicional.
Entre a força nas redes e o histórico de confrontos
A candidatura de João Henrique Catan reúne dois elementos que devem marcar sua campanha: uma identidade política bastante definida e um histórico de confrontos que o tornou conhecido dentro e fora da Assembleia Legislativa.
De um lado, o candidato possui uma base formada por eleitores de direita, forte presença digital, discurso liberal na economia e uma atuação de oposição que lhe garantiu visibilidade.
De outro, carrega uma sequência de episódios controversos que incluem o uso de arma durante sessão parlamentar, participação em manifestações após a eleição de 2022, o episódio envolvendo “Mein Kampf”, críticas relacionadas a uma professora trans e recentes disputas na Justiça Eleitoral por conteúdos produzidos com inteligência artificial.
A candidatura pelo Novo coloca Catan diante do maior desafio eleitoral de sua carreira: transformar a popularidade construída principalmente no campo conservador em uma votação estadual capaz de levá-lo a uma posição competitiva na disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul.


















