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Nos últimos meses, tornou-se comum encontrar empresas anunciando vagas para Chief AI Officer, Head de Inteligência Artificial ou executivos responsáveis por acelerar a adoção da IA dentro das organizações. À primeira vista, pode parecer apenas mais uma resposta do mercado ao avanço tecnológico, semelhante ao que aconteceu com a transformação digital ou com a explosão do comércio eletrônico. No entanto, olhar apenas para o surgimento desses cargos talvez seja um erro de interpretação. A verdadeira mudança não está na criação de novas funções, mas na percepção de que as competências tradicionais de liderança já não são suficientes para responder às decisões que a inteligência artificial começa a impor.

Essa mudança aparece de forma bastante clara no Future of Jobs Report 2025, publicado pelo Fórum Econômico Mundial. O estudo ouviu mais de mil empresas, responsáveis por aproximadamente 14 milhões de trabalhadores em 55 economias, e concluiu que a inteligência artificial será um dos principais motores de transformação do mercado de trabalho até 2030. Curiosamente, porém, as competências que mais ganham importância não são programação, ciência de dados ou desenvolvimento de algoritmos. Pensamento analítico, aprendizagem contínua, resiliência, influência social e liderança ocupam as primeiras posições entre as habilidades consideradas estratégicas pelos empregadores. Em outras palavras, quanto maior a presença da inteligência artificial nas organizações, maior tende a ser o valor das capacidades exclusivamente humanas.

Os números divulgados pela PwC reforçam essa percepção sob outra perspectiva. O Global AI Jobs Barometer 2025, construído a partir da análise de quase um bilhão de anúncios de emprego e milhares de demonstrações financeiras de empresas ao redor do mundo, mostra que as competências exigidas nas profissões mais expostas à inteligência artificial estão mudando 66% mais rapidamente do que nas demais ocupações. O levantamento revela ainda que os setores mais expostos à IA apresentam crescimento de receita por colaborador três vezes superior ao dos setores menos expostos, enquanto profissionais com competências relacionadas à tecnologia recebem, em média, remunerações 56% maiores. Esses números sugerem que o diferencial competitivo deixou de estar apenas na adoção da tecnologia e passou a depender da capacidade das organizações de incorporá-la às suas decisões.

Acompanho esse movimento desde 2023, quando passei a trabalhar diretamente com inteligência artificial aplicada à comunicação e aos negócios. Naquele momento, praticamente todas as conversas giravam em torno das ferramentas disponíveis. O interesse estava concentrado em descobrir qual modelo era mais eficiente, qual plataforma oferecia melhores recursos ou como elaborar prompts mais sofisticados. Pouco tempo depois, percebi que essas perguntas começaram a desaparecer. No lugar delas surgiram dúvidas muito mais complexas, relacionadas à governança, aos limites da automação, à responsabilidade sobre decisões tomadas com apoio de algoritmos e, principalmente, ao papel da liderança em um ambiente onde humanos e sistemas inteligentes passam a dividir o mesmo processo decisório.

Essa talvez seja a principal transformação provocada pela inteligência artificial e, paradoxalmente, uma das menos discutidas. Durante décadas, organizações promoveram profissionais porque eles dominavam uma determinada área do conhecimento. O melhor engenheiro tornava-se gerente de engenharia, o melhor vendedor assumia a diretoria comercial e o melhor analista financeiro acabava conduzindo equipes inteiras. A lógica sempre foi relativamente simples: quem conhecia profundamente uma especialidade estaria preparado para liderar. A inteligência artificial começa a desmontar esse modelo porque o conhecimento técnico, isoladamente, deixa de ser suficiente. O líder do futuro precisará compreender tecnologia sem necessariamente ser um especialista em programação, interpretar dados sem abrir mão do julgamento humano e integrar inovação, estratégia, pessoas e governança em decisões cada vez mais complexas.

Talvez seja justamente por isso que tantas empresas estejam criando novos cargos ligados à inteligência artificial. A discussão, entretanto, não deveria estar concentrada no nome dessas funções, mas na competência que elas procuram representar. A história mostra que grandes revoluções tecnológicas raramente consolidam departamentos permanentes dedicados à própria tecnologia. Ninguém fala hoje em um diretor da eletricidade ou em um vice-presidente da internet, embora ambas tenham transformado profundamente a forma como empresas produzem, vendem e competem. Com o tempo, essas tecnologias deixaram de ser iniciativas específicas para se tornarem parte inseparável da operação. Tudo indica que a inteligência artificial seguirá exatamente o mesmo caminho.

Por isso, acredito que o cargo mais importante da próxima década talvez ainda nem exista. Não porque as organizações deixarão de contratar especialistas em IA, mas porque a verdadeira transformação acontecerá quando essa competência deixar de pertencer a uma única área e passar a ser uma exigência de toda liderança. O executivo mais valorizado dos próximos anos provavelmente não será aquele que souber utilizar a melhor ferramenta de inteligência artificial, mas aquele capaz de decidir quando utilizá-la, quando não utilizá-la e, sobretudo, como garantir que ela produza valor sem comprometer aquilo que nenhuma máquina consegue substituir: o julgamento humano.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Gustavo Vicente

Gustavo Vicente

Atua há mais de 13 anos com Comunicação Institucional e Reputação. Jornalista, escreve sobre o impacto real da Inteligência Artificial na comunicação, na tomada de decisão e na gestão de crises. Defende o uso da tecnologia com método, responsabilidade e critério institucional. | @gustavo.nv

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