Famílias relatam agressões, falta de higiene, crianças obrigadas a comer e uso de spray de vinagre no rosto; Polícia Civil e Ministério Público investigam o caso
Uma creche particular de Nova Andradina, a 298 quilômetros de Campo Grande, suspendeu temporariamente as atividades após denúncias de possíveis maus-tratos contra crianças. Os relatos apresentados por mães e por uma ex-funcionária envolvem supostas agressões físicas, problemas de higiene, crianças dormindo no chão, banhos com água fria, alimentação forçada e o uso de spray de vinagre no rosto como forma de punição.
As denúncias chegaram ao Conselho Tutelar na sexta-feira (18). O órgão acionou a Polícia Militar e encaminhou o caso para a Polícia Civil, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA). A Polícia Civil passou a ouvir pessoas que tiveram contato com o espaço e pediu que outras famílias apresentem informações, fotos, vídeos e outros materiais que possam ajudar na investigação.
O caso ganhou repercussão depois que relatos e imagens passaram a circular entre moradores do município e nas redes sociais. Registros divulgados mostram crianças deitadas sobre placas de EVA ou diretamente no chão, além de equipamentos de descanso em condições questionadas.
Mães relatam mudanças no comportamento das crianças
Uma das mães ouvidas relatou que o filho, hoje com 9 anos, teria sido agredido por outra criança dentro do espaço em setembro de 2025. Na época, ela não registrou boletim de ocorrência, mas guardou uma fotografia em que o menino aparece com o olho roxo.
Segundo a mãe, o filho contou que várias crianças permaneciam reunidas em um cômodo da casa sem supervisão constante. Depois do episódio, ele não quis mais voltar ao local.
A filha mais nova, porém, continuou frequentando o espaço por algum tempo. A mãe afirma que passou a perceber mudanças no comportamento da menina, que antes era ativa e começou a chegar em casa sonolenta. Depois, segundo ela, a criança passou a chorar ao chegar à frente da creche.
“Toda vez que eu parava o carro na frente da creche, ela começava a chorar desesperadamente, não queria descer do carro. E aí eu comecei a observar, comecei a achar estranho, e aí eu tive que me adequar e não levar ela mais lá”.
De acordo com a mãe, a menina ainda demonstra medo quando passa em frente ao local.
“Hoje a minha filha já é maiorzinha, ela vai fazer três anos agora em outubro, e mesmo assim, mesmo depois de tanto tempo, já quase um ano, toda vez que eu passo perto, ou que ela vê a fachada da creche, ela chora”.
A mesma mãe também relatou problemas relacionados à higiene e afirmou que crianças de idades diferentes tomavam banho juntas.
“Ele falou que é coisa tipo de quatro, cinco crianças tomando banho ao mesmo tempo, criança maior com criança menor, tipo criança de sete, cinco anos com criança menor de dois, três anos”.
Os relatos constam no material utilizado pela reportagem e são parte das informações que deverão ser confrontadas pelas autoridades durante a investigação.
Ex-funcionária relata condições de higiene
Uma ex-funcionária afirmou ter trabalhado no espaço por poucos dias e disse ter se surpreendido com as condições encontradas.
Segundo ela, havia carrinhos com restos de comida e vômito, tatames sujos, banheiro sem condições adequadas de higiene e berços quebrados ou rasgados, além de forte cheiro de urina.
A ex-funcionária também relatou que toalhas de banho seriam compartilhadas pelas crianças e que não teriam sido lavadas durante o período em que trabalhou no local.
Outro problema apontado foi a falta de estrutura para o horário de descanso. Segundo o relato, não havia colchonetes, cobertores e travesseiros suficientes, e algumas crianças dormiam diretamente no chão, sobre tatames.
A ex-funcionária afirmou ainda que o spray de vinagre era utilizado como forma de punição, inclusive com crianças autistas. “Quando não dormiam, era borrifado um spray de vinagre em seus rostos, principalmente nos rostos das crianças autistas”.
Ela disse ter feito fotos e vídeos de parte das situações e entregado o material à reportagem. Em um dos vídeos, segundo o relato, seria possível observar a proprietária borrifando um produto no rosto de uma criança. O conteúdo deverá ser analisado pelas autoridades responsáveis pela investigação.
Denúncias também citam alimentação forçada e agressões
A ex-funcionária relatou ainda situações envolvendo crianças que faziam xixi ou cocô na roupa. Segundo ela, havia ameaças de banho com água fria como forma de punição.
Ela também afirmou que algumas crianças eram obrigadas a comer toda a comida colocada no prato. “Tinham que comer toda a comida que estava no prato e, quando não comiam, ela colocava a comida em suas bocas, segurando seus rostos de forma bruta. Algumas chegavam a ter ânsia e até vomitar”.
Segundo a ex-funcionária, também teriam ocorrido agressões físicas, incluindo tapas na cabeça, puxões de cabelo e apertões nos braços. Ela afirmou ainda que crianças consideradas desobedientes eram colocadas sozinhas em um quarto.
As acusações, no entanto, ainda precisam ser confirmadas pela investigação policial. Até o momento, não há conclusão oficial sobre a ocorrência dos crimes relatados.
Outra família também relata suspeitas
Outra mãe afirmou que a filha, atualmente com 3 anos, frequentava o espaço desde os 5 meses de idade. Ela contou que já havia percebido alguns machucados na criança, mas inicialmente acreditava que poderiam ter sido provocados por outras crianças.
Segundo a mãe, a desconfiança aumentou depois que uma pessoa que trabalhava no local teria relatado a uma amiga dela supostas agressões contra a menina.
Entre os relatos recebidos pela família está o de que a criança teria machucado os dedos depois que uma funcionária teria fechado uma porta sobre a mão dela.
A mãe disse ter ficado abalada ao tomar conhecimento das informações e afirmou que se sente culpada por não ter percebido antes o que poderia estar acontecendo.
Polícia pede que outras famílias procurem a delegacia
A Polícia Civil informou que tomou conhecimento das denúncias por meio da repercussão do caso na imprensa. Até o momento, uma mãe compareceu à delegacia, foi formalmente identificada e prestou esclarecimentos.
A corporação pediu que outros pais, responsáveis ou pessoas que tenham informações sobre o que ocorria no espaço procurem a Delegacia de Polícia de Nova Andradina para prestar depoimento.
A polícia também solicitou que sejam apresentados registros que possam contribuir com a apuração, como fotos, vídeos e outros materiais relacionados ao estabelecimento.
A orientação é importante porque os investigadores precisam confrontar os diferentes relatos com depoimentos, documentos, imagens e demais elementos de prova antes de chegar a qualquer conclusão sobre eventuais responsabilidades.
Conselho Tutelar acionou órgãos de investigação
O Conselho Tutelar recebeu diferentes denúncias na sexta-feira (18) e foi até o espaço acompanhado de policiais militares. A Polícia Militar confirmou a presença no local, mas informou que, durante a averiguação, não encontrou irregularidade aparente.
Depois da visita, as informações foram encaminhadas à Polícia Civil, ao Ministério Público e ao CMDCA.
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul acompanha o caso em duas frentes. Na área criminal, a 3ª Promotoria de Justiça acompanha a investigação conduzida pela Polícia Civil. Já a 2ª Promotoria de Justiça instaurou procedimento próprio para apurar possíveis violações aos direitos das crianças e adotar as medidas cabíveis.
Em nota, o MPMS informou que está acompanhando as investigações e analisando eventuais responsabilidades nas duas áreas.
Prefeitura diz que espaço é particular
A Prefeitura de Nova Andradina afirmou que o estabelecimento não possui vínculo com o município e não integra a Rede Municipal de Ensino.
Segundo a administração, o local funciona mediante contratação direta pelas famílias para cuidado e permanência temporária de crianças. Por isso, de acordo com a prefeitura, não está submetido ao acompanhamento pedagógico da Secretaria Municipal de Educação ou do Conselho Municipal de Educação nos mesmos moldes das instituições de ensino.
O município afirmou ainda que, assim que tomou conhecimento das denúncias, os órgãos competentes foram acionados e adotaram as providências cabíveis.
Espaço suspende atividades
A proprietária do estabelecimento informou, por meio do advogado Reinaldo Oliveira, que decidiu suspender temporariamente as atividades e que está à disposição das autoridades para esclarecer os fatos.
Em nota, o Espaço Tia Lu afirmou que sempre pautou suas atividades pelo respeito, cuidado e dignidade das crianças atendidas. A instituição disse ainda que pretende colaborar com as autoridades.
Como as denúncias envolvem crianças e estão sob investigação, o espaço afirmou que não comentará publicamente detalhes dos relatos para preservar a privacidade dos envolvidos.
A apuração segue em andamento. Até o momento, as autoridades não divulgaram conclusão sobre as denúncias, e os relatos apresentados pelas famílias e pela ex-funcionária ainda serão confrontados com as demais provas reunidas pela Polícia Civil.
Foto: Magnific


















