Ex-senador e ex-ministro de Minas e Energia tenta pela terceira vez chegar ao comando de Mato Grosso do Sul; candidato do PRD aposta na experiência administrativa, mas enfrenta rejeição elevada
Delcídio do Amaral Gomez, 71, volta em 2026 à disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul em uma tentativa de reconstruir uma carreira política que já esteve entre as mais influentes do estado e do país. Ex-senador por dois mandatos, ex-ministro de Minas e Energia e ex-diretor da Petrobras, ele concorre pelo Partido Renovação Democrática (PRD) e tenta, pela terceira vez, chegar ao comando do Executivo estadual.
A candidatura ocorre dez anos depois de Delcídio perder o mandato de senador, em um dos episódios mais turbulentos da política brasileira recente. A trajetória do candidato reúne ascensão no setor energético, passagem pelo governo federal, duas eleições para o Senado, liderança do governo Dilma Rousseff no Congresso, prisão no âmbito da Operação Lava Jato, delação premiada, cassação por quebra de decoro e uma sequência de tentativas frustradas de retorno às urnas.
Quem é o candidato?
Natural de Corumbá, Delcídio nasceu em 8 de fevereiro de 1955. Engenheiro eletricista formado pelo Instituto Mauá de Tecnologia, em São Paulo, iniciou a carreira longe dos palanques, no setor de energia. Trabalhou na construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, passou dois anos na Holanda trabalhando para a Shell e ocupou cargos de direção em empresas do setor elétrico.
A experiência técnica abriu caminho para sua entrada na administração pública federal. Em 1991, Delcídio assumiu a direção da Eletrosul. Em 1994, chegou ao Ministério de Minas e Energia, primeiro como secretário-executivo e depois como ministro, durante o governo Itamar Franco, entre setembro daquele ano e janeiro de 1995. Também presidiu o Conselho de Administração da então Companhia Vale do Rio Doce.
Mais tarde, no governo Fernando Henrique Cardoso, voltou ao setor energético e ocupou a Diretoria de Gás e Energia da Petrobras entre 2000 e 2001. A passagem pela estatal ganharia peso político anos depois, quando a Lava Jato atingiu dirigentes da empresa e nomes com os quais Delcídio havia trabalhado.
Da área energética à política de Mato Grosso do Sul
A entrada definitiva de Delcídio na política sul-mato-grossense ocorreu no início dos anos 2000, quando se aproximou do então governador Zeca do PT. Em 2001, assumiu a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Habitação.
No ano seguinte, decidiu disputar uma vaga no Senado pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Em 2002, recebeu 496.879 votos, equivalentes a 25,84% dos votos, e foi eleito senador. Tomou posse em 1º de fevereiro de 2003.
No Congresso, a experiência acumulada no setor energético passou a ser uma das marcas de sua atuação. Delcídio ganhou espaço em temas relacionados à infraestrutura, energia, economia e desenvolvimento.
Em 2005, assumiu a presidência da CPMI dos Correios, criada no contexto do escândalo do mensalão. A comissão colocou o senador no centro da crise política que atingiu o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ele também ocupou posições de liderança no Senado e ganhou trânsito entre diferentes grupos políticos.
Primeira tentativa de governar MS terminou no primeiro turno
Em 2006, quatro anos depois de chegar ao Senado, Delcídio decidiu disputar o Governo de Mato Grosso do Sul pela primeira vez.
Candidato pelo PT, enfrentou André Puccinelli, do então Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Puccinelli venceu com 726.806 votos, ou 61,34%, enquanto Delcídio recebeu 450.747 votos, equivalentes a 38,04%.
A derrota aconteceu ainda no primeiro turno.
Delcídio retornou ao Senado em 2010 e alcançou o que seria o auge de sua força eleitoral. Foi reeleito com 826.848 votos, aproximadamente 34,9% dos votos válidos.
Em comparação com os 496.879 votos obtidos oito anos antes, o crescimento foi de aproximadamente 66%.
Em 2011, assumiu a presidência da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, uma das posições de maior peso na Casa. O colegiado analisava temas relacionados à economia, finanças, tributos, orçamento e crédito.
2014: liderança no primeiro turno, derrota no segundo
A segunda tentativa de Delcídio de chegar ao Governo de Mato Grosso do Sul ocorreu em 2014.
Novamente pelo PT, tendo Londres Machado como candidato a vice, Delcídio terminou o primeiro turno na liderança, com 567.331 votos, ou 42,92%. Reinaldo Azambuja, então pelo PSDB, ficou em segundo, com 516.744 votos, ou 39,09%.
A diferença era de cerca de 50 mil votos, levando os dois candidatos ao segundo turno.
Na segunda etapa, porém, Azambuja virou o resultado. Obteve 741.516 votos, contra 598.461 de Delcídio. O tucano venceu com 55,34%, enquanto o petista ficou com 44,66%.
Foi a segunda tentativa de Delcídio de governar o estado e a segunda derrota.
Do auge nacional à prisão
Em 2015, Delcídio chegou ao ponto mais alto de sua carreira política. A presidenta Dilma Rousseff o escolheu como líder do governo no Senado, posição que o colocou como principal articulador da Presidência dentro da Casa.
Meses depois, porém, sua trajetória sofreu uma ruptura.
Em 25 de novembro de 2015, Delcídio foi preso pela Polícia Federal por determinação do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal. Ele se tornou o primeiro senador brasileiro preso no exercício do mandato.
A prisão ocorreu no contexto da Operação Lava Jato e estava relacionada à suspeita de tentativa de impedir que Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras, firmasse um acordo de colaboração com a Justiça.
A investigação ganhou repercussão depois da divulgação de uma gravação de conversa envolvendo Delcídio e Bernardo Cerveró, filho de Nestor. Segundo a documentação apresentada ao Senado, a conversa tratava de possíveis mecanismos de ajuda à família de Cerveró e de estratégias para evitar a colaboração do ex-diretor.
A prisão preventiva foi mantida pelo Senado por 59 votos favoráveis, 13 contrários e uma abstenção. Delcídio permaneceu preso por mais de 80 dias antes de deixar a prisão preventiva.
O episódio encerrou sua relação com o PT. O político deixou a legenda em 2016, depois de ter sido eleito duas vezes senador pelo partido e de ter chegado à liderança do governo Dilma.
Delação e cassação do mandato
Depois da prisão, Delcídio firmou acordo de colaboração premiada com o Ministério Público Federal, homologado pelo Supremo Tribunal Federal. Em seus depoimentos, apresentou informações sobre diferentes episódios envolvendo políticos, partidos, empresas e governos.
As declarações atingiram inclusive integrantes do próprio PT e nomes ligados às administrações de Lula e Dilma. O conteúdo, entretanto, deve ser tratado como declarações de um colaborador: delação premiada é meio de obtenção de prova, e a palavra do colaborador, isoladamente, não equivale à comprovação das acusações feitas contra terceiros.
O episódio envolvendo Nestor Cerveró também levou ao processo político que terminou com a cassação do mandato.
Em 10 de maio de 2016, o Senado aprovou a perda do mandato por quebra de decoro parlamentar por 74 votos a zero, com uma abstenção. Delcídio tornou-se, segundo os registros da época, o terceiro senador cassado na história da Casa.
A cassação interrompeu um mandato que deveria terminar em 2019. A medida teve natureza político-disciplinar e não deve ser confundida automaticamente com uma condenação criminal.
Absolvição em processo criminal
A situação judicial de Delcídio exige distinção entre os diferentes processos que envolveram seu nome.
Ele foi denunciado criminalmente por obstrução da Justiça no caso relacionado a Cerveró, mas posteriormente foi absolvido pela Justiça Federal. A absolvição ocorreu em 2018.
Assim, o histórico não pode ser resumido como uma condenação criminal por obstrução. Delcídio foi preso preventivamente sob suspeita, teve o mandato cassado por quebra de decoro, respondeu à ação penal e posteriormente foi absolvido nesse processo criminal.
Outro episódio judicial surgiu a partir de declarações feitas por Delcídio em sua colaboração premiada envolvendo o então ex-presidente Lula. Lula negou as acusações e, em 2023, o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve decisão que condenou Delcídio ao pagamento de R$ 10 mil por danos morais a Lula.
Trata-se de uma ação de natureza cível, diferente do processo criminal relacionado à obstrução da Justiça.
Tentativa de reconstrução eleitoral
Depois da cassação, Delcídio tentou reconstruir sua carreira política.
Em 2018, filiado ao PTC, voltou a disputar uma vaga no Senado. Recebeu 109.927 votos, cerca de 4,76%, e não foi eleito.
A comparação com 2010 mostra a dimensão da mudança eleitoral. O candidato havia recebido 826.848 votos quando foi reeleito senador; oito anos depois, teve 109.927. A redução foi de aproximadamente 86,7%.
Em 2019, filiou-se ao PTB e assumiu o comando estadual da legenda. O partido chegou a trabalhar com a possibilidade de lançá-lo à Prefeitura de Campo Grande.
No mesmo período, o Senado concedeu a Delcídio aposentadoria parlamentar proporcional. O valor divulgado à época era de aproximadamente R$ 11,5 mil mensais.
Em 2022, tentou retornar ao Congresso como candidato a deputado federal pelo PTB. A candidatura foi deferida pela Justiça Eleitoral, mas ele não conseguiu se eleger.
Em 2024, nova derrota em Corumbá
A tentativa seguinte ocorreu na cidade natal.
Em 2024, Delcídio disputou a Prefeitura de Corumbá pelo PRD, tendo Luciano Costa como vice. Terminou em quarto lugar, com aproximadamente 10% dos votos.
O resultado mostrou que o reconhecimento do nome construído durante décadas na política estadual não havia se convertido, naquele momento, em uma votação competitiva na cidade onde nasceu.
Patrimônio declarado
A evolução das declarações de bens também faz parte do histórico eleitoral de Delcídio.
Em 2022, quando disputou uma vaga na Câmara dos Deputados, declarou patrimônio de R$ 3.370.608,35. Entre os bens estavam terras, apartamentos, veículo, aplicações financeiras e investimentos. Somente aplicações e investimentos somavam R$ 1,77 milhão.
Em 2024, na eleição para prefeito de Corumbá, a declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral somou R$ 1.596.431,07.
A diferença nominal entre as duas declarações foi de aproximadamente R$ 1,77 milhão, ou 52,6%. A comparação, contudo, deve ser entendida como evolução do patrimônio declarado à Justiça Eleitoral, e não necessariamente como perda econômica de patrimônio, já que os valores declarados e a composição dos ativos podem mudar de uma eleição para outra.
Para as Eleições de 2026, Delcídio apresentou inicialmente, na última sexta-feira (14), uma declaração que apontava R$ 218 milhões em bens. O valor representaria um patrimônio cerca de 64,7 vezes superior ao declarado em 2022. No entanto, no sábado (15), o candidato atualizou a declaração, e o sistema passou a registrar novamente o total de R$ 1.596.431,07.
Terceira tentativa pelo Governo de MS
Em 2026, Delcídio volta ao cargo que já tentou conquistar em 2006 e 2014.
Agora pelo PRD, o ex-senador apresenta-se novamente como candidato ao Governo de Mato Grosso do Sul. A chapa tem Francisca Esmeralda Ajala, também do PRD, como candidata a vice, segundo o levantamento utilizado como base para o perfil.
A candidatura representa uma mudança importante em relação às duas disputas anteriores. Em 2006, Delcídio ainda era uma liderança em ascensão e estava no primeiro mandato de senador. Em 2014, chegava à eleição como um dos principais nomes do PT e terminou o primeiro turno na liderança.
Em 2026, retorna à corrida depois de dez anos sem mandato eletivo e após derrotas nas eleições de 2018, 2022 e 2024.
Experiência é um dos principais ativos políticos
A principal característica que Delcídio leva para a eleição é uma trajetória administrativa extensa.
Antes mesmo de conquistar um mandato, ele passou pela construção de Tucuruí, pela Shell, pela Eletrosul, pelo Ministério de Minas e Energia e pela Petrobras.
Na política, foi secretário estadual, senador por dois mandatos, presidente da CPMI dos Correios, presidente da Comissão de Assuntos Econômicos e líder do governo Dilma no Senado.
Essa experiência faz com que sua campanha possa explorar temas nos quais construiu sua carreira, sobretudo energia, infraestrutura, logística e desenvolvimento econômico.
O material disponível sobre a candidatura, porém, não apresenta até o momento um plano de governo consolidado com um conjunto detalhado de metas para uma eventual administração estadual. O que aparece de forma mais clara é a tentativa de apresentar o projeto político do PRD como uma alternativa de oposição ao governo atual. Em março, Delcídio afirmou que o projeto do partido para o Estado seria de oposição e que a definição da candidatura majoritária dependeria das alianças.
Assim, propostas específicas para áreas como saúde, educação, segurança, infraestrutura, agronegócio, meio ambiente, emprego e contas públicas devem ser atribuídas ao candidato somente quando oficialmente apresentadas ou registradas.
Pesquisas mostram dificuldade para voltar ao primeiro pelotão
Os levantamentos eleitorais de 2026 indicam que Delcídio ainda está distante dos dois nomes que aparecem na frente da corrida pelo Governo de Mato Grosso do Sul.
Na pesquisa RealTime Big Data realizada de 9 a 11 de maio com 1.600 eleitores, Delcídio apareceu com 7% das intenções de voto no cenário estimulado. Eduardo Riedel registrou 43%, Fábio Trad, 21%, e João Henrique Catan, 11%.
O levantamento também mostrou um índice elevado de rejeição a Delcídio: 53%, o maior entre os nomes testados. Riedel tinha 32%, Catan, 29%, e Fábio Trad, 42%. A pesquisa foi registrada no TSE sob o número MS-06412/2026 e tinha margem de erro de 2 pontos percentuais.
Em julho, a sexta pesquisa do Instituto Ranking Brasil Inteligência, realizada entre 29 de junho e 3 de julho em 30 municípios do Estado, mostrou Delcídio com 2,4% na pesquisa espontânea.
No levantamento seguinte, realizado de 17 a 21 de julho com 1.000 eleitores de Campo Grande, Delcídio apareceu com 2% na pesquisa espontânea e 7% no cenário estimulado. Na estimulada, Riedel registrou 36%, Fábio Trad, 18%, Delcídio, 7%, João Henrique Catan, 5,6%, e Renato Gomes, 5%. A margem de erro era de 3,1 pontos percentuais.
Já na pesquisa estadual do Ranking divulgada no fim de julho, Delcídio apareceu com 5% das intenções de voto no cenário estimulado, atrás de Eduardo Riedel, com 46,2%, Fábio Trad, com 21,4%, e João Henrique Catan, com 8%. Renato Gomes registrou 3,4%, enquanto Jefferson Bezerra teve 1% e Lucien Rezende, 0,6%.
Os números, portanto, colocam Delcídio em uma faixa de 5% a 7% nos levantamentos estimulados mais recentes encontrados, enquanto sua lembrança espontânea permanece menor.
O desafio de transformar experiência em voto
A campanha de 2026 apresenta um desafio para Delcídio.
De um lado, ele chega à eleição com uma experiência administrativa incomum. Foi ministro de Estado, diretor da Petrobras, secretário estadual e senador por mais de uma década. Também ocupou posições de comando no Congresso e chegou a liderar o governo federal no Senado.
De outro, sua trajetória está marcada pelo episódio de 2015 e suas consequências políticas. A prisão no exercício do mandato, a saída do PT, a colaboração premiada e a cassação do mandato passaram a integrar a memória política associada ao seu nome.
A sequência eleitoral posterior reforça esse contraste. Depois dos mais de 826 mil votos obtidos em 2010, Delcídio recebeu 109.927 votos na disputa pelo Senado em 2018, não conseguiu retornar ao Congresso em 2022 e terminou em quarto lugar na eleição para prefeito de Corumbá em 2024.
A rejeição elevada identificada na pesquisa RealTime também representa um obstáculo para a candidatura. O índice de 53% registrado em maio mostra que o candidato é conhecido por uma parcela ampla do eleitorado, mas que esse conhecimento não se converte necessariamente em intenção de voto.
Uma candidatura marcada pelo retorno
A eleição de 2026 é a terceira tentativa de Delcídio de governar Mato Grosso do Sul.
A primeira ocorreu em 2006, quando foi derrotado por André Puccinelli ainda no primeiro turno. A segunda foi em 2014, quando liderou a primeira etapa, mas perdeu para Reinaldo Azambuja no segundo turno.
Agora, aos 71 anos, retorna ao cenário estadual após uma década marcada por afastamento do poder, mudanças partidárias, disputas eleitorais e tentativas de reconstrução política.
A candidatura pelo PRD recoloca Delcídio em uma disputa que já fez parte de sua trajetória em dois momentos distintos: primeiro como uma liderança emergente e, depois, como um dos principais nomes da política sul-mato-grossense.
Em 2026, o desafio é diferente. O ex-senador precisa transformar uma longa experiência acumulada no setor público e na política nacional em força eleitoral suficiente para voltar ao segundo turno, algo que, segundo as pesquisas mais recentes disponíveis, ainda aparece como uma tarefa distante.


















