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Investigação aponta que duas “panelas” se uniram para acompanhar a morte de Lívia; novos envolvidos foram identificados a partir de celulares apreendidos na primeira fase

A Polícia Civil identificou seis adolescentes que, segundo a investigação, ocupavam posições de liderança em grupos virtuais envolvidos na morte de Lívia, de 13 anos, encontrada morta em casa em Naviraí, no dia 22 de julho. Os novos investigados foram apreendidos durante a segunda fase da Operação Lívia, deflagrada nesta semana, e, conforme a polícia, tinham participação direta nas ações de violência e coerção que antecederam a morte da adolescente.

Os detalhes da investigação foram apresentados nesta quinta-feira (17), em coletiva na Delegacia-Geral da Polícia Civil, em Campo Grande. Segundo a Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), os seis adolescentes foram localizados no Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia.

A segunda fase foi desencadeada a partir da análise dos celulares e outros dispositivos apreendidos na primeira etapa da operação. Conforme o diretor do Departamento de Polícia Especializada, Ivan Barreira, a extração dos dados permitiu identificar novos envolvidos no caso.

“Essa segunda fase da operação Lívia se deu em razão da extração dos dados dos celulares apreendidos na primeira fase da operação. Foi possível verificar que mais seis adolescentes participaram desse crime.”

Segundo Barreira, os novos investigados tinham participação considerada relevante dentro da estrutura dos grupos. “Eles tinham uma certa liderança sobre os demais, exerciam uma certa liderança nessa organização criminosa.”

Novos apreendidos eram donos das “panelas”

Segundo a delegada titular da Depca, Anne Karine Trevizan, a análise dos materiais apreendidos na primeira fase levou à identificação dos seis adolescentes. Nas oitivas, a polícia confirmou a participação deles na morte de Lívia e apontou que todos ocupavam posições de liderança nas comunidades virtuais.

“Durante as oitivas, o interrogatório dos adolescentes, nós conseguimos verificar realmente a participação deles durante a morte da Lívia, inclusive todos eles sendo chefes, sendo donos dessas comunidades.”

Chamados de “panelas” pelos próprios integrantes, os grupos funcionavam em diferentes plataformas digitais e tinham a violência como elemento central.

“Essas comunidades, que eles autodenominam de panelas, são grupos de forma aberta em algumas plataformas digitais que muitas pessoas podem ter acesso a elas e a finalidade deles é o ato de niilismo extremo, extremista mesmo. É a violência digital dentro do ambiente digital.”

Segundo Anne Karine, os grupos tinham uma hierarquia informal e os integrantes ganhavam posições conforme a violência praticada. “Quanto mais atos de violência eles praticavam dentro dessa panela, mais eles subiam de cargo.”

Questionada sobre o comportamento dos adolescentes durante a investigação, a delegada afirmou que eles não demonstraram arrependimento pelos atos atribuídos a eles. Segundo Anne Karine, o que chamou atenção foi a satisfação demonstrada diante da violência praticada e do reconhecimento conquistado dentro dos grupos.

A delegada afirmou ainda que a finalidade não era obter dinheiro, mas a própria prática da violência, definida por ela como “satisfação da violência pela violência”.

Duas “panelas” acompanharam a morte de Lívia

Uma das informações apresentadas pela polícia foi que mais de uma comunidade participou do episódio que terminou com a morte da adolescente. “Nós verificamos também que não existe uma única panela, existem várias panelas e no momento da morte da Lívia, duas se uniram para formar uma plateia em que pudessem assistir ao vivo a morte dela.”

Segundo a investigação, diferentes plataformas foram utilizadas pelos integrantes. O vídeo da morte foi transmitido pelo Discord e pelo Instagram. Já o Zangi era utilizado para comandos, ameaças e coerção. O Telegram também aparece entre as plataformas usadas pelo grupo.

A polícia afirma que os seis adolescentes identificados na segunda fase tinham funções de liderança, podendo participar de decisões sobre os chamados “eventos”, como a escolha da data, dos participantes e da vítima.

A investigação também apontou que os integrantes não necessariamente se conheciam pessoalmente. Segundo a delegada, eles podiam manter contato apenas por meio de nomes de usuários, sem saber a identidade ou a cidade onde os demais integrantes moravam.

Aproximação começava nas redes sociais

De acordo com a Depca, o recrutamento das vítimas começava em redes sociais, chats e outras plataformas abertas. Os integrantes buscavam adolescentes que apresentassem algum tipo de vulnerabilidade e se aproximavam deles utilizando perfis falsos ou assumindo a identidade de pessoas com quem as vítimas pudessem criar vínculos.

A partir da aproximação, os investigados buscavam informações sobre a rotina, a família e outros aspectos da vida das vítimas. Esses dados eram posteriormente utilizados para ameaças e coerção.

No caso de Lívia, uma adolescente que mantinha contato virtual com a vítima teria conquistado sua confiança e obtido informações que posteriormente foram utilizadas pelo grupo.

Segundo Anne Karine, não houve uma única ameaça determinante, mas uma série de ameaças utilizadas para pressionar a adolescente. “Eram muitas ameaças, não teve uma mais forte, eram ameaças todas muito fortes contra ela. Ela realmente foi coagida.”

A delegada afirmou que o conteúdo das ameaças não pode ser divulgado em razão da proteção da vítima adolescente e do andamento da investigação.

Polícia identificou outras vítimas

A investigação também encontrou indícios de outras vítimas, principalmente meninas, que teriam sido submetidas a práticas de violência e automutilação pelos grupos. “Existem outras vítimas, principalmente meninas, que são vítimas desses grupos.”

Segundo a polícia, algumas adolescentes eram pressionadas a praticar atos violentos contra si mesmas ou a cumprir outras determinações para permanecer nas comunidades e avançar na hierarquia.

A Polícia Civil, no entanto, ainda não tem um número fechado de vítimas. Os investigadores ainda analisam os aparelhos apreendidos e afirmam que possíveis vítimas de outros estados serão encaminhadas às autoridades responsáveis pelas respectivas investigações.

Pais devem acompanhar rotina digital dos filhos

Durante a coletiva, Anne Karine também chamou atenção para a responsabilidade dos pais e responsáveis no acompanhamento da vida digital de crianças e adolescentes.

Segundo a delegada, parte dos adolescentes investigados apresentava uma rotina marcada pelo isolamento social, pelo uso prolongado de aparelhos eletrônicos e por atividades realizadas durante a madrugada. Ela ressaltou que os responsáveis precisam conhecer os ambientes virtuais frequentados pelos filhos. “A família precisa saber o que seu filho tá consumindo no ambiente virtual.”

A orientação inclui acompanhar os aplicativos utilizados, verificar com quem os adolescentes conversam e observar a participação em chats, inclusive em jogos on-line.

A delegada também destacou que os adolescentes podem estabelecer vínculos com pessoas que não conhecem pessoalmente e que, no ambiente virtual, nem sempre é possível saber quem está por trás de um perfil. “Antes se pensava que o perigo estava na rua. Hoje o perigo para os adolescentes está dentro do espaço virtual.”

Investigação continua

Os seis adolescentes apreendidos na segunda fase têm entre 13 e 17 anos e permanecem internados, segundo a Polícia Civil. A internação provisória pode durar até 45 dias, conforme as regras aplicáveis a adolescentes envolvidos em atos infracionais.

A primeira fase da Operação Lívia resultou na apreensão de cinco adolescentes e na prisão de um adulto. Com os seis novos adolescentes identificados na segunda etapa, 12 pessoas foram alcançadas pela investigação até o momento.

A polícia ainda analisa os dispositivos apreendidos para verificar se há outros envolvidos. As funções individuais dos investigados também continuam sendo detalhadas.

“Eu espero que a gente dê sequência nessas investigações. A doutora Anne vai continuar o trabalho das extrações dos dados do material apreendido para ver se tem outros participantes”, afirmou Ivan Barreira.

A investigação permanece concentrada no caso de Lívia, mas, caso sejam identificados elementos relacionados a vítimas ou crimes ocorridos em outros estados, o material será encaminhado às autoridades responsáveis.

Entenda o caso Lívia:

Lívia, de 13 anos, foi encontrada morta em casa, em Naviraí, no dia 22 de julho. Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio, mas a investigação da Polícia Civil apontou que a adolescente havia sido atraída para grupos virtuais e submetida a ameaças e coerção. Segundo a polícia, integrantes dessas comunidades usaram informações sobre a família, a rotina e as vulnerabilidades da menina para pressioná-la a cumprir determinações do grupo.

As investigações identificaram comunidades virtuais chamadas de “panelas”, nas quais adolescentes eram recrutados e submetidos a desafios violentos para conquistar status entre os integrantes. No caso de Lívia, duas dessas comunidades teriam se unido para acompanhar sua morte. A primeira fase da Operação Lívia ocorreu em 4 de agosto, com cinco adolescentes apreendidos e um adulto preso. A análise dos aparelhos recolhidos nessa etapa levou a polícia aos seis adolescentes apreendidos na segunda fase.

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