Quarenta graus dentro de salões de teto gótico. Filas de gente com a camisa encharcada tentando entrar em painéis sobre transição energética. Trens atrasados, escolas fechadas por causa do calor, gente perdendo o sono em uma cidade que não tem ar-condicionado porque nunca precisou dele. Essa foi a cena real da London Climate Action Week 2026, realizada de 20 a 28 de junho, o maior evento climático independente da Europa.
A ironia rendeu memes e comentários espirituosos. Mas o que vi ali, dialogando com universidades, fundos tecnológicos e lideranças de mais de trinta países, não foi piada. Foi dado. O calor recorde que atravessou a semana não interrompeu a pauta climática, ele a validou em tempo real, na frente de quem discutia política pública, capital de risco e infraestrutura científica ao mesmo tempo em que suava e aplaudia. Não houve melhor argumento de abertura para nenhuma conferência este ano.
Da era dos compromissos para a era da entrega
O tema oficial da edição de 2026 foi “cooperação em um mundo fragmentado”. Não é uma retórica vazia. Em um cenário de instabilidade geopolítica, insegurança energética e recuo político dos Estados Unidos no tema climático, Londres se consolidou como o espaço onde governos, cidades, universidades e fundos de inovação preferem discutir abertamente o que não conseguem mais discutir em fóruns multilaterais tradicionais. Como resumiu Nick Mabey, fundador do evento, durante a semana, não é mais preciso ter consenso entre quase duzentos países para produzir resultado. Coalizões menores, mais ágeis, avançam peças específicas, cada uma no seu ritmo. A Nigéria, por exemplo, levou a Londres seu próprio fórum de investimento climático para atrair capital diretamente para sua matriz energética, sem esperar pelo calendário das COPs.
Essa mudança de lógica é o insight mais relevante da semana para quem pensa fomento e CT&I fora dos grandes centros. Ela descentraliza a autoridade de quem pode liderar processos de transição. Não é mais o tamanho da delegação nacional que determina a relevância de um território no jogo climático e tecnológico. É a clareza da proposta, a consistência do repertório e a disposição de aparecer na sala certa.
O Climate Innovation Forum e a geografia do capital
A abertura oficial da semana aconteceu no Guildhall, sede histórica da City of London Corporation, no que o secretário britânico de Energia e Segurança Net Zero, Ed Miliband, chamou de “Superbowl” da semana climática. O Climate Innovation Forum reuniu cerca de 2.500 lideranças de governos, empresas, finanças e sociedade civil de mais de sessenta países, ancorado formalmente na Agenda de Ação da COP30, sob a liderança do embaixador brasileiro André Corrêa do Lago, presidente da conferência que o Brasil sediará. A pauta do dia foi direta: como transformar compromisso climático em capital de verdade, com sessões dedicadas a energia, finanças, resiliência e inteligência artificial.
O dado mais relevante para investidores e gestores públicos não foi um anúncio isolado, foi um padrão. As discussões sobre capital catalítico e finanças combinadas para mercados emergentes mostraram que o setor está migrando de doação para estrutura, de filantropia para instrumento financeiro replicável. Isso interessa diretamente às fundações de amparo à pesquisa fora do eixo Sul-Sudeste: o caminho para financiar ciência aplicada em biomas como o Pantanal não passa mais só por edital público, passa por desenho de instrumento de capital que combine recurso público, garantia internacional e retorno mensurável.
Inteligência artificial também ocupou lugar central, não como promessa, mas como ferramenta de eficiência operacional concreta. Estimativas apresentadas na semana indicam que aplicações de IA podem destravar centenas de bilhões de dólares anuais em ganhos de sustentabilidade até 2028, a maior parte vindo de eficiência industrial e de equipamentos. Em projetos de energia solar e eólica, gêmeos digitais já reduzem paradas não programadas e aumentam a produção de energia de forma mensurável. Para o Centro-Oeste, com sua matriz energética renovável em expansão e sua base agroindustrial de dados, esse é um território de oportunidade ainda pouco explorado.
Onde está a capital do cleantech, e por que essa pergunta também é nossa
Fechei a semana no Undaunted Innovation Hub, no Imperial College London, em um debate ao vivo sobre uma pergunta que parecia distante do Brasil, mas não é: onde está, de fato, a capital do cleantech na Europa? A resposta que emergiu não foi uma cidade, foi um modelo. Os territórios que se consolidam como referência em tecnologia limpa são aqueles que conseguem amarrar três pontas ao mesmo tempo: universidade com pesquisa aplicada relevante, fundo de capital paciente disposto a investir em escala piloto, e governo subnacional capaz de reduzir o risco regulatório do primeiro contrato.
Essa é exatamente a equação que falta resolver no Centro-Oeste. Temos o ativo científico, o Pantanal como bioma de relevância biológica global, a Rota Bioceânica como corredor logístico estratégico, um cluster de celulose em formação acelerada, reservas de minerais críticos ainda pouco mapeadas. O que não temos consolidado é a ponta da governança universitária que transforma esses ativos em ecossistema investível, e não em parque tecnológico vazio. A diferença entre um polo de inovação real e um conjunto de prédios bonitos sem pesquisa continua sendo a mesma em Londres, em Amsterdã ou em Campo Grande: quem ancora o processo é a universidade que pesquisa, não o edifício que hospeda.
O Brasil que precisa estar na sala
A semana também deixou claro que a redução de metano e outros poluentes de curta duração deixou de ser pauta ambiental marginal e passou a ser tratada como agenda de segurança energética, saúde pública e resiliência econômica, com reuniões de alto nível reunindo o secretário-geral da ONU, o presidente da COP31 e chefes de governo de pequenas economias insulares particularmente expostas ao clima extremo. Para o Brasil, anfitrião da COP30, essa reformulação do discurso é estratégica: a pauta climática deixou de ser apenas sobre compromisso futuro e passou a ser sobre entrega presente, mensurável, financiável.
Dialoguei com lideranças de mais de trinta países durante a semana e voltei com uma confirmação prática de algo que defendo há uma carreira inteira na gestão de CT&I: autoridade não vem do cargo, vem do repertório, da consistência e da disposição de estar na sala certa, fazendo a pergunta certa. Não fui a Londres como autoridade investida de função pública. Fui como alguém liderou fundações de amparo à pesquisa, que defende ciência aplicada sem fronteira, e que sabe que o financiamento dessa ciência depende de gente disposta a acreditar antes que o resultado esteja pronto.
O Pantanal, a bioeconomia e o Centro-Oeste merecem um lugar nesse mapa global de capital climático e inovação. A conversa em Londres mostrou o caminho. Cabe a nós construir a ponte.















